{"id":2996,"date":"2019-05-23T17:53:00","date_gmt":"2019-05-23T20:53:00","guid":{"rendered":"http:\/\/acrj2020.profissional.ws\/?p=2996"},"modified":"2020-03-01T18:54:16","modified_gmt":"2020-03-01T21:54:16","slug":"responsabilidade-social-vs-maturidade-corporativa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/2019\/05\/23\/responsabilidade-social-vs-maturidade-corporativa\/","title":{"rendered":"Responsabilidade Social vs. Maturidade Corporativa"},"content":{"rendered":"\n<p>A catedral de Notre Dame em Paris foi quase totalmente destru\u00edda devido a um inc\u00eandio. No dia seguinte j\u00e1 havia movimentos de indiv\u00edduos e organiza\u00e7\u00f5es voluntariamente garantindo doa\u00e7\u00f5es milion\u00e1rias para sua reconstru\u00e7\u00e3o. Antes da trag\u00e9dia j\u00e1 se tinham doa\u00e7\u00f5es em fluxo constante para a manuten\u00e7\u00e3o do pr\u00e9dio, tudo consensual, motivado por f\u00e9, consci\u00eancia do significado profundo deste monumento e, mais pragmaticamente, por entendimento de que a Notre Dame \u00e9 um dos mais eficientes vetores do turismo parisiense, que gera bilh\u00f5es em divisas.<\/p>\n\n\n\n<p>No Brasil algumas personalidades come\u00e7aram a questionar a in\u00e9rcia dos cidad\u00e3os ricos e organiza\u00e7\u00f5es empresariais em ter o mesmo desprendimento financeiro para acudir o Museu Nacional, destru\u00eddo em setembro de 2018 tamb\u00e9m por um inc\u00eandio. Por que esta diferen\u00e7a de atitude? O Museu Nacional n\u00e3o tinha significado? N\u00e3o \u00e9 importante como monumento hist\u00f3rico? Seu acervo seria desprez\u00edvel?<\/p>\n\n\n\n<p>Em artigo recente publicado no jornal&nbsp;<a href=\"https:\/\/bit.ly\/2Xpexrh\">O Estado de S\u00e3o Paulo<\/a>&nbsp;e no site da&nbsp;<a href=\"https:\/\/bit.ly\/2UoXbZu\">Associa\u00e7\u00e3o Comercial do Rio de Janeiro &#8211; ACRJ<\/a>, tivemos a oportunidade de argumentar que as leis de incentivo fiscal em benef\u00edcio da cultura, esporte e outros temas de interesse p\u00fablico eram uma alternativa liberal, considerando o grau de maturidade das empresas e cidad\u00e3os quanto aos seus pap\u00e9is nestes temas e tamb\u00e9m considerando a inefici\u00eancia do Estado em cuidar sozinho de milhares de iniciativas em todo o territ\u00f3rio nacional.<\/p>\n\n\n\n<p>As leis de incentivo s\u00e3o de fato uma alternativa liberal, no sentido de que h\u00e1 minimamente algum consenso entre a parte produtiva, privada e a administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica, com ganho para a sociedade e sem preju\u00edzo para os controles necess\u00e1rios. Mas as leis de incentivo acabam se tornando muletas, atrasando ou at\u00e9 mesmo impedindo que os indiv\u00edduos &#8211; inclusive aqueles que comandam grandes corpora\u00e7\u00f5es &#8211; entendam os seus pap\u00e9is no desenvolvimento civilizat\u00f3rio da sociedade a que pertencem e para a qual oferecem seus produtos\/servi\u00e7os.<\/p>\n\n\n\n<p>O laureado economista e fil\u00f3sofo Thomas Sowell diz em seu livro, cr\u00edtico \u00e0s mundialmente populares a\u00e7\u00f5es afirmativas, que \u201cUm programa tempor\u00e1rio para eliminar uma condi\u00e7\u00e3o que existe h\u00e1 s\u00e9culos \u00e9 quase uma contradi\u00e7\u00e3o de termos.\u201d E o que temos no Brasil s\u00e3o muitas d\u00e9cadas de estatismo onde o papel do setor produtivo, minimamente livre, foi o de pagar impostos para sustentar o sistema. Isso contribuiu para uma cultura onde o indiv\u00edduo n\u00e3o se sente diretamente respons\u00e1vel e imputa ao Estado a atribui\u00e7\u00e3o exclusiva por todo o servi\u00e7o de contribui\u00e7\u00e3o para o bem estar social.