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A epidemia silenciosa das calçadas brasileiras

Foto: Reprodução Diário do Rio
Foto: Reprodução Diário do Rio

A epidemia silenciosa das calçadas brasileiras

Por Josier Vilar – presidente da Associação Comercial do Rio de Janeiro (ACRJ). Artigo publicado no Diário do Rio

Quedas em calçadas quebradas, mal iluminadas e sem padrão revelam uma crise urbana pouco debatida no Brasil. Para Josier Vilar, presidente da ACRJ, o abandono dos passeios públicos já virou problema de saúde, mobilidade e exclusão nas cidades.

Existe uma falha estrutural nas grandes cidades brasileiras — e no Rio de Janeiro não é diferente. Uma falha que não aparece nos discursos oficiais, não entra nas prioridades orçamentárias e raramente mobiliza indignação pública: as pessoas estão caindo nas ruas.

Não se trata de uma metáfora. São quedas reais, diárias, evitáveis — provocadas por calçadas quebradas, desniveladas, mal iluminadas, mal projetadas e abandonadas.

Paradoxalmente, o cidadão comum se indigna com buracos nas ruas que comprometem a vida útil do seu automóvel, mas, com relação às calçadas criminosas, pouco ou nada se fala.

Estudos internacionais demonstram que quedas de pedestres em calçadas geram muito mais lesões do que as ocasionadas por acidentes com veículos. Ou seja, a maior ameaça para quem anda na cidade não está no trânsito. Está no chão de suas terríveis calçadas.

No Brasil, a situação é ainda mais grave — porque sequer medimos o problema. Não há estatísticas consolidadas. Não há metas públicas. Não há política estruturada. Há, sim, improviso, abandono, transferência de responsabilidade e desigualdade urbana de acordo com o CEP da região.

Isso não é apenas ineficiência. É negligência.

Calçadas ruins não são apenas desconfortáveis. Elas afastam os idosos das ruas, gerando mais depressão, dificultam a vida de pessoas com deficiência de locomoção, limitam a circulação de famílias, reduzem o fluxo de comércio, impactam na experiência de turistas, comprometem a saúde e aumentam a judicialização.

Uma cidade que impede o caminhar com segurança é, na prática, uma cidade que exclui. Num país como o Brasil, que envelhece rapidamente, ignorar isso é um erro estratégico grave.

Cidades que não cuidam de suas calçadas pagam uma conta alta por sua negligência. Grandes cidades como Barcelona, Londres e Nova Iorque já incluíram o cuidado das calçadas em suas políticas públicas.

Transferir a responsabilidade para cada proprietário de imóvel, sem padrão, sem fiscalização e sem coordenação, produziu exatamente o que vemos: um mosaico de improviso, insegurança e desigualdade.

Não existe cidade moderna e inteligente com calçada tratada como problema privado. Calçada é infraestrutura pública. Cabe ao Estado garantir a mobilidade segura de seus cidadãos.

Medir o impacto das calçadas nos cidadãos cariocas e fluminenses deveria ser o primeiro e imediato passo. Uma cidade que derruba seus cidadãos através de suas calçadas não pode se chamar de inteligente, inclusiva ou sustentável.