{"id":34030,"date":"2025-01-31T16:32:32","date_gmt":"2025-01-31T19:32:32","guid":{"rendered":"https:\/\/acrj.org.br\/?p=34030"},"modified":"2025-02-01T17:16:27","modified_gmt":"2025-02-01T20:16:27","slug":"iemanja-a-orixa-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/2025\/01\/31\/iemanja-a-orixa-do-brasil\/","title":{"rendered":"Iemanj\u00e1, a Orix\u00e1 do Brasil"},"content":{"rendered":"\n<p>Por Reinaldo Paes Barreto, membro do Conselho Empresarial de Cultura da ACRJ<\/p>\n\n\n\n<p>Dois de fevereiro \u00e9 dia de festa no mar, como cantou Caymmi. E n\u00e3o s\u00f3 no mar: do Rio Negro, em Manaus, passando pela Ba\u00eda de Guajar\u00e1, em Bel\u00e9m at\u00e9 o Rio Gua\u00edba, em Porto Alegre, todo o Brasil doce e salgado celebra nessa data a nossa m\u00e3e-d\u2019\u00e1gua. E n\u00e3o s\u00f3 com oferendas: com faturamento, tamb\u00e9m. Os hot\u00e9is na orla do Rio Vermelho, por exemplo, em Salvador, e origem dessa tradi\u00e7\u00e3o, est\u00e3o com 100% de ocupa\u00e7\u00e3o prevista. E essa presen\u00e7a de milhares de devotos ricocheta em toda a cadeia do turismo receptivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas por que a festa para Iemanj\u00e1 \u201ccai\u201d no dia 2 de fevereiro? Porque os milh\u00f5es de escravos que vieram da \u00c1frica, a partir do s\u00e9culo XVI, trouxeram com eles a f\u00e9 na sua M\u00e3e Grande,\u00a0 a iorub\u00e1 maior. Aqui chegando, sobretudo os que foram para o Nordeste logo identificaram em N. Sra. da Concei\u00e7\u00e3o a representa\u00e7\u00e3o de Iemanj\u00e1, cuja festa se comemora (e ainda hoje) em 8 de dezembro.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o feroz preconceito dos senhores de engenho e da elite da \u00e9poca \u201cbarrava\u201d a presen\u00e7a de negros e escravos na celebra\u00e7\u00e3o da santa, seja nas catedrais portuguesas, seja nas igrejinhas e capelas dos engenhos. Resultado: esses exclu\u00eddos foram achar outra data &#8230; e outra praia.<\/p>\n\n\n\n<p>Correm os tempos. Em janeiro de 1923, os pescadores do Rio Vermelho, em Salvador, viram as suas redes ficarem vazias: n\u00e3o havia peixes. Organizaram ent\u00e3o prociss\u00f5es e fizeram preces para \u201ca matriarca do mar\u201d. Finalmente, no fim do m\u00eas, os peixes voltaram em abund\u00e2ncia. Imediatamente, no dia 2 de fevereiro, decidiram consagrar a data ao seu culto.<\/p>\n\n\n\n<p>E, com isso, iniciou-se um processo de distin\u00e7\u00e3o entre a santa e a entidade. Porque se por um lado, N. Sra. da Concei\u00e7\u00e3o e Iemanj\u00e1 t\u00eam em comum o mar salgado (batismo) \u2013 tanto que ambas s\u00e3o protetoras dos pescadores e \u201cnavegantes\u201d e, portanto, do sustento das fam\u00edlias \u2013 al\u00e9m da maternidade e do cuidado com os filhos, por outro lado h\u00e1 uma diferen\u00e7a \u201coce\u00e2nica\u201d entre as duas. A primeira e mais relevante \u00e9 que Nossa Senhora \u00e9 imaculada e virgem e Iemanj\u00e1 foi casada duas vezes e \u00e9 sexy. Na Nig\u00e9ria, Benin e Togo, por exemplo, ela \u00e9 representada como uma V\u00eanus de Iorub\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>E mais: a representa\u00e7\u00e3o de Iemanj\u00e1 com um corpo cheio de curvas, lembra as ondas do mar e os peixes &#8230; e as sereias. E, de novo, ao contr\u00e1rio de uma santa, Iemanj\u00e1 \u00e9 gulosa, vaidosa e n\u00e3o \u201cpede\u201d ora\u00e7\u00f5es. Pede oferendas: rosas brancas, espelhos, perfumes e bebidas com bolhas: espumantes e at\u00e9 soda. E tem os seus pratos preferidos: peixes, aca\u00e7\u00e1, bolo de arroz, pata ou galinha branca, camar\u00f5es, canjica, e o famoso Cuscuz de Iemanj\u00e1 (ou Lua Cheia). Detalhe: tamb\u00e9m adora receber velas e rosas brancas, perfumes, sabonetes e bijuterias.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, al\u00e9m do seu lugar de destaque no pante\u00e3o da Umbanda e do Candombl\u00e9, Iemanj\u00e1 tamb\u00e9m merece o olhar da psican\u00e1lise, na medida em que tendo sido casada com Olofin, tamb\u00e9m orix\u00e1 e com quem teve 10 filhos (donde os seios grandes, representando a amamenta\u00e7\u00e3o), a sua figura materna tamb\u00e9m suscita a contradi\u00e7\u00e3o entre o apego e a nutri\u00e7\u00e3o dos seus (inclusive os devotos), e o arqu\u00e9tipo da m\u00e3e castradora. No caso de Iemanj\u00e1, ent\u00e3o, essa contradi\u00e7\u00e3o se acentua com o seu habitat \u2013 a \u00e1gua \u2013 dualidade fascinante entre a purifica\u00e7\u00e3o e o afogamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Ou seja, a figura de Iemanj\u00e1 al\u00e9m de ser um s\u00edmbolo de acolhimento e prote\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m nos ensina sobre a complexidade das rela\u00e7\u00f5es emocionais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Reinaldo Paes Barreto, membro do Conselho Empresarial de Cultura da ACRJ.<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":34031,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[12],"tags":[],"class_list":["post-34030","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/34030","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=34030"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/34030\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/34031"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=34030"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=34030"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=34030"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}