<\/p>\n\n\n\n<p>Na d\u00e9cada de 90 o economista e produtor cultural Ivan Fortes concedeu entrevista \u00e0 revista do Sistema Fecomercio do Rio de Janeiro. O t\u00edtulo foi \u201cA Lei de Incentivos n\u00e3o \u00e9 para Sempre\u201d e traduzia a sua cren\u00e7a de que \u201c&#8230;a lei de incentivo \u00e9 como um pai que ensina o filho a andar de bicicleta. Nenhum pai fica amparando o filho para a vida toda.\u201d Fortes certamente tinha uma vis\u00e3o de que os incentivos dariam um empurr\u00e3o necess\u00e1rio para despertar a consci\u00eancia do empresariado quanto aos benef\u00edcios sociais promovidos pela cultura e como isso contribuiria para a sustentabilidade dos seus neg\u00f3cios no longo prazo. Afinal, que mercado prospera em uma sociedade pobre de recursos, de modelos, de refer\u00eancias, de valores e de ambi\u00e7\u00e3o? Uma vez despertas, as empresas continuariam com os investimentos culturais mesmo sem os incentivos, mas apenas por terem experimentado e amadurecido o suficiente para entenderem o seus pap\u00e9is e compromissos com a sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, o que aconteceu de fato nestes quase 30 anos de lei de incentivo &#8211; Lei Rouanet (1991) e as demais que a seguiram &#8211; foi que as empresas viram uma oportunidade de desafogar os or\u00e7amentos de marketing, promovendo suas marcas utilizando-se dos benef\u00edcios fiscais. Segundo Sowell, um efeito mais do que previs\u00edvel, como os das a\u00e7\u00f5es afirmativas, que acabaram por prejudicar quem deveriam beneficiar. O grau de maturidade dos indiv\u00edduos e empresas que devia ter sido alavancado no processo de incentivos mudou muito pouco, ou foi subjugado por interesses mais rasos. O que vimos foi o surgimento do fen\u00f4meno do socialwashing (deriva\u00e7\u00e3o do greenwashing) que nada mais \u00e9 do que o fingimento e afeta\u00e7\u00e3o teatralizados em pe\u00e7as publicit\u00e1rias e balan\u00e7os sociais que enaltecem as a\u00e7\u00f5es de empresas, mas que na verdade n\u00e3o significaram quase nenhum esfor\u00e7o financeiro e dedica\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica que impactem efetivamente o cen\u00e1rio social e o processo civilizat\u00f3rio. Basta ver que rarissimamente as empresas se unem e se organizam em esfor\u00e7os conjuntos e mais eficientes em prol de alguma pol\u00edtica p\u00fablica vencedora. Todas querem promover a sua marca com exclusividade, mesmo que atreladas a projetos culturais, sociais, ambientais, esportivos que em nada promovem o bem estar social com alguma efetividade. Fortes, hoje, deve estar desapontado.<\/p>\n\n\n\n<p>Imersos neste ambiente, indiv\u00edduos e gestores de grandes corpora\u00e7\u00f5es, ainda que sensibilizados por uma trag\u00e9dia cultural e hist\u00f3rica de grande significado, como o inc\u00eandio do Museu Nacional, n\u00e3o enxergam o seu papel na conserva\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria do seu pr\u00f3prio pa\u00eds, uma vez que julgam ser este papel exclusivo do Estado, e optam por centralizar recursos no eixo Rio-S\u00e3o Paulo e para grandes produtores, que realizam eventos pontuais de grande porte, pois geram maior visibilidade. N\u00e3o atuam de forma sustent\u00e1vel, em benef\u00edcio da sociedade de forma descompromissada, a n\u00e3o ser com o amparo artificial de uma Lei de Incentivo, sem abrir m\u00e3o das contrapartidas correspondentes e lan\u00e7am o \u201cnobre gesto\u201d em seus respectivos balan\u00e7os sociais