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Onde mora o verdadeiro perigo da formação médica

Josier Vilar, presidente da ACRJ
Josier Vilar, presidente da ACRJ

Onde mora o verdadeiro perigo da formação médica

Por Josier Vilar, médico e presidente da Associação Comercial do Rio de Janeiro (ACRJ)

No momento em que o Congresso Nacional discute o Exame Nacional de Proficiência Médica (Profimed), iniciativa voltada a reduzir riscos decorrentes da má formação técnica e comportamental de parte dos jovens médicos recém-formados no Brasil, é necessário ampliar a análise sobre as causas estruturais desse problema.

É injusto responsabilizar — e penalizar — exclusivamente os formandos, negando-lhes o exercício profissional. Na maioria dos casos, eles são vítimas de uma engrenagem viciada e irresponsável de um modelo de educação médica que, em determinadas instituições, transforma faculdades em verdadeiras armadilhas educacionais.

O Brasil possui hoje mais de 400 faculdades de medicina. Cerca de 80% são privadas e, dentro desse universo, aproximadamente 90% operam com fins lucrativos. Até aqui, não haveria objeção, pois esse modelo existe em grande parte das economias capitalistas. O problema surge quando, no Brasil, determinados modelos de negócio conduzem a uma formação claramente deficitária.

Diferentemente de um hospital universitário próprio — oneroso e de manutenção complexa —, muitas faculdades optam por utilizar a rede pública de saúde como principal campo de prática médica. Esse é o modelo predominante no país. E é exatamente aí que reside o perigo.

Nesse arranjo, alunos são inseridos em hospitais do SUS ou da rede privada, onde a maioria dos médicos que atuam como mentores não possui formação docente estruturada. Embora sejam, muitas vezes, profissionais experientes na prática clínica, transmitem conhecimento sem respaldo em metodologias educacionais consolidadas. Em outras palavras, grande parte dos responsáveis pela capacitação técnica e comportamental dos estudantes não detém formação pedagógica formal.

Para corrigir essa distorção, é imprescindível que todo hospital que funcione como campo de formação médica conte obrigatoriamente com médicos mentores qualificados para a atividade acadêmica, submetidos a um processo formal de capacitação básica, sob coordenação do Ministério da Educação.

O MEC, por sua vez, precisa ir além da simples autorização de novos cursos e de indicadores superficiais. É urgente estabelecer um sistema de acreditação individual que valide objetivamente as competências docentes dos profissionais que atuam na prática hospitalar. Ao se omitir, o Estado permite que milhares de estudantes sejam formados em ambientes marcados por baixa resolutividade clínica e desconexão com boas práticas assistenciais.

Se desejamos melhorar o ensino médico no Brasil, é preciso inverter a lógica que hoje prioriza a punição do aluno malformado. O foco deve estar na qualificação dos médicos que exercem funções docentes e na acreditação rigorosa dos hospitais formadores.

Artigo publicado no Jornal O Dia