Por Josier Vilar, presidente da Associação Comercial do Rio de Janeiro. Artigo publicado no Diário do Rio
Muito se fala sobre cidades inteligentes. Em geral, a expressão está associada à inteligência artificial, sensores, plataformas digitais, big data e outras tecnologias capazes de tornar a gestão pública mais eficiente.
Tudo isso é importante, mas está longe de ser suficiente.
Uma cidade não se torna inteligente apenas porque incorpora tecnologia. Ela se torna inteligente quando utiliza a inovação para melhorar, de forma concreta, a vida das pessoas.
A verdadeira medida da inteligência de uma cidade está na experiência cotidiana de quem nela vive. Está na tranquilidade de atravessar uma rua sem medo; na segurança de caminhar por calçadas acessíveis e bem conservadas; na confiança de utilizar um transporte público eficiente; na facilidade de acessar serviços públicos de saúde e educação de qualidade; na limpeza dos espaços públicos; na boa iluminação; na preservação do patrimônio urbano; na convivência harmoniosa entre diferentes modos de mobilidade; no respeito ao cidadão.
A tecnologia deve ser um instrumento, nunca um fim em si mesma.
Inteligência artificial, digitalização de serviços públicos, câmeras inteligentes e análise de dados são ferramentas valiosas quando subordinadas a um propósito maior: facilitar a vida das pessoas, ampliar sua segurança, reduzir desigualdades e oferecer serviços públicos mais eficientes e humanizados.
Mas há um componente indispensável para qualquer cidade que pretenda ser verdadeiramente inteligente: a cultura empreendedora.
Não existe cidade inovadora sem cidadãos inovadores. Não existe prosperidade sustentável sem pessoas dispostas a criar, empreender, assumir riscos, gerar empregos, desenvolver soluções e transformar conhecimento em riqueza. A cidade inteligente estimula esse espírito desde a escola, simplifica a vida de quem deseja empreender, reduz a burocracia, oferece segurança jurídica e cria um ambiente favorável ao investimento, à criatividade e à livre iniciativa.
Empreender não é apenas abrir empresas. Significa, antes de tudo, desenvolver uma atitude diante da vida; acreditar que os problemas podem ser transformados em oportunidades e que o futuro pode ser construído pela capacidade criativa de seus cidadãos.
O Rio de Janeiro possui todos os atributos para liderar essa transformação. Dispõe de universidades de excelência, centros de pesquisa, uma economia criativa vibrante, vocação para o turismo, para a cultura, para a saúde, para o esporte e para a inovação.
Entretanto, carrega ainda traços de uma cultura moldada por sua longa condição de capital da República, quando boa parte de sua riqueza orbitava em torno do Estado e de uma lógica patrimonialista.
O grande desafio do Rio é promover uma transformação cultural. Precisamos preservar nossa história e, ao mesmo tempo, construir uma nova identidade para o futuro.
Se o passado moldou o DNA institucional da cidade, o futuro exige a concepção de um novo RNA: um RNA formado pela inovação, pelo empreendedorismo, pela responsabilidade cidadã, pela colaboração entre os setores público e privado e pela confiança nas pessoas como protagonistas do desenvolvimento.
Esse novo RNA deve estar presente em todas as políticas públicas, nas escolas, nas universidades, nas empresas e nas instituições da sociedade civil. Deve inspirar uma cultura em que cada cidadão compreenda que também é responsável pela cidade em que vive.
Uma cidade inteligente não transfere toda a responsabilidade ao poder público. Ela estimula a corresponsabilidade. Valoriza quem cuida dos espaços públicos, respeita as regras de convivência, preserva o patrimônio coletivo, empreende, inova, participa das decisões e contribui para o bem comum.
Por isso, mais do que uma cidade digital, o Rio precisa tornar-se uma cidade de cidadãos. Uma cidade em que a inteligência esteja presente tanto na gestão pública quanto no comportamento coletivo.
A inteligência de uma cidade não é estimada pela quantidade de sensores instalados ou pela velocidade de sua internet. Mede-se pela qualidade de vida que oferece, pela confiança que inspira, pela capacidade de atrair talentos, investimentos e oportunidades, e pelo orgulho que desperta em quem nela vive.
Em última análise, uma cidade inteligente é aquela cuja principal tecnologia é a cidadania. É aquela que incorpora, em seu RNA, uma mensagem permanente: colocar as pessoas no centro de todas as decisões, acolher quem deseja viver e empreender, proteger quem nela circula e criar um ambiente onde inovação, liberdade, responsabilidade e solidariedade caminhem juntas.
Esse é o Rio de Janeiro que queremos e podemos construir.
Foto: Rafa Pereira/Diário do Rio


