{"id":2989,"date":"2019-06-28T17:46:00","date_gmt":"2019-06-28T20:46:00","guid":{"rendered":"http:\/\/acrj2020.profissional.ws\/?p=2989"},"modified":"2020-03-01T17:48:54","modified_gmt":"2020-03-01T20:48:54","slug":"visconde-de-maua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/2019\/06\/28\/visconde-de-maua\/","title":{"rendered":"Visconde de Mau\u00e1"},"content":{"rendered":"\n<p>Irineu Evangelista de Sousa nasceu em 1814 no atual estado do Rio Grande do Sul. Sua m\u00e3e era de uma fam\u00edlia bem estabelecida e culta, tendo sido ela quem ensinou as primeiras letras ao filho. Devia ser muito boa nisso, pois foi este o per\u00edodo em que Irineu teve maior orienta\u00e7\u00e3o em seus estudos. Foi praticamente um autodidata em tudo mais que aprendeu pelo resto da vida. Seu pai era um simples comerciante de gado.<\/p>\n\n\n\n<p>O gado, para fabrica\u00e7\u00e3o do charque (charque \u00e9 uma carne salgada e seca ao sol com o objetivo de mant\u00ea-la pr\u00f3pria ao consumo por mais tempo), era o produto de maior import\u00e2ncia da regi\u00e3o dos pampas. Quando Irineu mal completara 5 anos, seu pai foi assassinado no Uruguai. A hist\u00f3ria consagra uma vers\u00e3o de que o crime se deu \u201cpor engano\u201d. H\u00e1, por\u00e9m, outra vers\u00e3o que conta que o assassino era um ladr\u00e3o de gado. Nas frequentes tropelias pelo vasto pampa, onde brasileiros e uruguaios viviam comercializando, guerreando ou roubando gado uns dos outros, esta morte ficou mal explicada. Talvez por isso, a fixa\u00e7\u00e3o de Irineu, pelo resto da vida, em ter um nome limpo. Isto o levou a um extremo rigor em suas pr\u00e1ticas comerciais. Muitas vezes tomou para si responsabilidades financeiras al\u00e9m das que lhe competiam. Tinha por intuito evitar de qualquer maneira causar preju\u00edzos para terceiros. Nunca pediu a fal\u00eancia de ningu\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0s vezes, um ou outro coment\u00e1rio maldoso sobre o pai, ao ser captado pelos sens\u00edveis ouvidos de uma crian\u00e7a, deixa marcas profundas. O que sabemos \u00e9 que Irineu era obsessivo tanto no trabalho como na defesa de sua reputa\u00e7\u00e3o, preocupado em legar a seus filhos um nome ilibado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00d3rf\u00e3o, suas companhias eram a irm\u00e3 Guilhermina, um pouco mais velha, e a m\u00e3e, sempre presentes. Aos 9 anos, por\u00e9m, sofre outro choque. Um pretendente que queria desposar sua m\u00e3e deixa claro que s\u00f3 o faria se n\u00e3o tivesse que \u201ccriar filhos de outro\u201d. A m\u00e3e providencia rapidamente um casamento para Guilhermina, de apenas 12 anos de idade, e coloca o menino Irineu sob a guarda de um tio, piloto de um navio a servi\u00e7o da Casa Pereira de Almeida, grande atacadista no Rio de Janeiro.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Deveria certamente ser muito sem perspectivas a vida de uma vi\u00fava solit\u00e1ria na sociedade machista do s\u00e9culo XIX. Aceitar tal afastamento dos pr\u00f3prios filhos \u00e9 algo que nos surpreende. Naturalmente, a separa\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia pesou em Irineu e influenciou o seu comportamento ao longo de sua vida.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A conviv\u00eancia at\u00e9 9 anos de idade em uma casa sem a figura masculina do pai n\u00e3o s\u00f3 o estimulou a perseguir conhecimentos de leitura, escrita e contas, mas, sem d\u00favida, fez com que o menino captasse tamb\u00e9m a vis\u00e3o pragm\u00e1tica da vida que a m\u00e3e possu\u00eda. Certamente, as condi\u00e7\u00f5es nas quais vivia o faziam sentir como o homem da casa. O afastamento marcou, al\u00e9m do precoce rito de passagem para homem, o desejo de recompor sua fam\u00edlia quando poss\u00edvel.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Gra\u00e7as \u00e0s boas rela\u00e7\u00f5es do tio, irm\u00e3o da m\u00e3e, que o trouxe para o Rio, foi empregado na importante casa comercial do portugu\u00eas Antonio Pereira de Almeida, emprego na \u00e9poca estrito a aprendizes naturais de Portugal.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Desde o in\u00edcio, o jovem se distinguiu pela dedica\u00e7\u00e3o ao estudo e ao aprendizado com os mais experientes. Dormia sobre os balc\u00f5es do armaz\u00e9m. Da pequena poupan\u00e7a que conseguia fazer, comprava livros para estudar e enviava todo m\u00eas uma pequena quantia para a m\u00e3e.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Aos treze anos j\u00e1 \u00e9 o principal empregado da casa, tendo aproximado seu empregador dos parentes que produziam charque no Rio Grande, o que gerou bons resultados. Os neg\u00f3cios do patr\u00e3o portugu\u00eas, por\u00e9m, n\u00e3o sobreviveram ao fim da economia mercantilista e \u00e0s crescentes restri\u00e7\u00f5es ao tr\u00e1fico promovidas pela Inglaterra, que, na \u00e9poca, estava focada em garantir mercados para sua ind\u00fastria nascente e queria dominar o com\u00e9rcio de ambos os lados do Atl\u00e2ntico Sul.