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Crédito para quem precisa

Angela Costa

Artigo da presidente da Associação Comercial do Rio de Janeiro, Angela Costa, publicado originalmente em O Globo, em 16 de abril.

A economia mundial sofrerá um impacto violento com a pandemia do coronavírus. Estima-se uma recessão jamais vista. Segundo dados da “The Economist”, de 26/3/2020, a economia do G20 deverá se contrair 2,2% em 2020, ante uma previsão anterior de crescimento de 2,3%. Ou seja, uma redução de 5,5% na atividade econômica. Com o comércio e o setor de serviços completamente paralisados, a crise econômica global deverá ser pior do que a Grande Depressão de 1929 e a das grandes guerras mundiais do século XX.

O Brasil não foge à regra. O estudo acima aponta uma queda na atividade da economia brasileira de 7,9% (de um crescimento projetado do PIB de 2,4% para uma recessão de 5,5%). Independentemente de previsões, é fato que a economia parou e a recessão será inevitável. Diante do quadro negativo, as autoridades responsáveis pela política econômica têm tomado medidas de emergência. Concordaram em adiar o recolhimento de alguns impostos e decidiram liberar crédito para a folha de pagamentos de empresas com faturamento anual de R$ 360 mil a R$ 10 milhões.

Nada disso, porém, resolve o problema de capital de giro das micro, pequenas e médias empresas, atingidas de frente pela necessária política de isolamento social. Essas empresas viram, da noite para o dia, cair a zero o faturamento de seus produtos e serviços. E, ainda, convivem com devoluções e inadimplência nas vendas a prazo.

Sem consumidores, as vendas do comércio varejista do Rio de Janeiro, por exemplo, caíram 70%, segundo dados do Instituto Fecomércio de Pesquisas e Análises. Muitas empresas, além de não conseguirem vender suas mercadorias, foram obrigadas a doar ou jogar fora seus estoques por se tratar de produtos perecíveis.

Sofrem as empresas e sofrem os trabalhadores. Os pequenos negócios são responsáveis pela geração de renda de 70% dos brasileiros ocupados no setor privado. As micro e pequenas empresas responderam pela maioria dos empregos de carteira assinada gerados em todo o país. Elas são vitais para a geração de emprego e renda.

É tempo de preservar vidas. Mas há que pensar também na preservação das atividades econômicas que garantem os postos de trabalho. Há que manter vivas as micro, pequenas e médias empresas. O governo não está alheio ao problema. Segundo Paulo Guedes, “se tiver que injetar mais para aliviar o sofrimento dos mais vulneráveis e permitir que as pequenas e médias empresas sobrevivam, acho razoável”.

Mas o crédito até agora não chegou aos que precisam. Apesar da situação de emergência, os bancos comerciais não alteraram suas rotinas. Fazem as mesmas exigências de sempre e pedem as mesmas garantias. Para se habilitar, as empresas têm de apresentar certidão negativa de débito previdenciário, o que elimina um terço delas. Em alguns casos, exigem até mesmo licença ambiental. Um verdadeiro despropósito. Dívidas já assumidas também eliminam qualquer chance de obter novos financiamentos. E, ainda, o fato de que mais de 50% das micro e pequenas empresas ou seus sócios contam com restrições cadastrais, que as deixam afastadas do crédito tradicional. Enfim, o crédito se torna inacessível, retido por entraves descabidos.

O próprio ministro da Economia já concluiu que não adianta apenas reduzir o depósito compulsório para que as instituições financeiras ampliem a oferta de crédito. “Nós aprendemos que liberar compulsório não basta. Empoça mesmo”, disse em videoconferência. A continuar assim, pouquíssimas empresas vão sobreviver à crise provocada pela epidemia de coronavírus. Isso vale para todos os setores: comércio, serviços e indústria.

O governo tem mostrado boa vontade, mas o crédito não está chegando à ponta. O dinheiro tem de ser liberado mais rápido para as empresas. É necessário um olhar diferente neste momento de crise. Vivemos dias excepcionais, e os bancos também têm que dar sua colaboração. Sem isso, não vamos a lugar algum. Vamos, sim, assistir à morte de empresas no comércio, nos serviços e na indústria.

Basta de burocracia, basta de certidões negativas. É preciso flexibilizar as exigências e agilizar o acesso ao crédito. Essa é, sem dúvida, a estratégia capaz de garantir a sobrevivência das micro, pequenas e médias empresas. Só assim, a economia brasileira, mais à frente, terá forças para se recuperar da crise do coronavírus.