{"id":6352,"date":"2020-12-02T17:00:00","date_gmt":"2020-12-02T20:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/acrj.org.br\/?p=6352"},"modified":"2021-01-28T11:33:36","modified_gmt":"2021-01-28T14:33:36","slug":"gritos-e-sussuros-na-eleicao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/2020\/12\/02\/gritos-e-sussuros-na-eleicao\/","title":{"rendered":"GRITOS E SUSSURROS NA ELEI\u00c7\u00c3O"},"content":{"rendered":"\n<p>Por Ricardo Cravo Albin (*)<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO maior problema do mundo de hoje \u00e9 que as pessoas inteligentes est\u00e3o cheias de d\u00favidas e os idiotas cheios de certezas\u201d (Bertrand Russel, um dos fundadores do Pen Clube Internacional).<\/p>\n\n\n\n<p>Valho-me do t\u00edtulo da obra-prima de Ingmar Bergman, contextualizando gritos e sussurros, para apontar algumas observa\u00e7\u00f5es sobre o 2\u00ba turno do domingo. Come\u00e7o por discordar da afirma\u00e7\u00e3o de que esta elei\u00e7\u00e3o foi vit\u00f3ria de uma democracia n\u00e3o radicalizada. N\u00e3o para quem assistiu aos gritos de expl\u00edcita grosseria de Crivella no Rio, insistindo em chamar mil vezes seu concorrente Paes de ladr\u00e3o, usando a velha t\u00e1tica de Goebbels, \u201cuma mentira repetida mil vezes acaba por virar verdade\u201d. Outro grito vergonhoso foi o esgar\u00e7amento familiar no Recife entre os primos Mar\u00edlia e Jo\u00e3o, que enxovalharam a mem\u00f3ria de Miguel Arraes, arrastando, a meu ver, a ilustre matriarca Magdalena, dama da mais alta estirpe de quem me fiz amigo quando exilada em Paris. Uma l\u00e1stima e uma surpresa jamais vistas pelas fam\u00edlias tradicionais do Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Cabe um par\u00eantese \u00e0 timidez da maioria dos candidatos ao se referirem \u00e0 trag\u00e9dia da pandemia. Sab\u00edamos que a Grande Peste a abrir a d\u00e9cada de 2020, e mesmo o s\u00e9culo XXI, elegeria ou recusaria prefeitos candidatos \u00e0 reelei\u00e7\u00e3o. O exato caso de Crivella que, apadrinhado pelo autor do negativismo expl\u00edcito \u201c\u00e9 apenas uma gripezinha\u201d, tingiu-se de culpabilidade. Al\u00e9m de contrariar medidas de seguran\u00e7a sanit\u00e1ria, como o seu descuidado padrinho presidencial, a quem bajulava a ponto de ousar se declarar contra lockdowns, pela abertura de escolas, bares, cinemas e at\u00e9 campos de futebol. Teve que arcar com impopularidade recorde provocada por absurdos. Incluindo, \u00e9 claro, a aus\u00eancia de gest\u00e3o e atos err\u00e1ticos ao longo do mandato. Al\u00e9m de adotar o que havia jurado n\u00e3o fazer ao se eleger, exercitar gest\u00e3o em benef\u00edcio de sua Igreja Universal do Reino de Deus, fato que rendeu ao colunista Ancelmo Gois frase definidora \u201cO Bispo Macedo e o mission\u00e1rio R. R. Soares, ao apoiarem Crivella, sobrinho dos dois, viraram s\u00f3cios da ru\u00edna pol\u00edtica do prefeito. \u00c9 o pre\u00e7o pelo h\u00e1bito desses cl\u00e9rigos em juntar pol\u00edtica com religi\u00e3o, mistura t\u00f3xica que nunca deu certo.\u201d O que \u00e9 fartamente atestado pela sobriedade da Igreja Cat\u00f3lica. Cujo Pont\u00edfice Francisco e mesmo nosso Arcebispo Dom Orani jamais admitiram interfer\u00eancia pol\u00edtica, muito menos bancadas de parlamentares e neg\u00f3cios com televis\u00f5es e emissoras de r\u00e1dio comerciais, a concorrer com iniciativa privada. Carapu\u00e7a, de resto, a se imputar ao Capit\u00e3o, batizado no Rio Jord\u00e3o pelo agora preso Pastor Everaldo, al\u00e9m de defender isen\u00e7\u00e3o imoral de impostos para centenas de igrejas neopentecostais.