{"id":3837,"date":"2020-03-26T10:22:34","date_gmt":"2020-03-26T13:22:34","guid":{"rendered":"http:\/\/acrj.org.br\/?p=3837"},"modified":"2024-07-12T16:37:21","modified_gmt":"2024-07-12T19:37:21","slug":"um-cisne-negro-ou-o-cansaco-de-gaia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/2020\/03\/26\/um-cisne-negro-ou-o-cansaco-de-gaia\/","title":{"rendered":"Um Cisne Negro ou o Cansa\u00e7o de Gaia?"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Artigo do vice-presidente Financeiro da ACRJ, Armando Mariante.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O planeta est\u00e1 diante de um fen\u00f4meno rar\u00edssimo, mas n\u00e3o in\u00e9dito, conhecido como Cisne Negro, desses que ocorrem duas ou tr\u00eas vezes a cada s\u00e9culo. <\/p>\n\n\n\n<p>O flagelo do\nCovid 19, e seu gigantesco impacto nas sociedades, talvez s\u00f3 encontre paralelo\nem 1918, h\u00e1 102 anos atr\u00e1s, quando, \u00e0 mis\u00e9ria e ao caos reinante no velho\ncontinente no p\u00f3s guerra, veio se somar a catastr\u00f3fica gripe espanhola que\nceifou 50 milh\u00f5es de vidas. Naquela \u00e9poca, o planeta tinha um bilh\u00e3o e meio de\nhabitantes. Foi apocal\u00edptico. Nossa gera\u00e7\u00e3o nem de longe imagina o que foi\naquele tempo de sofrimento e pen\u00faria. No Brasil, onde a \u201cespanhola\u201d chegou de\nnavio, o sofrimento foi grande. O presidente eleito Rodrigues Alves n\u00e3o pode\ntomar posse; a gripe matou-o antes.<\/p>\n\n\n\n<p>O termo Cisne\nNegro foi cunhado por Nassim Taleb, liban\u00eas, professor da Universidade de\nMassachussetts e autor do best-seller A L\u00f3gica do Cisne Negro (The Black Swan,\nem ingl\u00eas). Seu livro, lan\u00e7ado em 2007, permaneceu anos na lista dos mais\nvendidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Um Cisne Negro\ntem tr\u00eas atributos: (1) \u00e9 rar\u00edssimo e imprevis\u00edvel; (2) tem impacto planet\u00e1rio\n(3) s\u00f3 pode ser quantificado e dimensionado a posteriori.<\/p>\n\n\n\n<p>A taxa normal de\nmortalidade no planeta \u00e9 de 7,4 habitantes por mil (0.74%). Isso significa 57,4\nmilh\u00f5es de mortes por ano. O novo v\u00edrus matou at\u00e9 dia 23 de marco, perto de 17\nmil pessoas, n\u00famero estatisticamente ainda inexpressivo. <\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, isso\nparece ser apenas o in\u00edcio. O pior est\u00e1 \u00e0 frente. A humanidade poder\u00e1 perder\nadicionalmente dois ou tr\u00eas milh\u00f5es de pessoas em 2020. Pode ser mais que isso.\nN\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel prever com precis\u00e3o.&nbsp; <\/p>\n\n\n\n<p>Temos, na\npr\u00e1tica, tr\u00eas grandes problemas na sa\u00fade: (1) a facilidade como o v\u00edrus se\npropaga, sua resist\u00eancia e sobrevida fora de organismos humanos (2) sua\nagressividade ao atacar pulm\u00f5es de idosos e portadores de doen\u00e7as\npr\u00e9-existentes, e (3) a falta de estrutura hospitalar (leitos e equipamentos\nhospitalares, UTI, m\u00e9dicos e enfermeiros) para receber a parcela da popula\u00e7\u00e3o\nque precisa de interna\u00e7\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<p>Assusta a\nexplosiva curva de crescimento que j\u00e1 est\u00e1 \u201ccontratada\u201d no mundo e no Brasil.\nUm n\u00edvel nunca visto de isolamento social foi subitamente aplicado em todas as\ncidades como principal rem\u00e9dio para achatar a curva de propaga\u00e7\u00e3o; para acalmar\na fera invis\u00edvel. E com isso, parou o mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>A economia\nmundial puxou repentinamente o freio de m\u00e3o e deu um \u201ccavalo de pau\u201d, algo\ninimagin\u00e1vel at\u00e9 em fic\u00e7\u00f5es cient\u00edficas. O tombo na atividade econ\u00f4mica, a\nqueda violenta no emprego, a gigantesca destrui\u00e7\u00e3o de riqueza global e a\nnecessidade de in\u00e9dita interven\u00e7\u00e3o dos governos e estados soberanos na\neconomia, para preservar minimamente o \u201ccontrato social\u201d das sociedades,\nmudar\u00e1, tudo indica, a formata\u00e7\u00e3o do ambiente econ\u00f4mico do planeta. <\/p>\n\n\n\n<p>No Brasil, o tsunami ainda n\u00e3o chegou; apenas arranhou a superf\u00edcie. Somos a It\u00e1lia amanh\u00e3. O olho do furac\u00e3o, tudo indica, nos atingir\u00e1 em 20\/30 dias. Para al\u00e9m da gigantesca guerra sanit\u00e1ria, j\u00e1 se vislumbra claramente os grav\u00edssimos problemas sociais e econ\u00f4micos, t\u00e3o assustadores quanto o problema na sa\u00fade. O enorme contingente da popula\u00e7\u00e3o desassistida, com emprego informal e prec\u00e1rio, incluindo os que vivem em comunidades e favelas, sofrer\u00e1 muito quando o furac\u00e3o chegar. Parece inexor\u00e1vel um aumento gigantesco no desemprego, sobretudo para os trabalhadores informais e microempreendedores.