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A máscara e o Carnaval

A máscara e o Carnaval

Por Reinaldo Paes Barreto – membro do Conselho Empresarial de Cultura da ACRJ

A fantasia (com trocadilho) de “brincar” de ser outro, é velha como as pirâmides de Guizé. Desde as máscaras do tribalismo africano, passando pela “maquiagem” dos indígenas, pelas divindades orientais e, sobretudo, pela projeção da “persona”, no teatro grego, o ser humano sempre se sentiu tentado a ser (também) um outro. Por uma noite, por um período determinado (Carnaval, Semana Santa) ou por muito tempo, caso dos bissexuais, dos famosos quando precisam “se esconder” e, na ponta extrema, dos bandidos e criminosos de guerra, dos foragidos…

Ora, o Carnaval é mamão com açúcar para essa ponte entre o ego e o anonimato. E tudo começou lá longe, na Itália: primeiro em Roma, depois em Veneza.

Mas vamos para o Carnaval de Veneza, que é o DNA desta comemoração. A festa foi instituída em 1094 por um dodge que determinou que antes do início da quaresma, a população tinha direito a usufruir de um período de jogos, brincadeiras e diversão pública. Não era uma novidade. Os romanos, antes disso, já realizam as saturnais, quando festejavam o deus Saturno com banquetes, sacrifícios e subversão dos papéis: os escravos tomavam o lugar dos patrões por um período.

Mas o Carnaval, como toda festa popular de grandes massas, traz no seu enredo a contraditória característica de mesclar a alegria quase infantil do pulo, da música repetida pelo refrão, com a descarga de uma represada violência.
Uma espécie de catarse.

Em Veneza, por exemplo, havia o “desafio dos socos”, em que os homens se reuniam na Ponte dei Pugni (ponte dos socos) para trocar sopapos.

E, no Brasil, havia a prática do “entrudo”, brincadeira falsamente inocente que vem desde a época da Colônia, e se estendeu pelos dois impérios, em que a “lógica” era jogar água, farinha, polvilhos, limões, lama e até urina, nos outros. E, pasmem: dentro de casa, mesmo senhoras e donzelas “de fino trato” se divertiam fazendo o mesmo, numa verdadeira explosão de sentimentos reprimidos.

Epílogo: esse “outro(a)”, mascarado, pode ser o seu “algoz” como na peça de Sartre “o inferno são os outros”, pode ser o “o outro do outro”, como na teoria lacaniana (ou seja, é através desse não-eu que o indivíduo se identifica), ou pode ser a tentação de transgredir com o/a mascarado/a, como na marchinha do Chico Buarque, “seja você quem for, seja o que Deus quiser”.

Um bom Carnaval para ambos!

Reinaldo Paes Barreto é assessor da
diretoria do INPI