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Bets, saúde mental e a ilusão do enriquecimento fácil

Foto: reprodução do Diário do Rio
Foto: reprodução do Diário do Rio

Bets, saúde mental e a ilusão do enriquecimento fácil

Por Josier Vilar, médico e presidente da Associação Comercial do Rio de Janeiro – ACRJ. Artigo publicado no Diário do Rio

Diversos indicadores econômicos, sociais e sanitários já apontam com clareza os danos provocados pela explosão dos jogos eletrônicos de apostas, popularmente conhecidos como bets. O crescimento acelerado desse mercado, impulsionado pela tecnologia digital e pela publicidade massiva, vem produzindo consequências cada vez mais visíveis sobre a saúde mental da população, o endividamento das famílias e o aumento da vulnerabilidade social, especialmente entre jovens e grupos economicamente mais fragilizados.

O mais preocupante é que grande parte dessas plataformas opera com presença limitada no país ou sob mecanismos regulatórios ainda insuficientes para enfrentar a dimensão do problema. Na prática, convivemos com um ambiente de enorme exposição ao jogo, mas ainda carente de controles efetivos por parte do poder público.

Está na hora de o Brasil enfrentar esse debate com a mesma seriedade com que enfrentou o tabagismo décadas atrás. Uma das medidas necessárias é a restrição rigorosa da publicidade de apostas em todas as mídias, incluindo transmissões esportivas, uniformes de clubes de futebol, campanhas publicitárias e ações de influenciadores digitais direcionadas ao público jovem. Não parece razoável que atividades com potencial reconhecido de causar dependência sejam promovidas de forma tão intensa, sedutora e naturalizada no cotidiano da população.

Paralelamente, o país precisa investir de forma permanente em campanhas de conscientização sobre os impactos sociais, familiares, financeiros e psicológicos associados ao jogo compulsivo. O crescente endividamento de milhares de brasileiros já demonstra que estamos diante de um problema real de saúde pública e de equilíbrio financeiro das famílias.

É importante reconhecer, entretanto, que ainda precisamos medir esse impacto com maior rigor técnico e científico. Muitos números atualmente divulgados carecem de validação por instituições independentes e especializadas, o que fragiliza o debate público e dificulta a formulação de políticas mais consistentes e eficazes.

Outro ponto fundamental é destinar parcela significativa da arrecadação gerada pelas apostas para programas de prevenção, apoio psicológico, pesquisa científica e tratamento de dependentes. O transtorno do jogo não pode ser tratado como mera “falta de controle individual”. Trata-se de uma condição clínica séria, comparável a outras formas de dependência, como o alcoolismo, o tabagismo e a dependência química.

A própria Organização Mundial da Saúde reconhece oficialmente essa gravidade. O CID-11 inclui o transtorno do jogo entre os transtornos relacionados a comportamentos aditivos, consolidando o entendimento científico de que a compulsão por apostas pode produzir efeitos devastadores sobre indivíduos, famílias e comunidades.

Também é importante lembrar que, quando a Constituição Federal de 1988 foi promulgada, sequer existiam os jogos online ou a internet como a conhecemos hoje. O mundo mudou profundamente nas últimas décadas, mas nossa capacidade regulatória ainda não acompanha a velocidade das transformações tecnológicas.

Precisamos compreender melhor os impactos das apostas online sobre crianças, adolescentes e populações vulneráveis. Estudos internacionais publicados em periódicos como The Lancet Public Health e Addiction apontam que pessoas com transtorno do jogo apresentam taxas significativamente mais elevadas de ansiedade, depressão e risco de suicídio do que a população em geral. Uma revisão conduzida pela Comissão de Saúde Pública da revista The Lancet em 2024 estimou que cerca de 450 milhões de pessoas no mundo sofrem algum nível de dano associado aos jogos de azar, sendo aproximadamente 80 milhões classificadas com transtorno ou comportamento problemático de jogo.

No Brasil, os sinais também são preocupantes. Levantamento do Banco Central mostrou crescimento expressivo das transferências via Pix para plataformas de apostas, enquanto pesquisas de mercado indicam que milhões de brasileiros realizam apostas regularmente. Estudos da Confederação Nacional do Comércio (CNC) e de instituições financeiras têm alertado para o impacto das apostas sobre o orçamento doméstico, especialmente entre famílias de menor renda, que frequentemente comprometem parcela relevante de seus rendimentos em busca de ganhos rápidos.

No caso do cigarro, a restrição da propaganda foi uma das medidas mais eficazes para reduzir o consumo e proteger a saúde pública. É legítimo questionar se estratégia semelhante não deveria ser considerada diante do atual cenário das apostas eletrônicas.

Vivemos, cada vez mais, uma cultura que valoriza o enriquecimento instantâneo e alimenta a ilusão do ganho fácil. A lógica da aposta passou a ocupar espaço relevante no imaginário coletivo, especialmente entre os mais jovens. O esforço, a formação profissional e a construção gradual de patrimônio parecem perder espaço para a promessa sedutora de ganhos rápidos e sem risco aparente. Pesquisas realizadas no Reino Unido e na Austrália mostram que jovens expostos com frequência à publicidade de apostas esportivas tendem a perceber o jogo como atividade normal do cotidiano e a subestimar seus riscos financeiros, reforçando comportamentos de maior vulnerabilidade ao endividamento e à compulsão.

A antiga metáfora da “cenoura à frente do coelho” deixou de ser apenas uma figura de linguagem. Tornou-se uma realidade cotidiana para milhões de pessoas.

Por isso, além da regulamentação, precisamos investir fortemente em educação financeira, pensamento crítico e formação ética das novas gerações. Uma sociedade emocionalmente fragilizada e financeiramente despreparada torna-se terreno fértil para dependências, manipulações e frustrações coletivas.

Está na hora do Congresso Nacional liderar um amplo debate sobre o tema, reunindo especialistas em saúde mental, economistas da saúde, pesquisadores, educadores, representantes da indústria do jogo, parlamentares e demais setores da sociedade. Um problema dessa magnitude exige uma abordagem multidisciplinar, baseada em evidências e voltada para a proteção da população.

Esse assunto não pode continuar escondido debaixo do tapete.

Os sinais de alerta já estão diante de nós. Algo precisa ser feito — e com urgência.