{"id":7943,"date":"2021-06-14T14:22:47","date_gmt":"2021-06-14T17:22:47","guid":{"rendered":"https:\/\/acrj.org.br\/?p=7943"},"modified":"2021-06-14T14:25:08","modified_gmt":"2021-06-14T17:25:08","slug":"lost-in-translation","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/2021\/06\/14\/lost-in-translation\/","title":{"rendered":"Lost in Translation"},"content":{"rendered":"\n<p>Por Joisa Dutra(*)<\/p>\n\n\n\n<p>Artigo publicado pela presidente do Conselho Empresarial de Energia da ACRJ no Jornal Valor Econ\u00f4mico, dia 14 de junho <\/p>\n\n\n\n<p>O filme excelente com Bill Murray ilustra bem o significado do t\u00edtulo desse artigo: h\u00e1 casos ou momentos em que a tradu\u00e7\u00e3o n\u00e3o consegue exprimir o verdadeiro significado da mensagem. Mas n\u00e3o \u00e9 apenas na passagem entre diferentes idiomas que a mensagem se perde: algumas vezes na mesma l\u00edngua a comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 imprecisa. E o setor el\u00e9trico padece desse problema. A quest\u00e3o \u00e9 qual \u00e9 o custo de uma mensagem mal interpretada.<\/p>\n\n\n\n<p>Em livro publicado em maio de 2001, Roberto Rockman e L\u00facio Mattos se debru\u00e7am sobre o epis\u00f3dio do racionamento, enfrentado pelo pa\u00eds em 2001. Para gerenciar a crise ocorrida, h\u00e1 duas d\u00e9cadas foi criada a C\u00e2mara de Gest\u00e3o da Crise do Setor El\u00e9trico (GCE). Coincid\u00eancia ou n\u00e3o, o lan\u00e7amento do livro ganha ainda mais notoriedade diante das preocupa\u00e7\u00f5es com o tema da seguran\u00e7a do suprimento que ocupam espa\u00e7o crescente na m\u00eddia. Ao mesmo tempo em que analistas de mercado revisam para cima suas proje\u00e7\u00f5es de crescimento do PIB na recupera\u00e7\u00e3o da crise da pandemia &#8211; algo a celebrar &#8211; produzem-se tamb\u00e9m relat\u00f3rios que tentam interpretar e prever clima para avaliar a probabilidade de racionamento em um futuro pr\u00f3ximo. Mas afinal, vamos escapar?<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 a\u00ed que o leitor n\u00e3o versado entra pelo cano: opini\u00f5es de especialistas para c\u00e1 e para l\u00e1 podem deix\u00e1-lo confuso no meio do caminho. Alguns prenunciam o caos e outros asseguram que n\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o para p\u00e2nico. H\u00e1 ainda os que afirmam que o voo de 2021 se dar\u00e1 em c\u00e9u de brigadeiro (que aqui significa chuva), talvez com algumas poucas nuvens em 2022. Como se n\u00e3o bastassem as incertezas da economia e da pol\u00edtica, o analista de mercado e o governo ainda precisam lidar com previs\u00f5es clim\u00e1ticas e do futuro da pandemia.&nbsp; Mas ser\u00e1 que \u00e9 esse o caminho? Argumento que n\u00e3o: essa aposta n\u00e3o cabe ao setor el\u00e9trico.<\/p>\n\n\n\n<p>A performance do setor, como o de qualquer ind\u00fastria de infraestrutura, deveria ser avaliada pelo atendimento aos objetivos de pol\u00edtica. Claro que m\u00faltiplos interesses n\u00e3o raro produzem resultados conflitantes. Mas alguns s\u00e3o inquestion\u00e1veis: o Objetivo de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel n\u00famero 7, das Na\u00e7\u00f5es Unidas, \u00e9 assegurar acesso universal a energia confi\u00e1vel, sustent\u00e1vel e a pre\u00e7os acess\u00edveis. Cabe avaliar nossa capacidade de atingi-lo.<\/p>\n\n\n\n<p>O Brasil \u00e9 verdadeiramente privilegiado no seu potencial de alinhamento com o futuro do setor el\u00e9trico na transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica. Temos uma matriz renov\u00e1vel que caminha para uma diversifica\u00e7\u00e3o alinhada com as tend\u00eancias mundiais. Relat\u00f3rios recentes da Ag\u00eancia Internacional de Energia (IEA) reafirmam a import\u00e2ncia das fontes renov\u00e1veis vari\u00e1veis para atingir a meta de economia carbono neutra em 2050. Partindo de um base predominantemente hidrel\u00e9trica, a energia e\u00f3lica fez uma estreia em alto estilo e cheia de talento. Nossa produtividade \u00e9 alta, fruto de ventos de alta qualidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas \u00e9 a expans\u00e3o da gera\u00e7\u00e3o solar a aposta da IEA nessa d\u00e9cada. J\u00e1 arrancamos com pol\u00edticas para gera\u00e7\u00e3o distribu\u00edda, que penalizam mais usu\u00e1rios de menor poder aquisitivo. &nbsp;Mas essa fonte tem enorme capacidade de prosperar no pa\u00eds: h\u00e1 espa\u00e7os virtuosos e com ganhos de efici\u00eancia para plantas de maior porte (<em>utility scale<\/em>); expans\u00e3o em edifica\u00e7\u00f5es, atrav\u00e9s da regula\u00e7\u00e3o e novos padr\u00f5es construtivos; e arranjos de tecnologia limpa para substituir combust\u00edveis f\u00f3sseis nos sistemas isolados, que atualmente custam quase R$ 8 bilh\u00f5es por ano aos consumidores das demais regi\u00f5es do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Parece que voamos em c\u00e9u de brigadeiro, exceto por um problema: nossa produ\u00e7\u00e3o predominantemente renov\u00e1vel insiste em nos assustar quanto \u00e0 real capacidade de atender ao objetivo de seguran\u00e7a e confiabilidade do suprimento. A capacidade de armazenamento \u2013 seguro do sistema \u2013 diminui em termos relativos e adiciona incerteza. Ora, mas o consumidor faz o que lhe cabe: paga a conta toda sem questionar, a despeito dos elevados encargos (distribui\u00e7\u00e3o intrassetorial) e tributos. (Cabe lembrar que eletricidade \u00e9 um dos itens mais onerados da economia.) E mesmo assim, de tempos em tempos surge a preocupa\u00e7\u00e3o com apag\u00f5es e racionamentos.