e em campanhas publicit\u00e1rias. Pior: recebem premia\u00e7\u00f5es de entidades de classe, das associa\u00e7\u00f5es dos seus setores e, pasme, da pr\u00f3pria administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, onde dever\u00edamos estar se os indiv\u00edduos e corpora\u00e7\u00f5es tivessem amadurecido e se conscientizado sobre seus pap\u00e9is como vetores e atores diretos do desenvolvimento social? A pol\u00edtica de patroc\u00ednios de uma empresa, por exemplo, n\u00e3o deveria estar subordinada \u00e0 uma diretoria ou departamento de comunica\u00e7\u00e3o, mas diretamente ligada ao CEO\/Presidente. O dever do principal executivo \u00e9 orientar a vis\u00e3o de longo prazo da organiza\u00e7\u00e3o e incentivar estrat\u00e9gias e a\u00e7\u00f5es que estejam comprometidas com esta vis\u00e3o, intimamente conectada com o desenvolvimento social, com a\u00e7\u00f5es articuladas (quase nunca isoladas) com outros parceiros, dentro e fora da cadeia produtiva na qual sua empresa est\u00e1 inserida.<\/p>\n\n\n\n<p>Isto significa priorizar projetos estruturantes, interconectados e articulados com outras entidades dos setores privado, p\u00fablico, da Academia e do terceiro setor. Em \u00faltima an\u00e1lise, as a\u00e7\u00f5es devem estar alinhadas aos indiv\u00edduos que comp\u00f5em e movimentam a sociedade e aos seus anseios, sem ter como finalidade o \u201cbranding\u201d, que passaria a ser um benef\u00edcio extra. \u00c9 preciso entender que as Leis de Incentivo s\u00e3o mecanismos de investimento direcionados a projetos esportivos e culturais, mas que funcionam como sustent\u00e1culo para outras pol\u00edticas p\u00fablicas como sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, seguran\u00e7a e at\u00e9 mesmo a economia. Ao inv\u00e9s de pulverizar investimentos em uma mir\u00edade de projetos soltos, deve-se concentrar os recursos financeiros e humanos em plataformas eficientes e efetivas nas suas \u00e1reas de opera\u00e7\u00e3o, capazes de fazer realmente a diferen\u00e7a na vida das pessoas, devolvendo aos cidad\u00e3os a responsabilidade social delegada desastradamente na forma de monop\u00f3lio ao Estado.<\/p>\n\n\n\n<p>Um exemplo de como funciona uma sociedade com consci\u00eancia amadurecida do velho continente, sobre a rela\u00e7\u00e3o entre responsabilidade social e a sustentabilidade nos neg\u00f3cios privados foi narrada, certa vez, por uma concertista brasileira. Ela relatou que ap\u00f3s sua apresenta\u00e7\u00e3o, que havia sido contratada por uma multinacional alem\u00e3, o CEO foi fazer o agradecimentos a ela nos camarins, onde tiveram uma conversa. Ele contou que um dos crit\u00e9rios para a matriz alem\u00e3 definir a cidade que sediaria sua subsidi\u00e1ria no Brasil era que houvesse por l\u00e1 uma sinf\u00f4nica em opera\u00e7\u00e3o. Diante da indisfar\u00e7\u00e1vel estupefa\u00e7\u00e3o da concertista ele emendou a explica\u00e7\u00e3o de que este crit\u00e9rio era importante porque definia, de forma bastante assertiva, o car\u00e1ter da sociedade com quem iniciariam um relacionamento de longo prazo. Obviamente a empresa passou a patrocinar a orquestra da cidade antes mesmo de terminar a instala\u00e7\u00e3o da f\u00e1brica.