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A Mentira Hich-Tech

Reinaldo Leite Paes Barreto
Reinaldo Leite Paes Barreto

A Mentira Hich-Tech

Por Reinaldo Paes Barreto – vice-presidente do Conselho Empresarial de Assuntos Culturais da ACRJ

Mês de abril começa com a comemoração (?) do Dia da Mentira. Mas, creio que mentira no formato “old fashion”, isto é, uma inverdade, ou uma não-verdade, conforme o grau de intenção dolosa, praticada com o objetivo deliberado de enganar o(a) outro(a). Obviamente, e sendo o ser humano o que ele é – para o bem e para o mal – falsear a verdade funciona em uma escala geométrica de “densidade” que vai da desculpa clássica para justificar um atraso, ou até uma ausência … à ocultação de um cadáver!

Mas, hoje, a presença cada vez mais “perturbadora” da Inteligência Artificial disponível no armário de ferramentas de manipulação da imagem e do som, de pessoas vivas – e mortas – já permite estabelecer um novo tipo de relacionamento pessoal e afetivo: a intimidade artificial (*). Ou seja, a relação  entre um ser humano e um(a) robô, através de aplicativos como o Midjourney, o Dall-E, e outros “serviços da IA”.

No passado remoto, já havia registro de “patologias” sexuais com bonecas infláveis, por exemplo, mas era exceção candidata a cuidados psiquiátricos. Na sequência, o instigante filme “Ela”, lançado em 2013 e dirigido por Spike Jonze, já narrava a saga de um solitário escritor que se apaixona pelo sistema operacional de seu computador…

Era só um aperitivo! Muito recentemente, o surgimento do ChatGPT permite plagiar Cyrano de Bergerac (o brilhante ghostwriter de cartas de amor ardente, por encomenda) e creditar ao mais tosco escriba uma mensagem tão bem escrita que é capaz de abalar o casamento de uma psicanalista! Passo seguinte: novos aplicativos, como o Replika AI, prometem um amigo(a), e até um grande amor, “sempre pronto a te ouvir e compreender”, já nos primeiros encontros. E, para isso, o usuário cria um avatar virtual, personalizado, que, durante as conversas utiliza técnicas de aprendizado e de processamento de linguagens, para aprender o mais possível sobre “a pessoa” e tornar-se um companheiro(a) cada vez mais ajustado às necessidades “do outro(a)”.

— “tenho uma namorada robô e sinto-me incondicionalmente amado …” contou recentemente um escritor, de 37 anos, sobre sua persona “Brooke”, em entrevista anônima ao portal Business Insider.

Nem por acaso, atualmente, em todo o planeta há mais de meio milhão de usuários ativos de aplicativos que propõem a relação “do humano” com um bot inteligente. E isso começa a preocupar o mundo. Qual o futuro previsível: amigos virtuais, amantes digitais, algorítmicos “alcoviteiros”, adoção de emojis como filhos?

Tanto que no fim deste março, mais de 2.400 signatários, capitaneados pelo bilionário Elon Musk, CEO da SpaceX, dono do Twitter e que ambiciona colonizar Marte, Jaan Tallinn, criador do Skype, Steve Wozniak, co-fundador da Apple e outros figurões do ramo “hight-tech”, assinaram uma lista com 23 princípios que a humanidade deverá observar e seguir, para nos blindar dos perigos da Inteligência Artificial, nas próximas décadas.

Resumo da ópera: eu já começo a ficar com saudades da mentirinha social, aquela que não prejudica “o outro”; apenas evita machucar os mais frágeis,  como no caso da tia velha que pergunta: “estou bem, hoje? E você: “linda!”

Indo adiante nessa linha, termino solidário com o poeta gaúcho Mário Quintana, que versejou que “(às vezes) a mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer…

(*) Intimidade artificial, termo cunhado ou pelo filósofo alemão Peter Sloterdijk ou pela psicoterapeuta belga-americana Esther Perel, também autora de um livro sobre Inteligência Erótica.

Reinaldo Paes Barreto é vice-presidente do Conselho Empresarial de Assuntos Culturais da ACRJ, colunista de gastronomia e vinhos e um dos embaixadores do Turismo do Rio.