<\/p>\n\n\n\n<p>Voltando ao nosso Rio, Eduardo Paes venceu por uma margem assombrosa de votos apenas pela lembran\u00e7a pol\u00edtica de sua gest\u00e3o anterior, exatamente a causa do fiasco de Crivella nesses quatro anos. Al\u00e9m do apoio que recebeu de seu padrinho presidencial, o grande derrotado neste segundo turno. Sou for\u00e7ado a acreditar, como a maioria, que o ac\u00famulo de erros de pura gest\u00e3o est\u00e3o a afundar a administra\u00e7\u00e3o federal. O pior: at\u00e9 parece que o Presidente n\u00e3o sabe lidar com o exerc\u00edcio da arte sutil de fazer pol\u00edtica. O que nos d\u00e1 prova o absurdo de endossar constantes tolices e malfeitos de ministros, como os inaceit\u00e1veis do Meio Ambiente e do Itamaraty. At\u00e9 mesmo de alguns de seus \u201czeros\u201d, como o insulto diplom\u00e1tico imposto pelo filho-senador ao nosso principal parceiro econ\u00f4mico, a China.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma amiga do BID, a quem cito aqui com alguma frequ\u00eancia pela paix\u00e3o que devota ao Brasil, me telefonou ontem preocupada com a velocidade da queda de prest\u00edgio do nosso Presidente. E para meu constrangimento, grita-me pelo telefone \u2013 Mour\u00e3o j\u00e1. A seguir sussurra maliciosamente \u2013 uma pena, os olhos azuis do Capit\u00e3o me far\u00e3o falta&#8230; Ela me confidenciou n\u00e3o ter acreditado no que escreveu Mandetta no livro \u201cUm paciente chamado Brasil\u201d, ao atribuir a Bolsonaro a loucura de ter declarado que o Embaixador chin\u00eas queria derrub\u00e1-lo, bem como os Presidentes Macri e Pinera, pulverizando a direita na Am\u00e9rica do Sul. Absurdo insustent\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Voltando a Eduardo Paes e a seu apenas semi-esbo\u00e7ado governo, cabe apontar escolhas acertadas como o Deputado Marc\u00edlio Calero, que lutou contra a corrup\u00e7\u00e3o em Bras\u00edlia, ou o arquiteto e urbanista Washington Fajardo, a quem caber\u00e1 rever, esperamos, o projeto dos puxadinhos do Crivella, insolente interven\u00e7\u00e3o a satisfazer \u00e0 especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria. Paes tamb\u00e9m assegurou solicitar ao Presidente um m\u00ednimo de 450 mil testes n\u00e3o utilizados pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, al\u00e9m de reabrir j\u00e1 e j\u00e1 1.500 leitos na Cidade para este 2\u00ba ciclo da pandemia. Embora admita, grave erro, a descartar lockdown neste estado emergencial em que mergulhamos.<\/p>\n\n\n\n<p>Os assessores j\u00e1 anunciados por Paes dever\u00e3o tratar a cidade aos sussurros de carinhos e mesuras. E jamais aos gritos estridentes de mal gestor.<\/p>\n\n\n\n<p>(*) Benem\u00e9rito e presidente honor\u00e1rio do Conselho Empresarial de Assuntos Culturais da ACRJ<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Ricardo Cravo Albin<br \/>\nValho-me do t\u00edtulo da obra-prima de Ingmar Bergman<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":3093,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[12],"tags":[],"class_list":["post-6352","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6352","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6352"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6352\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3093"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6352"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6352"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6352"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}