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse nefasto contexto, o bolsa fam\u00edlia, maior programa de distribui\u00e7\u00e3o\ne renda do planeta, estudado em in\u00fameras universidades mundo afora, se\napresenta como um poderoso canal de distribui\u00e7\u00e3o de recursos voltado aos mais\nnecessitados. \u00c9 uma ben\u00e7\u00e3o o Brasil contar com um programa como este j\u00e1\ninstalado, funcionando bem, de baixo custo, linha direta com os mais\nvulner\u00e1veis. Sua imediata amplia\u00e7\u00e3o \u00e9 uma \u00f3bvia e urgente necessidade. A\nextens\u00e3o do seguro desemprego \u00e9 tamb\u00e9m outro poderoso instrumento para\npreservar minimamente os mais vulner\u00e1veis. O aux\u00edlio financeiro direto \u00e0s\nempresas, sobretudo as PMEs, \u00e9 fundamental para atenuar o \u00edndice de mortalidade.\nMorrer\u00e3o pessoas e morrer\u00e3o empresas.<\/p>\n\n\n\n<p>Diversos governos (Reino Unido, Alemanha, Estados Unidos etc.) est\u00e3o\ninjetando recursos diretamente na popula\u00e7\u00e3o e nas empresas. Eis a\u00ed o verdadeiro\nestado liberal de que se necessita agora; aquele que interv\u00e9m com pot\u00eancia e\nmagnitude quando se faz necess\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Como nos diz Yuval Harari, um dos grandes intelectuais vivos, autor do\nfamoso Sapiens, a hist\u00f3ria indica que a prote\u00e7\u00e3o real vir\u00e1 do compartilhamento\nde informa\u00e7\u00f5es cient\u00edficas confi\u00e1veis. O planeta Terra est\u00e1 permanentemente\nsujeito a muta\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas virais. Trata-se, na pr\u00e1tica, de uma loteria ao\ncontr\u00e1rio, uma loteria do azar. A probabilidade de surgir um v\u00edrus devastador\ncomo esse com o qual estamos lutando \u00e9 pr\u00f3xima de zero\u2026 mas n\u00e3o \u00e9 zero. Raramente,\no v\u00edrus ganha a loteria, mas \u00e0s vezes ganha. E o Covid-19 acaba de ganhar a\nloteria gen\u00e9tica contra a humanidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao fim e ao cabo, n\u00f3s humanos venceremos a batalha mais uma vez, mas o\ncusto ser\u00e1 elevad\u00edssimo.<\/p>\n\n\n\n<p>Para al\u00e9m do enfoque do Cisne Negro, \u00e9 inevit\u00e1vel uma reflex\u00e3o sobre\nnossa inser\u00e7\u00e3o como ra\u00e7a humana no planeta. Afinal, nossa hist\u00f3ria desde os\nprim\u00f3rdios \u00e9 plena em arrog\u00e2ncia e ignor\u00e2ncia. Nossa hubris sempre esteve\npresente: afinal, vemo-nos como imagem e semelhan\u00e7a de Deus! <\/p>\n\n\n\n<p>Temos tratado mal Gaia, a m\u00e3e-terra, como os gregos nos ensinaram. N\u00e3o\naprendemos bem a li\u00e7\u00e3o. Ser\u00e1 que Gaia cansou e produziu um ser nanosc\u00f3pico\nmuito menor que uma simples bact\u00e9ria, que mal pode ser classificado como um ser\nvivo? Mas com fenomenal capacidade de, em poucas semanas, nos desorganizar e\nnos desesperar? Ser\u00e1 que seremos capazes, dessa vez, de enxergar, nossa\ndesimport\u00e2ncia, nossa fragilidade, nossa pequen\u00eas em Gaia? <\/p>\n\n\n\n<p>Afinal, contra esse min\u00fasculo ser, nossos mais sofisticados armamentos\nnucleares e supers\u00f4nicos s\u00e3o absolutamente in\u00fateis. Investimos na dire\u00e7\u00e3o\nerrada como nos lembrou Bill Gates numa prof\u00e9tica palestra em 2014. Uma\npandemia sempre esteve no radar. Nossa hubris ofuscou nossa vis\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O coronav\u00edrus \u00e9 um Cisne Negro, mas tamb\u00e9m\nsimboliza, quem sabe, o cansa\u00e7o de Gaia. Fernanda Torres escreveu outro dia: <\/p>\n\n\n\n<p>\u201cTalvez esse v\u00edrus seja mesmo um recado de Deus, um Deus farto das trevas e ansioso por um renascimento\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo do vice-presidente Financeiro da ACRJ, Armando Mariante. 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