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Um Cisne Negro ou o Cansaço de Gaia?

Armando Mariante é engenheiro e Membro do Conselho Superior da ACRJ

Artigo do vice-presidente Financeiro da ACRJ, Armando Mariante.

O planeta está diante de um fenômeno raríssimo, mas não inédito, conhecido como Cisne Negro, desses que ocorrem duas ou três vezes a cada século.

O flagelo do Covid 19, e seu gigantesco impacto nas sociedades, talvez só encontre paralelo em 1918, há 102 anos atrás, quando, à miséria e ao caos reinante no velho continente no pós guerra, veio se somar a catastrófica gripe espanhola que ceifou 50 milhões de vidas. Naquela época, o planeta tinha um bilhão e meio de habitantes. Foi apocalíptico. Nossa geração nem de longe imagina o que foi aquele tempo de sofrimento e penúria. No Brasil, onde a “espanhola” chegou de navio, o sofrimento foi grande. O presidente eleito Rodrigues Alves não pode tomar posse; a gripe matou-o antes.

O termo Cisne Negro foi cunhado por Nassim Taleb, libanês, professor da Universidade de Massachussetts e autor do best-seller A Lógica do Cisne Negro (The Black Swan, em inglês). Seu livro, lançado em 2007, permaneceu anos na lista dos mais vendidos.

Um Cisne Negro tem três atributos: (1) é raríssimo e imprevisível; (2) tem impacto planetário (3) só pode ser quantificado e dimensionado a posteriori.

A taxa normal de mortalidade no planeta é de 7,4 habitantes por mil (0.74%). Isso significa 57,4 milhões de mortes por ano. O novo vírus matou até dia 23 de marco, perto de 17 mil pessoas, número estatisticamente ainda inexpressivo.

No entanto, isso parece ser apenas o início. O pior está à frente. A humanidade poderá perder adicionalmente dois ou três milhões de pessoas em 2020. Pode ser mais que isso. Não é possível prever com precisão. 

Temos, na prática, três grandes problemas na saúde: (1) a facilidade como o vírus se propaga, sua resistência e sobrevida fora de organismos humanos (2) sua agressividade ao atacar pulmões de idosos e portadores de doenças pré-existentes, e (3) a falta de estrutura hospitalar (leitos e equipamentos hospitalares, UTI, médicos e enfermeiros) para receber a parcela da população que precisa de internação.

Assusta a explosiva curva de crescimento que já está “contratada” no mundo e no Brasil. Um nível nunca visto de isolamento social foi subitamente aplicado em todas as cidades como principal remédio para achatar a curva de propagação; para acalmar a fera invisível. E com isso, parou o mundo.

A economia mundial puxou repentinamente o freio de mão e deu um “cavalo de pau”, algo inimaginável até em ficções científicas. O tombo na atividade econômica, a queda violenta no emprego, a gigantesca destruição de riqueza global e a necessidade de inédita intervenção dos governos e estados soberanos na economia, para preservar minimamente o “contrato social” das sociedades, mudará, tudo indica, a formatação do ambiente econômico do planeta.

No Brasil, o tsunami ainda não chegou; apenas arranhou a superfície. Somos a Itália amanhã. O olho do furacão, tudo indica, nos atingirá em 20/30 dias. Para além da gigantesca guerra sanitária, já se vislumbra claramente os gravíssimos problemas sociais e econômicos, tão assustadores quanto o problema na saúde. O enorme contingente da população desassistida, com emprego informal e precário, incluindo os que vivem em comunidades e favelas, sofrerá muito quando o furacão chegar. Parece inexorável um aumento gigantesco no desemprego, sobretudo para os trabalhadores informais e microempreendedores.

Nesse nefasto contexto, o bolsa família, maior programa de distribuição e renda do planeta, estudado em inúmeras universidades mundo afora, se apresenta como um poderoso canal de distribuição de recursos voltado aos mais necessitados. É uma benção o Brasil contar com um programa como este já instalado, funcionando bem, de baixo custo, linha direta com os mais vulneráveis. Sua imediata ampliação é uma óbvia e urgente necessidade. A extensão do seguro desemprego é também outro poderoso instrumento para preservar minimamente os mais vulneráveis. O auxílio financeiro direto às empresas, sobretudo as PMEs, é fundamental para atenuar o índice de mortalidade. Morrerão pessoas e morrerão empresas.

Diversos governos (Reino Unido, Alemanha, Estados Unidos etc.) estão injetando recursos diretamente na população e nas empresas. Eis aí o verdadeiro estado liberal de que se necessita agora; aquele que intervém com potência e magnitude quando se faz necessário.

Como nos diz Yuval Harari, um dos grandes intelectuais vivos, autor do famoso Sapiens, a história indica que a proteção real virá do compartilhamento de informações científicas confiáveis. O planeta Terra está permanentemente sujeito a mutações genéticas virais. Trata-se, na prática, de uma loteria ao contrário, uma loteria do azar. A probabilidade de surgir um vírus devastador como esse com o qual estamos lutando é próxima de zero… mas não é zero. Raramente, o vírus ganha a loteria, mas às vezes ganha. E o Covid-19 acaba de ganhar a loteria genética contra a humanidade.

Ao fim e ao cabo, nós humanos venceremos a batalha mais uma vez, mas o custo será elevadíssimo.

Para além do enfoque do Cisne Negro, é inevitável uma reflexão sobre nossa inserção como raça humana no planeta. Afinal, nossa história desde os primórdios é plena em arrogância e ignorância. Nossa hubris sempre esteve presente: afinal, vemo-nos como imagem e semelhança de Deus!

Temos tratado mal Gaia, a mãe-terra, como os gregos nos ensinaram. Não aprendemos bem a lição. Será que Gaia cansou e produziu um ser nanoscópico muito menor que uma simples bactéria, que mal pode ser classificado como um ser vivo? Mas com fenomenal capacidade de, em poucas semanas, nos desorganizar e nos desesperar? Será que seremos capazes, dessa vez, de enxergar, nossa desimportância, nossa fragilidade, nossa pequenês em Gaia?

Afinal, contra esse minúsculo ser, nossos mais sofisticados armamentos nucleares e supersônicos são absolutamente inúteis. Investimos na direção errada como nos lembrou Bill Gates numa profética palestra em 2014. Uma pandemia sempre esteve no radar. Nossa hubris ofuscou nossa visão.

O coronavírus é um Cisne Negro, mas também simboliza, quem sabe, o cansaço de Gaia. Fernanda Torres escreveu outro dia:

“Talvez esse vírus seja mesmo um recado de Deus, um Deus farto das trevas e ansioso por um renascimento”.