{"id":3437,"date":"2019-04-26T23:08:00","date_gmt":"2019-04-27T02:08:00","guid":{"rendered":"http:\/\/acrj2020.profissional.ws\/?p=3437"},"modified":"2020-03-02T23:09:08","modified_gmt":"2020-03-03T02:09:08","slug":"brexit-ce-de-politica-e-comercio-exterior-discute-consequencias-da-saida-da-inglaterra-da-ue","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/2019\/04\/26\/brexit-ce-de-politica-e-comercio-exterior-discute-consequencias-da-saida-da-inglaterra-da-ue\/","title":{"rendered":"Brexit: CE de Pol\u00edtica e Com\u00e9rcio Exterior discute consequ\u00eancias da sa\u00edda da Inglaterra da UE"},"content":{"rendered":"\n<p>Nos \u00faltimos tempos, as p\u00e1ginas das editorias internacionais dos jornais ao redor do mundo repetem, quase que diariamente, um neologismo: Brexit. Desde que os brit\u00e2nicos optaram, em referendo realizado em 2016, pela sa\u00edda do Reino Unido da Uni\u00e3o Europeia, o governo brit\u00e2nico vem tentando negociar uma sa\u00edda do bloco que agrade todos os lados. A tarefa da primeira-ministra da Gr\u00e3-Bretanha, Theresa May, \u00e9 ingrata. L\u00edder do Partido Conservador, May conseguiu um acordo que evitou &#8211; ou adiou &#8211; o pior: a sa\u00edda do pa\u00eds do bloco passou para dia 31 de outubro, evitando o que os ingleses v\u00eam chamando de \u201chard Brexit\u201d, ou seja, uma retirada sem acordo, que traria consequ\u00eancias imprevis\u00edveis para o Reino Unido.<\/p>\n\n\n\n<p>Na quarta-feira, 24 de abril, o Conselho Empresarial de Pol\u00edtica e Com\u00e9rcio Exterior da Associa\u00e7\u00e3o Comercial do Rio de Janeiro recebeu tr\u00eas especialistas no assunto para explicarem motiva\u00e7\u00f5es, efeitos e consequ\u00eancias n\u00e3o s\u00f3 para o Reino Unido, mas para o mundo. E \u00e9 claro, o poss\u00edvel impacto na rela\u00e7\u00e3o do Brasil com o reino de Elizabeth II em um cen\u00e1rio p\u00f3s-Brexit. O Benem\u00e9rito e Presidente do Conselho, Eduardo Lessa Bastos, apresentou os convidados para a plateia, que lotou o audit\u00f3rio Ruy Barreto da Casa de Mau\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Sa\u00edda do Reino Unido do bloco europeu \u00e9 oportunidade para o Brasil<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O professor do curso de gradua\u00e7\u00e3o em Rela\u00e7\u00f5es Internacionais do IBMEC, Marcio Sette Fortes, falou principalmente sobre as consequ\u00eancias do Brexit e como o Brasil pode aproveitar a oportunidade para recompor sua rela\u00e7\u00e3o comercial com o Reino Unido. \u201c\u00c0 medida que o Brexit avan\u00e7a, o Brasil devia tamb\u00e9m avan\u00e7ar nas negocia\u00e7\u00f5es\u201d, afirmou.<\/p>\n\n\n\n<p>Para analisar o cen\u00e1rio, Sette Fortes partiu do ponto de vista do com\u00e9rcio exterior. \u201cQuando falamos do Brexit, nos referimos a uma desvincula\u00e7\u00e3o do Reino Unido de um conjunto de obriga\u00e7\u00f5es que \u00e9 muito mais amplo do que parece. Isso n\u00e3o \u00e9 algo que se fa\u00e7a de uma vez, o que explica a demora para que haja uma sa\u00edda negociada que evite uma s\u00e9rie de problemas para o pr\u00f3prio Reino Unido diante do seu principal parceiro comercial, a Uni\u00e3o Europeia\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo ele, sair da Uni\u00e3o Europeia significa n\u00e3o ter mais acesso \u00e0s vantagens aduaneiras e tarif\u00e1rias dadas aos membros do bloco. Dessa forma, os produtos brit\u00e2nicos v\u00e3o enfrentar barreiras tarif\u00e1rias das quais atualmente s\u00e3o isentos, enquanto a Inglaterra permanece no \u201cclube\u201d, como ilustrou Sette Fortes. A sa\u00edda para o Reino Unido, nesse caso, seria fazer parte de uma nova configura\u00e7\u00e3o do com\u00e9rcio internacional, que poderia, inclusive, envolver o Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa forma, o Brasil poderia potencialmente se livrar de entraves que envolvem atualmente a rela\u00e7\u00e3o do Mercosul com a Uni\u00e3o Europeia, abrindo negocia\u00e7\u00f5es diretas com o Reino Unido. \u201cEssa possibilidade de negocia\u00e7\u00e3o direta poderia promover teoricamente uma abertura maior aos produtos brasileiros no mercado brit\u00e2nico\u201d, explicou.