Menu fechado

Artigos

firula_noticia

Nossa brasilidade….epur si muove!

Armando Mariante é engenheiro e Membro do Conselho Superior da ACRJ

Artigo do Vice-Presidente Financeiro Armando Mariante.

Acordei outro dia no meio da pandemia e fui me distrair/apavorar com as notícias. Ao abrir o jornal, dou de cara com Va Pensiero, linda matéria do Fabio Giambiagi sobre a emocionada e tocante apresentação da ópera Nabucco, no Teatro dell’Opera di Roma em 2011, pelo maestro Riccardo Mutti. Presente à peça estava Berlusconi, então primeiro ministro. A apresentação transcorria bem até que chegou ao canto Va Pensiero, verdadeiro hino informal dos italianos, símbolo das lutas pela unificação da Itália – o Risorgimento – uma possante ode à liberdade.

O Va Pensiero contaminou o público com emoção e fervor. Foi contagiante. Como disse o Giambiagi, tem coisas que não se consegue descrever. Um espírito de patriotismo, nostalgia, melancolia tomou conta do público, diante do lamento dos escravos “Oh pátria minha tão bela e tão perdida”. Mutti, normalmente rigoroso como um bom maestro, captou a emoção daquele momento com os pedidos de bis. Pegou o microfone, falou sobre sua alegria patriótica, sua emoção com o Va Pensiero e com o canto dos escravos e sua preocupação com os destinos da pátria. Informou que atenderia os pedidos de bis. Ouviu-se no teatro uma ovação ensurdecedora com longos e emocionados aplausos.

A leitura desse inspirador artigo trouxe-me à memória a comovente celebração “quarentenal” do aniversário de 78 anos do Gilberto Gil, que acabou de acontecer no ultimo sábado, 28 de junho, com mais de cinquenta artistas cantando “Andar com fé”, preciosa joia de brasilidade que ajudou a espantar um pouco o isolamento a que o vírus nos submeteu; afinal, “a fé não costuma faiá”!

Lembrei-me então com tristeza (memória emocional é danada) do outro Gilberto, o João, o ícone João Gilberto, patrimônio nacional, símbolo de brasilidade que se foi há quase um ano, 6 de julho de 2019. Não tinha pandemia pra dividir o luto, mas, ainda assim, teve pouco lamento aqui na terra; nenhum luto oficial. À época, eu estava distraído em Montevideu quando li a notícia de sua morte num jornal uruguaio, seguida de um comovente editorial sobre o João, artista mundial. Lembro que fiquei emocionado e abatido como se tivesse perdido um ente querido muito próximo. Bateu-me uma nostalgia, “uma melancolia que não sai de mim, não sai de mim, não sai”, de um Brasil que parecia inalcançável.

Lembrei-me (memória emocional é danada) que, graças às curvas do destino, eu estava no último show do João Gilberto no nosso Theatro Municipal – que ninguém imaginava, seria o último – quando ele tocou Chega de Saudade. Até aquele momento a apresentação transcorria bem, mas o Chega de Saudade, tal como o Va Pensiero, contaminou o público com inesperada emoção e fervor. Foi contagiante. Como diz Giambiagi, tem coisas que não se consegue descrever. Um espírito de brasilidade, de carioquice, de melancolia tomou conta do público, que começou a cantar baixinho a música. João, normalmente rigoroso e exigente, se encantou com o coro informal, entrou na pilha da emoção e repetiu a música,pedindo que todos cantassem. Foi uma verdadeira apoteose, como se uma secreta mensagem chegasse dos céus anunciando que aquele era um momento solene e único; não se repetiria.

Lembrei-me então do Aldir Blanc que também se foi recente, levado pela peste do século XXI, também sem luto oficial. O Aldir, conheci-o em Paquetá há, sei lá, 50 anos, ele cantarolando ao violão de noitinha, na Praia Grossa em frente ao Hotel Flamboyant. Na manhã de sua morte, tomado por forte emoção,decidi singelamente homenageá-lo. Ajeitei uma caixinha de som na janela de meu apartamento e arrisquei tocar O Bêbado e o Equilibrista na magistral interpretação de Elis Regina. Para minha surpresa, os vizinhos vieram às janelas e aplaudiram longa e emocionadamente o Aldir. Tem coisas que não se consegue descrever!

Lembrei-me que nossa brasilidade, anestesiada pela pandemia e por tempos tão estranhos, está viva, teimosa, melancólica, marrenta. Lembrei-me da marrentice de Galileu no século XVII, que ao renegar sua tese do heliocentrismo diante do ameaçador tribunal, sussurrou o famoso e pur si muove!

E lembrei-me da gigantesca brasilidade do livro Trópicos Utópicos do nosso Eduardo Giannetti, um dos grandes intelectuais vivos dessas terras, escrito em 2016, muito antes da pandemia, que em seu capítulo final nos fala “de um outro Brasil reconciliado consigo próprio”, e antecipa que “a biodiversidade da nossa geografia e a socio diversidade da nossa história são os trunfos brasileiros diante de uma civilização em crise”. Diz-nos também que “o futuro se redefine sem cessar – ele responde à força e à ousadia do nosso querer. Vem do breu da noite e espessa o raiar da manhã”.

Uma efêmera sensação de alívio substituiu a “melancolia que não sai de mim, não sai de mim, não sai”.

Parafraseando ainda Giannetti, “graças à chama da vitalidade iorubá filtrada pela ternura portuguesa”, nossa marrenta brasilidade e pur si muove!