Artigos de Opinião

Maria Antonieta e o Brigadeiro

Maria Antonieta e o Brigadeiro

Por Reinaldo Paes Barreto, vice-presidente do Conselho Empresarial de Cultura

O que eles têm em comum? Ambos foram vítimas de Fake News. No caso da rainha da França, porque ela nunca disse “se eles não têm pão, comam brioche”. Até porque ela tinha centenas de defeitos, mas burra não era. E mesmo que não soubesse valores em dinheiro, deveria intuir que o brioche é feito com farinha de trigo, açúcar, fermento, ovos, leite e sal, enquanto a “ baguette” não leva nem ovos, nem leite, e deveria custar muito menos.

(No Brasil, hoje, um brioche custa cerca de 6 reais, enquanto um pãozinho francês custa 1,20.)

Ou seja, a população desassistida dos franceses do final do século XVIII jamais teria condições financeiras de trocar “a baguette” por um brioche. Essa frase foi criada por algum pré-marqueteiro dos revolucionários e ajudou a incendiar a fúria dos revoltosos, que derrubaram a Bastilha, a monarquia — e a cabeça do rei e da rainha no chão do cadafalso.

Já no Brasil, a frase não-dita (“não preciso do voto dos marmiteiros”) foi “ressignificada” nas seguintes circunstancias. Deposto Getúlio Vargas, em outubro de1945, já em dezembro realizaram-se eleições presidenciais para presidente da República e para a Assembleia Constituinte. Candidatos: Eurico Gaspar Dutra, Eduardo Gomes, Yedo Fiúza e Mário Rolim Teles.

E o Brigadeiro (“vote no Brigadeiro que é bonito e é solteiro) era franco favorito, até porque se apresentou pela UDN, partido de oposição ao regime que caiu. Contudo, militar é pouco programado para engolir sapos (*) e o Brigadeiro foi estrepitosamente vaiado em um comício na Central e reagiu afirmando que “não precisava dos votos dessa malta de desocupados”.

Foi sopa no mel para o comitê do Dutra.

O deputado federal paulista e petebista Hugo Borghi, se aproveitou a ambiguidade da palavra “malta” e colocou em todas as mídias da época que o Brigadeiro teria dito “que não precisava do voto dos marmiteiros”. Detalhe: a marmita era quase o símbolo do operariado urbano que morava longe, e trazia a comida de casa.

Resultado: ele, Brigadeiro, que era “bonito e solteiro” perdeu para o Dutra, casado e feíssimo, por mais e um milhão de votos. (Dutra = 3,25 milhões de votos e o Brigadeiro = 2,04). Os outros dois nem pontuaram.

(*) O sábio Tancredo Neves dizia que para ser político no Brasil o sujeito(a) tem que aprender e engolir sapo, sentido gosto de rã à provençal…

Reinaldo Paes Barreto é assessor da presidência do INPI