<\/p>\n\n\n\n<p>Da mesma forma no esporte \u00e9 comum vermos grande parte das produ\u00e7\u00f5es e capta\u00e7\u00f5es de recursos por meio da Lei de Incentivo concentradas em projetos pontuais, de grande porte e poder midi\u00e1tico. Caso estiv\u00e9ssemos com a maturidade bem desenvolvida para estes investimentos, n\u00e3o faltariam recursos para projetos de base, como prepara\u00e7\u00e3o de jovens, treinamento de atletas aspirantes e equipes t\u00e9cnicas. O investimento em grandes eventos n\u00e3o precisa se dar em detrimento do investimento em base e infraestrutura, deveriam ser complementares. Por\u00e9m, a falta de maturidade canaliza os recursos exclusivamente para os eventos na busca pela promo\u00e7\u00e3o das marcas. Comportamento insustent\u00e1vel na medida em que futuramente n\u00e3o haver\u00e1 mais material humano que justifique eventos futuros, da mesma forma que o esporte e alto rendimento depende do nascedouro de atletas na base, que por sua vez prosperando atuar\u00e3o em grandes eventos, num ciclo virtuoso.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 esta maturidade sobre os efeitos ben\u00e9ficos que as a\u00e7\u00f5es sociais espont\u00e2neas t\u00eam sobre os neg\u00f3cios e o fortalecimento do mercado dessas empresas &#8211; al\u00e9m da clara no\u00e7\u00e3o de significado e dos valores de disputas, atividades, express\u00f5es, manifesta\u00e7\u00f5es, s\u00edmbolos, monumentos, acervos e repert\u00f3rios &#8211; que determina o imediato socorro dos europeus \u00e0 Notre Dame, assim como o choro, muitas vezes insincero, dos Brasileiros pelo seu Museu Nacional ou pela falta de surgimento de novos talentos esportivos. \u00c9 este fen\u00f4meno que sequestra recursos de projetos fundamentais, mas de baixa visibilidade, e os canaliza para os grandes eventos, flertando perigosamente com a demoli\u00e7\u00e3o do material humano necess\u00e1rio para manter estes mesmos eventos vi\u00e1veis no futuro. Urge um freio de arruma\u00e7\u00e3o e um olhar mais estrat\u00e9gico sobre os pap\u00e9is de cada agente na estrutura de fomento do esporte (e da cultura) e seus impactos no desenvolvimento da sociedade e do pr\u00f3prio mercado que sustenta as mesmas empresas que investem via leis de incentivo e\/ou diretamente neste setores.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Paulo Eduardo Roscoe Bicalho \u00e9 membro efetivo do Conselho Empresarial de Esporte da ACRJ. Profissional de marketing, atuou como respons\u00e1vel pelo setor de patroc\u00ednios de grandes empresas. Teve passagem pelo Minist\u00e9rio do Esporte e atualmente administra arenas esportivas do Legado Ol\u00edmpico.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Priscila Morrot, atua h\u00e1 10 anos como consultora e produtora de projetos em todas as Leis de Incentivos Federais, Estaduais e Municipais nas \u00e1reas de Cultura e Esportes , trabalhou tamb\u00e9m como consultora de Conv\u00eanios da Rede Siconv e atualmente \u00e9 Coordenadora de Conv\u00eanios da Secretaria da Casa Civil e Governan\u00e7a do Estado do Rio de Janeiro.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A catedral de Notre Dame em Paris foi quase totalmente destru\u00edda devido a um inc\u00eandio. No dia seguinte j\u00e1 havia movimentos de indiv\u00edduos e organiza\u00e7\u00f5es&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2997,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[12],"tags":[],"class_list":["post-2996","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2996","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2996"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2996\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2997"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2996"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2996"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2996"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}