{"id":4543,"date":"2020-07-01T16:53:05","date_gmt":"2020-07-01T19:53:05","guid":{"rendered":"https:\/\/acrj.org.br\/?p=4543"},"modified":"2020-07-02T12:50:48","modified_gmt":"2020-07-02T15:50:48","slug":"nossa-brasilidade-epur-si-muove","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/2020\/07\/01\/nossa-brasilidade-epur-si-muove\/","title":{"rendered":"Nossa brasilidade\u2026.epur si muove!"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Artigo do Vice-Presidente Financeiro Armando Mariante<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Acordei outro dia no meio da pandemia e fui me distrair\/apavorar com as not\u00edcias. Ao abrir o jornal, dou de cara com <em>Va Pensiero<\/em>, linda mat\u00e9ria do Fabio Giambiagi sobre a emocionada e tocante apresenta\u00e7\u00e3o da \u00f3pera <em>Nabucco<\/em>, no Teatro dell\u2019Opera di Roma em 2011, pelo maestro Riccardo Mutti. Presente \u00e0 pe\u00e7a estava Berlusconi, ent\u00e3o primeiro ministro. A apresenta\u00e7\u00e3o transcorria bem at\u00e9 que chegou ao canto<em> Va Pensiero<\/em>, verdadeiro hino informal dos italianos, s\u00edmbolo das lutas pela unifica\u00e7\u00e3o da It\u00e1lia \u2013 o Risorgimento &#8211; uma possante ode \u00e0 liberdade.<\/p>\n\n\n\n<p>O <em>Va Pensiero<\/em> contaminou o p\u00fablico com emo\u00e7\u00e3o e fervor. Foi contagiante. Como disse o Giambiagi, tem coisas que n\u00e3o se consegue descrever. Um esp\u00edrito de patriotismo, nostalgia, melancolia tomou conta do p\u00fablico, diante do lamento dos escravos \u201cOh p\u00e1tria minha t\u00e3o bela e t\u00e3o perdida\u201d. Mutti, normalmente rigoroso como um bom maestro, captou a emo\u00e7\u00e3o daquele momento com os pedidos de bis. Pegou o microfone, falou sobre sua alegria patri\u00f3tica, sua emo\u00e7\u00e3o com o <em>Va Pensiero<\/em> e com o canto dos escravos e sua preocupa\u00e7\u00e3o com os destinos da p\u00e1tria. Informou que atenderia os pedidos de bis. Ouviu-se no teatro uma ova\u00e7\u00e3o ensurdecedora com longos e emocionados aplausos.<\/p>\n\n\n\n<p>A leitura desse inspirador artigo trouxe-me \u00e0 mem\u00f3ria a comovente celebra\u00e7\u00e3o \u201cquarentenal\u201d do anivers\u00e1rio de 78 anos do Gilberto Gil, que acabou de acontecer no ultimo s\u00e1bado, 28 de junho, com mais de cinquenta artistas cantando \u201cAndar com f\u00e9\u201d, preciosa joia de brasilidade que ajudou a espantar um pouco o isolamento a que o v\u00edrus nos submeteu; afinal, \u201ca f\u00e9 n\u00e3o costuma fai\u00e1\u201d!<\/p>\n\n\n\n<p>Lembrei-me ent\u00e3o com tristeza (mem\u00f3ria emocional \u00e9 danada) do outro Gilberto, o Jo\u00e3o, o \u00edcone Jo\u00e3o Gilberto, patrim\u00f4nio nacional, s\u00edmbolo de brasilidade que se foi h\u00e1 quase um ano, 6 de julho de 2019. N\u00e3o tinha pandemia pra dividir o luto, mas, ainda assim, teve pouco lamento aqui na terra; nenhum luto oficial. \u00c0 \u00e9poca, eu estava distra\u00eddo em Montevideu quando li a not\u00edcia de sua morte num jornal uruguaio, seguida de um comovente editorial sobre o Jo\u00e3o, artista mundial. Lembro que fiquei emocionado e abatido como se tivesse perdido um ente querido muito pr\u00f3ximo. Bateu-me uma nostalgia, \u201cuma melancolia que n\u00e3o sai de mim, n\u00e3o sai de mim, n\u00e3o sai\u201d, de um Brasil que parecia inalcan\u00e7\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Lembrei-me (mem\u00f3ria emocional \u00e9 