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Crise: Pesadelo e Oportunidade

Marcílio Marques Moreira

Artigo do presidente do Conselho Empresarial de Políticas Econômicas da Associação Comercial do Rio, Marcílio Marques Moreira, publicado originalmente em O Globo, em 8 de abril.

Lembra mestre Gabeira: “não é fácil escrever artigos em tempos de pandemia. Os fatos são dinâmicos, nos ultrapassam. São graves e tornam irrelevantes os nossos critérios de importância”.

Ao descrever nosso estado de coisas e seu impacto sobre a prioridade de políticas públicas, Gabeira nos encoraja a explorar experiências passadas, sobretudo para identificar na medida em que momentos de preocupação foram aproveitados, ou não, para repensar rumos e prioridades que comunidades, países e regiões adotaram não só para enfrentar emergências, mas para criar ambientes mais conducentes ao crescimento econômico. E para corrigir gritantes injustiças, assegurando, assim, melhores condições a seus habitantes no pós-crise. Preparação para quando o amanhã chegar!

Líderes mundiais têm lembrado que seus países não haviam testemunhado desafios tão severos desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), em termos de mobilização das respectivas populações, hoje não para lutar contra inimigos conhecidos, mas ironicamente para que permaneçam imóveis em quarentena em suas casas.

Quando rumores de Guerra ainda imaturos surgiram, no início da década de 1930, a mais séria crise econômica do século passado já havia se revelado no Crash da Bolsa de Nova York em 1929, ano, aliás, em que Freud redigiu O Mal Estar da Civilização.

Em 1933, dois marcos de nova era em que crise econômica e boatos de Guerra se aproximam. Os Estados Unidos, epicentro do crash, elegem Roosevelt presidente, enquanto Hitler assume como primeiro-ministro da combalida “República de Weimar”, na Alemanha.

Em seu discurso de posse, Roosevelt arrolou as ingentes dificuldades que assolavam o país, apontando para a contração de valor de todos ativos, a queda nas receitas fiscais, a deterioração dos termos de troca, o desmonte de poupanças e o alto desemprego, dificuldades que hoje também enfrentamos.

Ao encarar a triste realidade de insolente vírus gerando vítimas, muitas indefesas, e acarretando severa desaceleração econômica que nos conduzirá, sem dúvida, à recessão econômica, justamente quando nos preparávamos para significativa recuperação, só ignorada por aqueles que não querem enxergar derrotas e vitórias. 

Não tem sentido, hoje, dada a coincidência de tantas incertezas quanto ao percurso mundial da Covid-19 e a geração de prejuízos econômicos, sociais e psicológicos, procurar projetar o montante do estrago: PIB de 0%, ou de 5% negativos? 

O que importa é não procurar julgar a crise apenas pelos muitos prejuízos que acarretará, mas, também, como inédita oportunidade para sanar velhos legados como os do patrimonialismo luso-brasileiro, que se revela ainda hoje pela captura de políticas públicas em benefício de pessoas ou grupos nos setores público e privado, em vez da esperada busca do “interesse geral ou do Bem Público”. E, ainda, para acelerar a incorporação pelo Estado e pelo setor privado das inovações avançando entre nós, mas à velocidade insatisfatória, como a economia digital e a inteligência artificial. Podemos, também, revisitar a sério múltiplas possibilidades de descentralização espacial e temporal de atividades públicas e privadas, aglomeradas em capitais ou cidades maiores. A prática de home office e de comunicações, cada vez mais eficazes, permitem às empresas se desconcentrarem, o que além de enormes economias para as empresas, possibilitam melhores condições de habitação e transporte para seus funcionários.

Para que resposta uníssona às crises prevaleça, há que reforçar lideranças públicas e privadas, fortalecer o senso de convergência em torno de objetivos comuns, de solidariedade, cooperação e harmonia, e alargar a paixão pelos pobres,  revendo, inclusive, o preconceito às favelas quando vistas como mal a ser exterminado em vez de local a ser reinventado.