Por Reinaldo Paes Barreto, vice-presidente do Conselho Empresarial de Cultura da ACRJ
Treze de setembro é o Dia Nacional da Cachaça. Com mais de 500 anos de história, pois como disse Gilberto Freyre, “ela vem dos mais velhos dias do Brasil,” a Cachaça é contemporânea da Civilização do Açúcar e dos Ciclos do Ouro e do Café. Ou seja, transitou da Senzala à Casa-Grande, no século XIX, tendo passado ao longo de sua trajetória por “relâmpagos de sucesso” e longos períodos de má fama. No primeiro caso, ela foi quase benta durante a Revolução Pernambucana de 1817 (o último movimento separatista de caráter republicano do período colonial), quando missas foram rezadas utilizando-se a cachaça e a mandioca como representações do corpo e do sangue de Cristo, uma provocação ao reino de Portugal, obediente à liturgia do Vaticano. O segundo, foi durante a Semana de Arte Moderna de 22, quando os “modernistas” Mário e Oswald de Andrade, Menotti Del Picchia, e as pintoras Tarsila do Amaral e Anita Malfatti, bebiam cachaça em flutes de champanhe nos salões chiques da Av Paulista.
Na outra ponta, ela peregrinou quase quatro séculos pelos botequins e biroscas mais rústicos do nosso território, como a bebida do escravo, do negro, do pinguço, funcionando como o consolo e a catarse dos desassistidos.
Mas, de uns trinta anos para cá, a Cachaça subiu ao pódio do produto nacional associado à identidade brasileira. Haja vista, que existem atualmente mais de 1,5 mil alambiques no país e a produção em 2025 ultrapassou 200 milhões de litros por ano. Além de ser o destilado mais consumido nas Américas e o vocábulo com mais sinônimos em nosso idioma. Antônio Houaiss calculou entre 3 mil e 5 mil.
E, desde 2001, o Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), concedeu Indicação Geográfica à “Cachaça do Brasil”. Mas, atenção: este registro determina que se trata de “denominação típica e exclusiva da aguardente de cana produzida no Brasil, com graduação alcoólica de 38% a 48% em volume, a 20º (graus Celsius) e obtida pela destilação do mosto fermentado de cana-de-açúcar, com características sensoriais peculiares, podendo ser adicionada até seis gramas de açucares por litro”.
E além de ser servida “in natura”, ela transferiu o seu DNA para um dos drinques mais consumidos aqui, e lá fora: a caipirinha(*), também declarada genuinamente brasileira pelo decreto 6.871, de 2009. Mas também tem que ser com cachaça, limão e açúcar, não permitindo a utilização de outra fruta nem de outro álcool.
Atualmente, no entanto, mixólogos e bartenders têm incrementado a caipirinha tanto no mosto das frutas (manga, morango e wasabi, maracujá, limão siciliano e manjericão, caju, gengibre e mel), quanto no álcool-base, que pode ser substituído pela vodka, rum, tequila e até pelo Vinho do Porto, branco, seco, como eu costumo preparar.
(*) Reza a lenda que a caipirinha é paulista, porque foi elaborada a partir da velha batida de limão, “remédio” para a garganta dos “seresteiros da garoa”, no Braz e na Mooca, nos anos 1930-1940.
Reinaldo Paes Barreto é assessor da presidência do INPI