<\/p>\n\n\n\n<p>O Reino Unido, ao perder os benef\u00edcios por fazer parte do bloco, precisar\u00e1, de acordo com Sette Fortes, pleitear a entrada na Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Com\u00e9rcio (OMC). \u201cAo pleitear sua entrada na organiza\u00e7\u00e3o, o pa\u00eds ter\u00e1 que apresentar um projeto tarif\u00e1rio tamb\u00e9m. O Brasil poderia aproveitar este momento para colocar seus produtos em melhores condi\u00e7\u00f5es naquele mercado, uma vez que estar\u00e1 livre da interfer\u00eancia da Uni\u00e3o Europeia\u201d. No entanto, o professor ressaltou: \u201cMuitos outros pa\u00edses j\u00e1 sa\u00edram na frente nessa corrida de negocia\u00e7\u00e3o com o Reino Unido. Naturalmente, essa \u00e9 uma corrida onde quem chega por \u00faltimo fica sem espa\u00e7o no&nbsp;<em>market share<\/em>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Perdas do Brexit podem pequenas diante de potenciais ganhos internacionais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Membro do Conselho Diretor e do Conselho Empresarial de Pol\u00edtica e Com\u00e9rcio Exterior da ACRJ, professor do curso de gradua\u00e7\u00e3o em Finan\u00e7as do IBMEC e s\u00f3cio da Probatus, Marcelo Henriques de Brito comentou os dilemas que Reino Unido atravessa no processo do Brexit.<\/p>\n\n\n\n<p>O palestrante lembrou a divis\u00e3o do pa\u00eds na decis\u00e3o pela sa\u00edda do bloco europeu. Os resultados do referendo evidenciaram a tend\u00eancia de Esc\u00f3cia e Irlanda do Norte de permanecerem na Uni\u00e3o Europeia, enquanto a maior parte do restante do Reino Unido optou pela sa\u00edda.<\/p>\n\n\n\n<p>Brito levantou aspectos relevantes para a discuss\u00e3o sobre o Brexit, considerando as diversas formas de intera\u00e7\u00e3o e interse\u00e7\u00e3o entre regimes pol\u00edticos e sistemas econ\u00f4micos. De acordo com o palestrante, a Uni\u00e3o Europeia poderia ser classificada no modelo \u201cativismo governamental\u201d, que tende a apoiar a assist\u00eancia e interven\u00e7\u00e3o governamental com o argumento de ser mais eficaz para combater desigualdades e assegurar o bem-estar coletivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele destacou que, apesar dos aspectos positivos do ativismo governamental, o modelo acaba gerando carga tribut\u00e1ria e regulamenta\u00e7\u00e3o maiores e, eventualmente, problemas de governan\u00e7a. Por\u00e9m, segundo o consultor, este modelo \u201cesgar\u00e7a\u201d a estrutura do capital ao \u201cdescapitalizar o capitalismo\u201d com \u201crisco pol\u00edtico\u201d pela incerteza econ\u00f4mica. \u201cNeste contexto, capitalismo \u2018sem capital\u2019 e \u2018com receios\u2019 gera estagna\u00e7\u00e3o\u201d, explicou. Assim, ele apontou uma distin\u00e7\u00e3o entre a Uni\u00e3o Europeia e o liberalismo brit\u00e2nico, que permitiu o cultivo de ideias t\u00e3o divergentes quanto de pensadores da economia como Adam Smith, John Keynes e at\u00e9 do alem\u00e3o Karl Marx, cuja obra foi influenciada e possibilitada pela circunst\u00e2ncias vigentes e recursos brit\u00e2nicos.<\/p>\n\n\n\n<p>Brito reconhece que o fen\u00f4meno do Brexit decorre tamb\u00e9m da pr\u00f3pria altera\u00e7\u00e3o da identidade e coes\u00e3o social brit\u00e2nica, que estaria em um acelerado processo de \u2018reavalia\u00e7\u00e3o\u2019, ap\u00f3s os movimentos de descoloniza\u00e7\u00e3o das \u00faltimas d\u00e9cadas &#8211; com o retorno dos brit\u00e2nicos de antigas col\u00f4nias &#8211; em contraponto a chegada dos imigrantes de pa\u00edses sem v\u00ednculo com a cultura brit\u00e2nica.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir dessa premissa, o professor analisou o quadro do capitalismo brit\u00e2nico atual de forma assertiva. \u201cOs brit\u00e2nicos foram os primeiros a enxergar a import\u00e2ncia do com\u00e9rcio exterior. Agora, vislumbram que, na nova revolu\u00e7\u00e3o dos neg\u00f3cios, com formas diferentes de financiar e de regulamentar, \u00e9 preciso pensar, decidir e agir de maneira diferente. Possivelmente, o dinheiro que os brit\u00e2nicos teriam que pagar para sair da Uni\u00e3o Europeia pode ser \u2018<em>peanuts<\/em>\u2019 diante dos ganhos poss\u00edveis de serem obtidos com atividades pioneiras no mercado financeiro internacional\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Fatores hist\u00f3ricos que possibilitaram o Brexit<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Fundador e coordenador do curso de gradua\u00e7\u00e3o em Rela\u00e7\u00f5es Internacionais do IBMEC, Jos\u00e9 Luiz Niemeyer dos Santos Filho abordou o Brexit do ponto de vista da Inglaterra e tentou analisar as causas hist\u00f3ricas para o acontecimento. \u201cPenso que o fen\u00f4meno do Brexit tem uma explica\u00e7\u00e3o fundamentalmente hist\u00f3rica\u201d, afirmou.