{"id":3044,"date":"2017-08-28T18:57:00","date_gmt":"2017-08-28T21:57:00","guid":{"rendered":"http:\/\/acrj2020.profissional.ws\/?p=3044"},"modified":"2021-01-28T10:48:32","modified_gmt":"2021-01-28T13:48:32","slug":"as-licoes-de-san-tiago","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/2017\/08\/28\/as-licoes-de-san-tiago\/","title":{"rendered":"As li\u00e7\u00f5es de San Tiago"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Queria ver o Brasil acompanhar, adiantar-se ao pulsar da Hist\u00f3ria. Angustiava-o ver malbaratadas as condi\u00e7\u00f5es indispens\u00e1veis \u00e0 viabilidade do projeto brasileiro<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Em momentos de turbul\u00eancia pol\u00edtico-econ\u00f4mica e crise \u00e9tica, cabe revisitar a li\u00e7\u00e3o do passado e o legado da vida e obra dos que podem servir-nos de exemplo:<\/p>\n\n\n\n<p>Junho de 1964, San Tiago Dantas tomou o caminho tantas vezes percorrido por P\u00e9guy. S\u00fabito, surge no horizonte o perfil da Catedral de Chartres. Recita, ent\u00e3o, o verso do poeta sobre a Notre Dame, cujo oitavo centen\u00e1rio fora comemorado na v\u00e9spera: Reina no cora\u00e7\u00e3o de Paris, \u201ccom majestade e retid\u00e3o de alma\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao chegar, penetramos, comovidos, a Catedral de Chartres. \u00c0 nossa frente legi\u00e3o de crian\u00e7as de branco, caminham para a primeira comunh\u00e3o. Ressoa, grave, o \u00f3rg\u00e3o: a inf\u00e2ncia diante do eterno, a frescura das roupas sob a luz dos vitrais, rostos alegres, tons severos da pedra e da m\u00fasica. San Tiago, discretamente, enxuga uma l\u00e1grima. Sabia apreciar a beleza e desprezava o mesquinho. Pensava em grandes linhas; no xadrez da vida \u2014 e da morte \u2014 jogava muitos lances \u00e0 frente.<\/p>\n\n\n\n<p>Seu desprezo pelo acess\u00f3rio n\u00e3o afastava o zelo pelo detalhe. Percorre as fachadas, admira a estatu\u00e1ria e os vitrais. Mas o cansa\u00e7o o obriga a repousar um instante. Quer visitar ainda Illiers, o Combray da inf\u00e2ncia de Proust.<\/p>\n\n\n\n<p>A Igreja do vilarejo, a casa de L\u00e9onie e Fran\u00e7oise, o jardim \u201cdo lado de Swann\u201d, proporcionam reencontro do tempo perdido. Pergunta pelas aub\u00e9pines, j\u00e1 haviam murchado: em vida, n\u00e3o lhe seria dado ver desabrochar muitas flores que semeara.<\/p>\n\n\n\n<p>A irremediabilidade do tempo foi tema permanente de reflex\u00e3o. Era o que o fascinava em Proust, consciente da li\u00e7\u00e3o de Epicteto: \u201cPor que temer a morte? N\u00e3o interessa o quanto vivemos, mas sim como vivemos.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Superara o saudosismo para se entregar \u00e0 a\u00e7\u00e3o modeladora da realidade. N\u00e3o se resignava a ser observador. Queria atuar. Reformador por excel\u00eancia, dedicou-se \u00e0 pr\u00e1xis, como o Fausto, que substitu\u00edra \u201cNo principio era o Verbo\u201d por \u201cNo princ\u00edpio era a A\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Queria ver o Brasil acompanhar, adiantar-se ao pulsar da Hist\u00f3ria. Angustiava-o ver malbaratadas as condi\u00e7\u00f5es indispens\u00e1veis \u00e0 viabilidade do projeto brasileiro, pela incompet\u00eancia, inefici\u00eancia, falta de coragem e incompreens\u00e3o da urg\u00eancia das inadi\u00e1veis reformas estruturais.<\/p>\n\n\n\n<p>Entristecia-o ver as elites despreparadas para liderar, mas animava-o a capacidade do povo. A partir dessa confian\u00e7a, redobrava a prega\u00e7\u00e3o para \u201cas elites se modernizarem e modernizarem o pa\u00eds\u201d. Para ele, Portugal e Brasil haviam perdido oportunidade hist\u00f3rica ao se dissociarem do Iluminismo e da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial. Temia que o subdesenvolvimento na era c\u00f3smica pudesse resultar em perda ainda mais grave.<\/p>\n\n\n\n<p>Humanista no sentido pleno da palavra, n\u00e3o escondia a predile\u00e7\u00e3o pelos esp\u00edritos globais, Da Vinci e Goethe entre eles, em que admirava o veio art\u00edstico, o esp\u00edrito criador, a paix\u00e3o pelo progresso cient\u00edfico.<\/p>\n\n\n\n<p>Inspirava-se na obra de Cervantes: \u201co Quixote nos transmite li\u00e7\u00e3o de purifica\u00e7\u00e3o do mundo pelo hero\u00edsmo, n\u00e3o por um hero\u00edsmo de tipo herc\u00faleo, mas por outro feito de f\u00e9 inigual\u00e1vel, pureza perfeita, e um atributo que a todos resume \u2014 o dom de si mesmo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o esquecia, entretanto, a responsabilidade pol\u00edtica, mesmo no \u00faltimo ano de vida, o truncado 1964. Em face do espectro da morte, recitava Garc\u00eda Lorca:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cAy Anto\u00f1ito el Camborio<\/em><br><em>digno de una emperatriz<\/em><br><em>acuerda-te de la Virgen<\/em><br><em>porque te vas a morir.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo em que se dedicava \u00e0 leitura dos estoicos e se iniciava, maravilhado, na de Teilhard de Chardin, delineava roteiro de obra que, infelizmente, n\u00e3o chegou a redigir: \u201cIdeias-mestras para o projeto brasileiro\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Cada vez mais se concentrou em linhas-mestras, em torno das quais pensava vi\u00e1vel vertebrar as etapas do processo de desenvolvimento. Lembrava Rilke: \u201cS\u00f3 \u00e0 noite \u00e9 que, \u00e0s vezes, se pensa conhecer o caminho\u201d. Caminho que o engajaria cada vez mais na busca do bem comum, da paz mundial e da transcend\u00eancia pessoal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"> <strong>Marc\u00edlio Marques Moreira<\/strong><br>Ex-ministro da Fazenda e Presidente do Conselho Empresarial de Pol\u00edticas Econ\u00f4micas da Associa\u00e7\u00e3o Comercial do Rio de Janeiro <\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>*Artigo publicado no Jornal O Globo&nbsp;&nbsp;<\/em><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Queria ver o Brasil acompanhar, adiantar-se ao pulsar da Hist\u00f3ria. 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