{"id":30048,"date":"2024-08-24T09:00:00","date_gmt":"2024-08-24T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/acrj.org.br\/?p=30048"},"modified":"2024-10-01T10:59:00","modified_gmt":"2024-10-01T13:59:00","slug":"30048","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/2024\/08\/24\/30048\/","title":{"rendered":"Get\u00falio, h\u00e1 70 anos&#8230;"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Por Reinaldo Paes Barreto \u2013 membro do Conselho Empresarial de Cultura da ACRJ<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0s 8h05 do dia 24 de agosto de 1954, Get\u00falio saiu do quarto de pijama (bord\u00f4) e desceu at\u00e9 seu gabinete, no&nbsp;2\u00ba andar&nbsp;do Pal\u00e1cio do Catete. Logo depois, e como fazia todas as manh\u00e3s, o barbeiro Barbosa entrou nesse quarto (3\u00ba andar) para fazer a barba do presidente, mas n\u00e3o o encontrou. \u00c0s 8:26 o Get\u00falio voltou para os seus aposentos com a Carta-Testamento no bolso. Sentou-se na cama, apontou o rev\u00f3lver contra o cora\u00e7\u00e3o e puxou o gatilho. O Lutero, seu filho, foi o primeiro a entrar, seguido de Dona Darcy, do m\u00e9dico Fl\u00e1vio Miguez de Mello e da Alzirinha, a filha querida e companheira de todas as horas. Get\u00falio estava com meio corpo para fora da cama, o rev\u00f3lver Colt calibre 32 perto da m\u00e3o direita, agonizante. Morreu alguns minutos depois.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"300\" height=\"200\" src=\"https:\/\/acrj.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/quartoGetulio-300x200.png_foto-site-do-Museu-do-Catete.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-30058\" style=\"width:380px\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>Quarto de G\u00e9tulio Vargas no Pal\u00e1cio do Catete<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><\/blockquote>\n\n\n\n<p>A crise vinha num crescendo desde o in\u00edcio do segundo mandato, mas se agravou em agosto. No dia\u00a05, o jornalista Carlos Lacerda estava chegando na portaria do pr\u00e9dio onde residia, na Rua Tonelero n\u00ba 180, em Copacabana, tarde da noite, acompanhado do Major da Aeron\u00e1utica Rubens Vaz, encarregado de lhe dar prote\u00e7\u00e3o. Ambos saltaram do carro e ficaram conversando na cal\u00e7ada por alguns minutos, quando o pistoleiro de aluguel Alcino Jo\u00e3o do Nascimento, a mando direto do chefe da guarda pessoal do presidente, Greg\u00f3rio Fortunato \u2013 o anjo negro \u2013 e a mando indireto de algu\u00e9m bem mais em cima, esse algu\u00e9m muito pr\u00f3ximo ao Get\u00falio, saiu de sua tocaia no escuro e fez v\u00e1rios disparos com uma arma 45mm. Mas errou o alvo e acertou primeiro o peito do Major Vaz, que caiu morto na hora, ao lado do carr<\/p>\n\n\n\n<p>Um outro tiro acertou o p\u00e9 do Lacerda que, mesmo com o p\u00e9 engessado, saiu depois dos primeiros curativos, apoiado por outros oficiais e j\u00e1 de madrugada, foi para a R\u00e1dio Mayrink Veiga onde pronunciou um candente e incendi\u00e1rio discurso: \u201c&#8230; esta noite uma mulher vai se deitar e a seu lado n\u00e3o est\u00e1 mais o seu marido. Por qu\u00ea? A vida cessou em seu ciclo natural? N\u00e3o, n\u00e3o. N\u00e3o. Porque ele foi assassinado por sic\u00e1rios pagos pelo Pal\u00e1cio do Catete&#8230;\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Get\u00falio governou o Brasil por 19 anos, mas o getulismo durou meio s\u00e9culo. Era um homem do seu tempo e origem. Ateu, positivista, tinha um temperamento frio e controlado, e n\u00e3o gostava de intimidades. Chamava a todos de doutor e senhor; nunca falou com ningu\u00e9m ao telefone. Embora de baixa estatura f\u00edsica, tinha um magnetismo pessoal contagiante. E foi um patriota a seu modo.&nbsp; Amado por multid\u00f5es de v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es. \u201cFazia pol\u00edtica de esquerda, com a m\u00e3o direita, como o definiu o escritor austr\u00edaco-judeu Stefan Zweig. E embora ga\u00facho do pampa, e da fronteira com a Argentina, tinha o esp\u00edrito tropical, t\u00edpico das pessoas do litoral. Foi o primeiro presidente a vestir terno branco, dar gargalhada em p\u00fablico, ir ao teatro-revista assistir pe\u00e7as que o ironizavam.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O Brasil ficou com os nervos \u00e0 flor da pele. Em&nbsp;12 de agosto, Get\u00falio aceitou um convite do ent\u00e3o governador de Minas e pol\u00edtico em ascens\u00e3o, Juscelino Kubistchek, e embarcou em um C-47 da FAB para BH, a fim de inaugurar a Usina Sider\u00fargica Mannesmann. L\u00e1, fez um duro discurso denunciando \u201cos que espalham o g\u00e9rmen da disc\u00f3rdia para levar o pa\u00eds \u00e0 desordem, ao caos e \u00e0 anarquia\u201d. Era um recado para a feroz oposi\u00e7\u00e3o que lhe fazia a UDN, especialmente a chamada &#8220;banda de m\u00fasica&#8221;: Afonso Arinos, Adauto Cardoso, Bilac Pinto e, claro, o l\u00edder Carlos Lacerda, que nesse mesmo dia 12, pela manh\u00e3, foi \u00e0 Aeron\u00e1utica reconhecer mais um dos que participaram do atentado contra a sua vida. Tudo fartamente noticiado pelo seu jornal a Tribuna da Imprensa.