<\/p>\n\n\n\n<p>Vale voltar e aprender com a hist\u00f3ria narrada por Rockman e Mattos: em 2001 o governo federal apenas percebeu a crise quando j\u00e1 era tarde. E os custos foram altos: 2pp de crescimento do PIB, segundo algumas estimativas. Isso sem contar a transi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, que aconteceu no Brasil e que \u00e9 frequente em pa\u00edses que enfrentam crises de suprimento de energia el\u00e9trica. N\u00e3o \u00e9 que todos tenham sido pegos desavisados. O governo central recebeu uma mensagem, mas ficou <em>Lost in Translation<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Na crise do racionamento, o pre\u00e7o de curto prazo chegou a atingir o valor unit\u00e1rio do Custo do D\u00e9ficit de Energia El\u00e9trica (CDEF). Essa vari\u00e1vel \u00e9 importante insumo para os modelos computacionais que definem o despacho (produ\u00e7\u00e3o) energ\u00e9tico otimizado da produ\u00e7\u00e3o. Uma das recomenda\u00e7\u00f5es da GCE foi de que se promovesse uma atualiza\u00e7\u00e3o metodol\u00f3gica e revis\u00e3o dos valores do par\u00e2metro. A \u00faltima vez que fora estimada foi em 1988. Significa que os mecanismos de aloca\u00e7\u00e3o ou programa\u00e7\u00e3o do despacho (produ\u00e7\u00e3o) \u00e0 \u00e9poca estavam considerando um CDEF que n\u00e3o refletia o real custo de escassez da energia el\u00e9trica para a sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p>O comando da GCE de foi atendido mais de uma d\u00e9cada depois. Conduzimos em dois momentos essa an\u00e1lise: uma primeira vez sem altera\u00e7\u00e3o metodol\u00f3gica e em uma segunda oportunidade, atrav\u00e9s de uma for\u00e7a tarefa que por cerca de tr\u00eas anos se debru\u00e7ou sobre o tema. Inovamos e no FGV CERI utilizamos m\u00e9todos emp\u00edricos capazes de capturar o custo econ\u00f4mico de n\u00e3o ter energia el\u00e9trica: a valores de 2017, o custo unit\u00e1rio do d\u00e9ficit ou escassez (por MWh) vai de R$7.028,01 a R$ 18.855,51 para cortes de at\u00e9 5% e maiores que 20%, respectivamente. Esses valores s\u00e3o compat\u00edveis com a experi\u00eancia internacional. Os valores correspondentes pelos m\u00e9todos utilizados no setor el\u00e9trico s\u00e3o de R$3.877,35 para redu\u00e7\u00f5es na disponibilidade de at\u00e9 5% e a R$7.940,16, para maiores que 20%.<\/p>\n\n\n\n<p>Supreendentemente (ou n\u00e3o) as estimativas do custo econ\u00f4mico representam quase o dobro do CDEF analisado pelos m\u00e9todos tradicionais do setor el\u00e9trico e que s\u00e3o considerados nos problemas de otimiza\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica do setor. O que isso significa? Essa diferen\u00e7a ilustra a import\u00e2ncia de que o governo federal de modo mais amplo invista na tradu\u00e7\u00e3o das mensagens para n\u00e3o ficar perdido e com isso alterar nosso plano de voo na rota da recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica que tanto precisamos. A decis\u00e3o do governo para o pa\u00eds deve considerar o benef\u00edcio l\u00edquido esperado sobre a perspectiva social de assegurar acesso \u00e0 energia segura e confi\u00e1vel para o desenvolvimento da economia. Ainda h\u00e1 tempo para tomar medidas e evitar crise. Mas pouco.<\/p>\n\n\n\n<p>O artigo na \u00edntegra tamb\u00e9m est\u00e1 dispon\u00edvel <strong><a href=\"https:\/\/valor.globo.com\/opiniao\/coluna\/lost-in-translation.ghtml\">aqui<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>(*) Presidente do Conselho Empresarial de Energia da ACRJ e diretora do FGV CERI<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Joisa Dutra(*)<br \/>\nArtigo publicado pela presidente do Conselho Empresarial de Energia da ACRJ no Jornal Valor Econ\u00f4mico, dia 14 de junho<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":4096,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[12],"tags":[],"class_list":["post-7943","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7943","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7943"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7943\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4096"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7943"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7943"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7943"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}