danada) que, gra\u00e7as \u00e0s curvas do destino, eu estava no \u00faltimo show do Jo\u00e3o Gilberto no nosso Theatro Municipal \u2013 que ningu\u00e9m imaginava, seria o \u00faltimo \u2013 quando ele tocou <em>Chega de Saudade<\/em>. At\u00e9 aquele momento a apresenta\u00e7\u00e3o transcorria bem, mas o <em>Chega de Saudade<\/em>, tal como o <em>Va Pensiero<\/em>, contaminou o p\u00fablico com inesperada emo\u00e7\u00e3o e fervor. Foi contagiante. Como diz Giambiagi, tem coisas que n\u00e3o se consegue descrever. Um esp\u00edrito de brasilidade, de carioquice, de melancolia tomou conta do p\u00fablico, que come\u00e7ou a cantar baixinho a m\u00fasica. Jo\u00e3o, normalmente rigoroso e exigente, se encantou com o coro informal, entrou na pilha da emo\u00e7\u00e3o e repetiu a m\u00fasica,pedindo que todos cantassem. Foi uma verdadeira apoteose, como se uma secreta mensagem chegasse dos c\u00e9us anunciando que aquele era um momento solene e \u00fanico; n\u00e3o se repetiria.<\/p>\n\n\n\n<p>Lembrei-me ent\u00e3o do Aldir Blanc que tamb\u00e9m se foi recente, levado pela peste do s\u00e9culo XXI, tamb\u00e9m sem luto oficial. O Aldir, conheci-o em Paquet\u00e1 h\u00e1, sei l\u00e1, 50 anos, ele cantarolando ao viol\u00e3o de noitinha, na Praia Grossa em frente ao Hotel Flamboyant. Na manh\u00e3 de sua morte, tomado por forte emo\u00e7\u00e3o,decidi singelamente homenage\u00e1-lo. Ajeitei uma caixinha de som na janela de meu apartamento e arrisquei tocar <em>O B\u00eabado e o Equilibrista<\/em> na magistral interpreta\u00e7\u00e3o de Elis Regina. Para minha surpresa, os vizinhos vieram \u00e0s janelas e aplaudiram longa e emocionadamente o Aldir. Tem coisas que n\u00e3o se consegue descrever!<\/p>\n\n\n\n<p>Lembrei-me que nossa brasilidade, anestesiada pela pandemia e por tempos t\u00e3o estranhos, est\u00e1 viva, teimosa, melanc\u00f3lica, marrenta. Lembrei-me da <em>marrentice<\/em> de Galileu no s\u00e9culo XVII, que ao renegar sua tese do heliocentrismo diante do amea\u00e7ador tribunal, sussurrou o famoso <em>e pur si muove<\/em>!<\/p>\n\n\n\n<p>E lembrei-me da gigantesca brasilidade do livro Tr\u00f3picos Ut\u00f3picos do nosso Eduardo Giannetti, um dos grandes intelectuais vivos dessas terras, escrito em 2016, muito antes da pandemia, que em seu cap\u00edtulo final nos fala \u201cde um outro Brasil reconciliado consigo pr\u00f3prio\u201d, e antecipa que \u201ca biodiversidade da nossa geografia e a socio diversidade da nossa hist\u00f3ria s\u00e3o os trunfos brasileiros diante de uma civiliza\u00e7\u00e3o em crise\u201d. Diz-nos tamb\u00e9m que \u201co futuro se redefine sem cessar \u2013 ele responde \u00e0 for\u00e7a e \u00e0 ousadia do nosso querer. Vem do breu da noite e espessa o raiar da manh\u00e3\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma ef\u00eamera sensa\u00e7\u00e3o de al\u00edvio substituiu a \u201cmelancolia que n\u00e3o sai de mim, n\u00e3o sai de mim, n\u00e3o sai\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Parafraseando ainda Giannetti, \u201cgra\u00e7as \u00e0 chama da vitalidade iorub\u00e1 filtrada pela ternura portuguesa\u201d, nossa marrenta brasilidade <em>e pur si muove<\/em>!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo do Vice-Presidente Financeiro Armando Mariante.<br \/>\nAcordei outro dia no meio da pandemia e fui me distrair\/apavorar com as not\u00edcias. 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