Artigos de Opinião

Paulo Freire, inteligência artificial e a formação dos médicos do século XXI

Paulo Freire, inteligência artificial e a formação dos médicos do século XXI

Por Josier Vilar, presidente da ACRJ. Artigo publicado no Correio da Manhã

Dias atrás, encontrei o porteiro do prédio onde moro. Durante nossa conversa, ele me contou que havia sido diagnosticado com hipertensão arterial e diabetes. Após atendimento em uma unidade de saúde, recebeu a prescrição de medicamentos modernos para o tratamento das duas doenças.

Havia, porém, um problema fundamental: ele não conseguira comprá-los. Os preços eram simplesmente incompatíveis com sua realidade econômica.

Esse episódio aparentemente cotidiano me levou a refletir sobre a formação dos nossos médicos. Afinal, de que vale uma prescrição cientificamente correta se o paciente não tem condições de segui-la?

Diante da realidade social e econômica de grande parte da população brasileira, talvez tenha chegado a hora de incorporarmos de maneira mais efetiva à formação médica alguns princípios pedagógicos de Paulo Freire, especialmente sua ideia de partir da realidade concreta para problematizá-la e, a partir dela, construir conhecimento e possibilidades de transformação.

Na medicina, isso significa compreender que não basta conhecer o tratamento mais moderno ou dominar as melhores evidências científicas. É preciso conhecer também quem é o paciente: onde vive, como trabalha, do que se alimenta, quais são seus hábitos, sua estrutura familiar, sua capacidade de compreensão e, inevitavelmente, suas condições econômicas.

Podemos atualizar essa concepção para a medicina do século XXI a partir de quatro pilares: base científica sólida; pensamento crítico e criativo; compreensão da realidade social e econômica do paciente; e utilização responsável das novas tecnologias, inclusive a inteligência artificial, como apoio ao diagnóstico e à construção de um plano terapêutico seguro, eficaz e possível de ser seguido.

Esse desafio se torna ainda mais relevante diante da rápida expansão das escolas médicas e da crescente incorporação de conteúdos digitais ao ensino onde a inteligência artificial passa a ocupar um espaço cada vez maior na formação e na prática profissional.

É uma transformação extraordinária, que deve ser estimulada, mas também compreendida em seus limites.

Algoritmos podem organizar informações, analisar grandes volumes de dados, apoiar diagnósticos e sugerir condutas baseadas em evidências. Mas existe o risco de que a padronização algorítmica contribua para homogeneizar o cuidado se não for acompanhada de julgamento clínico, pensamento crítico e conhecimento da realidade individual de cada paciente.

Dois pacientes com a mesma doença podem precisar de estratégias terapêuticas diferentes não apenas por suas características biológicas, mas também por seus hábitos de vida, condições familiares, culturais e econômicas.

É nesse ponto que a humanização da medicina deixa de ser um discurso abstrato ou sentimental para se transformar em uma ferramenta concreta de qualidade assistencial.

Humanizar não significa abrir mão da tecnologia. Exatamente o contrário. Significa utilizar todo o extraordinário arsenal tecnológico disponível sem permitir que ele substitua aquilo que permanece essencial na medicina: a capacidade de ouvir, compreender, dialogar e decidir junto com o paciente.

O grande desafio dos jovens médicos será justamente compatibilizar esses dois mundos: de um lado, tecnologias cada vez mais sofisticadas, capazes de melhorar diagnósticos, tratamentos e expectativa de vida; de outro, milhões de brasileiros que ainda enfrentam enormes dificuldades econômicas para ter acesso até mesmo a cuidados básicos.

Por isso, precisamos discutir também as ementas e os modelos pedagógicos das escolas médicas. O aprendizado deve ser cada vez mais ativo, participativo e colaborativo, estimulando pensamento crítico e criatividade. E deve ensinar o futuro médico a estabelecer uma comunicação fluida e respeitosa com o paciente, procurando compreender seus hábitos de vida e de consumo, seu ambiente familiar e sua realidade econômica.

O paciente não pode ser apenas o portador de uma doença para a qual um protocolo oferece uma resposta. Ele é uma pessoa inserida em uma realidade concreta.

Uma prescrição inacessível pode ser impecável do ponto de vista farmacológico e fracassar completamente do ponto de vista terapêutico.

Talvez seja justamente aí que Paulo Freire tenha muito a ensinar à medicina contemporânea. Seu pensamento, baseado no diálogo, na problematização da realidade e na construção ativa do conhecimento, pode inspirar uma formação médica mais crítica, mais criativa e mais conectada às necessidades reais da população.

Na era da inteligência artificial, formar bons médicos exigirá muito mais do que ensinar a utilizar novas tecnologias. Exigirá formar profissionais capazes de fazer aquilo que nenhum algoritmo deveria decidir sozinho: compreender a realidade de cada ser humano e transformar conhecimento científico em cuidado possível.

Foto: Magnific