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img decoding=\"async\" width=\"584\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/acrj.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/JK-e-getulio-584x1024.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-30068\" style=\"width:250px\" srcset=\"https:\/\/acrj.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/JK-e-getulio-584x1024.jpeg 584w, https:\/\/acrj.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/JK-e-getulio-171x300.jpeg 171w, https:\/\/acrj.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/JK-e-getulio-600x1052.jpeg 600w, https:\/\/acrj.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/JK-e-getulio.jpeg 740w\" sizes=\"(max-width: 584px) 100vw, 584px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>JK no vel\u00f3rio do Get\u00falio. Uma estrela<\/em><br><em>em ascens\u00e3o<\/em><br>\u00a0<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>E o mais importante para um estadista: tinha o instinto (n\u00e3o havia \u201ccoachs\u201d naquele tempo!) da comunica\u00e7\u00e3o e do marketing pessoal. Andava a p\u00e9 pelas ruas do Rio e de Petr\u00f3polis; veraneava e fazia \u201cesta\u00e7\u00f5es de \u00e1gua\u201d. E usou o microfone das r\u00e1dios e em solenidades, como nenhum outro, antes (\u2018trabalhaaaadores do Brasillll). Fez apenas uma ou duas viagens ao exterior, mas correu todo o pa\u00eds, e foi ao Brasil Central \u2013 o primeiro presidente a visitar os povos origin\u00e1rios &#8211; donde, meio que para puxar saco, meio porque j\u00e1 nascia um movimento de curiosidade pela nossa etnia, virou moda os pr\u00e9dios de Copacabana se chamarem Itahy, Piragibe, Marajoara e outros nomes ind\u00edgenas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Get\u00falio exerceu o poder com paix\u00e3o. Apreciava certos ritos: carro com batedores, a volta triunfante no Est\u00e1dio de S\u00e3o Janu\u00e1rio nos Primeiro de Maio, sorrindo e acenando com a m\u00e3o em concha para o povo; gostava de ser chamado de excel\u00eancia. Mas nunca se interessou pelos luxos: vinhos caros, presentes nababescos, gastos pessoais. Tanto que os m\u00f3veis do seu quarto no Catete eram de uma \u201cpobreza\u201d mon\u00e1stica. E a maioria de suas noites (noves fora Virg\u00ednia Lane na primeira fase), eram de leitura, papo com um ou outro velho amigo em torno de um chimarr\u00e3o e, no \u00faltimo mandato (1950-54), \u00e0s vezes longas partidas de paci\u00eancia, muita ins\u00f4nia e um vago espiritismo.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>&#8220;<em>Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na Hist\u00f3ria\u2026<\/em>&#8221; &#8211; <strong>Get\u00falio Vargas<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><em>Fotos: Site do Museu da Rep\u00fablica<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/acrj.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Assuntos-culturais_vice-Reinaldo-Paes-Barreto-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5005\" style=\"width:250px\" srcset=\"https:\/\/acrj.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Assuntos-culturais_vice-Reinaldo-Paes-Barreto-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/acrj.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Assuntos-culturais_vice-Reinaldo-Paes-Barreto-600x400.jpg 600w, https:\/\/acrj.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Assuntos-culturais_vice-Reinaldo-Paes-Barreto-300x200.jpg 300w, https:\/\/acrj.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Assuntos-culturais_vice-Reinaldo-Paes-Barreto-768x512.jpg 768w, https:\/\/acrj.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Assuntos-culturais_vice-Reinaldo-Paes-Barreto.jpg 1280w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Reinaldo Paes Barreto tamb\u00e9m \u00e9 <br>assessor da diretoria executiva do INPI<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Reinaldo Paes Barreto \u2013 membro do Conselho Empresarial de Cultura da ACRJ<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":30057,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[12],"tags":[],"class_list":["post-30048","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30048","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=30048"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30048\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/30057"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=30048"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=30048"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=30048"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}