<\/p>\n\n\n\n<p>Santos Filho lembrou que, com o fim da Guerra Fria, te\u00f3ricos como Samuel Huntington afirmam que foi criado um mundo unimultipolar \u201cSob o governo Bill Clinton, j\u00e1 p\u00f3s-Guerra Fria, voc\u00ea tem um momento de proximidade entre os pa\u00edses, mas com os EUA impondo a chamada \u2018Pax Americana\u2019, um sistema internacional centrado da superpot\u00eancia norte americana\u201d. De acordo com o professor, \u00e9 nesse contexto que a Inglaterra percebe que \u00e9 interessante manter uma alian\u00e7a estrat\u00e9gica com os EUA no mundo p\u00f3s queda da URSS. \u201cO fim da Guerra Fria \u00e9 t\u00e3o grave que talvez seja o principal motivador do Brexit\u201d, defendeu.<\/p>\n\n\n\n<p>O evento do 11 de setembro tamb\u00e9m foi determinante na opini\u00e3o do professor.&nbsp;\u201cPor mais que o ataque terrorista a Nova York tenha atingido o cora\u00e7\u00e3o dos EUA, foi uma oportunidade para que, a partir do governo George W. Bush, o pa\u00eds reafirmasse seu poder como superpot\u00eancia. A Inglaterra segue os EUA de forma clara na chamada Guerra ao Terror, constru\u00edda pelo supracitado presidente norte-americano\u201d, afirmou, ressaltando que essa aproxima\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi apenas no campo militar, via Otan, mas tamb\u00e9m nos acordos bilaterais entre EUA e Inglaterra.<\/p>\n\n\n\n<p>A crise de 2008 seria um outro fato relevante para o Brexit. \u201cA crise n\u00e3o teve origem no capitalismo voraz dos EUA. A crise de 2008 teve car\u00e1ter financeiro, sendo criada pelo estado norte-americano, que fomentou a compra de im\u00f3veis no pa\u00eds com juros baratos. Ela come\u00e7ou no lado financeiro e escalou para o lado econ\u00f4mico, atrapalhando a estrutura produtiva norte-americana, europeia, brasileira, asi\u00e1tica e de diversos pa\u00edses\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo o professor, a Inglaterra percebeu que crises como esta podem ocorrer de tempos em tempos. Desta forma, talvez fosse vantajoso para o pa\u00eds n\u00e3o ficar atrelado, do ponto de vista macroecon\u00f4mico, com a Uni\u00e3o Europeia. Novamente, a Inglaterra preferiu a aproxima\u00e7\u00e3o com os EUA, j\u00e1 que \u201c\u00e9 para ficar com algu\u00e9m nesse baile que est\u00e1 muito indefinido\u201d. Mesmo com a crise origin\u00e1ria dos EUA, a Inglaterra achou interessante essa aproxima\u00e7\u00e3o, dado que os EUA foram os primeiros a sa\u00edrem da pr\u00f3pria crise, como defende o professor.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o professor vai mais longe, apontando como vari\u00e1vel importante tamb\u00e9m a a\u00e7\u00e3o da R\u00fassia na Crimeia. \u201cPutin contrata milicianos, invade e toma metade de um pa\u00eds em pleno s\u00e9culo XXI. Nesse contexto geoestrat\u00e9gico, me reaproximo da Uni\u00e3o Europeia ou dos EUA? Foi a pergunta que a Inglaterra se fez\u201d. Para Santos Filho, a Inglaterra ficar atrelada aos interesses da UE, enquanto Fran\u00e7a e Alemanha &#8211; l\u00edderes do bloco &#8211; questionam os posicionamentos dos norte-americanos, n\u00e3o \u00e9 interessante para o pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, a onda de imigra\u00e7\u00e3o for\u00e7ada de norte-africanos e mu\u00e7ulmanos para a Europa tamb\u00e9m seria, na vis\u00e3o do professor, outro fator chave para o Brexit. \u201cEste movimento incomodou muito a estrutura econ\u00f4mica do Reino Unido, impulsionando o Brexit\u201d, afirmou.<\/p>\n\n\n\n<p>Santos Filho enumerou outros eventos menores e destacou que todos estes fatos demonstraram aos ingleses que para a estrutura de poder do Reino Unido o melhor seria ficar de fora de um bloco atrelado a uma movimenta\u00e7\u00e3o pouco previs\u00edvel. \u201c\u00c9 fluido demais para a Inglaterra, um pa\u00eds que sempre teve sua agenda de poder muito clara, ficar atrelada \u00e0 Uni\u00e3o Europeia\u201d, concluiu.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos \u00faltimos tempos, as p\u00e1ginas das editorias internacionais dos jornais ao redor do mundo repetem, quase que diariamente, um neologismo: Brexit. 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