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Quando seu patr\u00e3o foi for\u00e7ado a liquidar os neg\u00f3cios, Irineu, com apenas 14 anos, j\u00e1 era seu principal assessor. Ele orientou o ex-chefe a melhor vender seus ativos comerciais preservando fazendas em Minas para as ele se retirou. Tempos depois, o Imperador conferiu a Pereira de Almeida o t\u00edtulo de Bar\u00e3o de Ub\u00e1.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Naqueles anos que se sucederam \u00e0 proclama\u00e7\u00e3o da Independ\u00eancia, sob o reinado de Pedro I, o pa\u00eds vivia um conturbado per\u00edodo de rivalidade pol\u00edtica entre portugueses (predominantes no com\u00e9rcio) e brasileiros.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O patr\u00e3o ao vender a sua casa comercial a um negociante escoc\u00eas &#8211; Richard Carruthers &#8211; recomendou, \u201ccomo uma joia\u201d, Irineu, o seu melhor empregado. A ida para a Casa Carruthers &#8211; comercial e financeira (pois esta fornecia cr\u00e9dito para as empresas e pessoas com quem comercializava) vai representar uma nova revolu\u00e7\u00e3o na vida de Irineu.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em Carruthers ele encontrou sua maior refer\u00eancia profissional e, afetivamente, o pai que n\u00e3o teve. Aprendeu ingl\u00eas, contabilidade e teve acesso a livros de economia, na \u00e9poca onde se respirava um ar liberal trazido pela abertura dos portos, pelos pequenos manuais para o com\u00e9rcio escritos por Jos\u00e9 da Silva Lisboa, conhecido como Visconde de Cairu, e pelos conceitos de Adam Smith.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Havia na \u00e9poca a prote\u00e7\u00e3o alfandeg\u00e1ria aos comerciantes ingleses e os neg\u00f3cios de Carruthers dispararam de valor. Sua casa comercial na rua Direita (hoje Primeiro de Mar\u00e7o) tornou-se uma das maiores e das mais respeitadas do Rio. Irineu aprendeu que, al\u00e9m de negociar, ter um olho nas regras do jogo definidas pelo governo \u00e9 essencial para antecipar seus movimentos comerciais. Uma das suas inova\u00e7\u00f5es foi acompanhar os neg\u00f3cios fazendo a dupla contabilidade, em libras e em contos de r\u00e9is. No futuro, vai acrescentar tamb\u00e9m a contabilidade indexada no ouro.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1839, Carruthers regressou para sua terra de origem e deixou aqui Irineu na qualidade de s\u00f3cio minorit\u00e1rio, em vez de pura e simplesmente vender a empresa, o que seria o usual. O jovem Irineu, administrando os pr\u00f3speros neg\u00f3cios, adquire uma boa ch\u00e1cara em Santa Teresa. Ele j\u00e1 havia conseguido fazer com que sua m\u00e3e (vi\u00fava novamente) viesse do Sul para viver com ele, reunindo novamente a fam\u00edlia. Com a m\u00e3e veio a neta, Maria Joaquina, ainda no col\u00e9gio. Todos os dias levava sua sobrinha \u00e0 escola. Vendo-a na mesma idade em que se separara da irm\u00e3, ele volta a sentir aquelas distantes sensa\u00e7\u00f5es da crian\u00e7a que ele fora at\u00e9 sair do Rio Grande. E come\u00e7ou a redescobrir o que \u00e9 uma vida familiar, ele que fora dela arrancado t\u00e3o cedo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Os neg\u00f3cios decolaram. A frequente correspond\u00eancia entre Irineu e Carruthers supriu Irineu de conselhos e lhe deu uma vis\u00e3o do que se passava no mundo naquele s\u00e9culo do esplendor da revolu\u00e7\u00e3o industrial e da predomin\u00e2ncia mundial da Inglaterra. Esta, recuperada e de certa forma liberada de seus encargos com sua col\u00f4nia norte-americana, transformou-se em um imp\u00e9rio comercial global. L\u00e1 se sucediam grandes inven\u00e7\u00f5es no campo fabril e da infraestrutura que mudaram a face do mundo. Irineu atravessou bem, do ponto de vista comercial, os anos da menoridade de Pedro II, apesar de todas as flutua\u00e7\u00f5es na economia que as in\u00fameras crises pol\u00edticas provocaram.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Quando Pedro II subiu ao trono, em 1841, sua vida estava financeiramente consolidada. Sua irm\u00e3, agora vi\u00fava, j\u00e1 se juntara \u00e0 m\u00e3e e \u00e0 filha e a uni\u00e3o familiar, rompida pela dist\u00e2ncia, se restabeleceu, dando a Irineu \u2013 ao lado do orgulho profissional \u2013 a realiza\u00e7\u00e3o do sonho que desde a inf\u00e2ncia havia acalentado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nessa ocasi\u00e3o Irineu fez sua primeira viagem \u00e0 Inglaterra onde, por meio dos contatos de Carruthers, se relacionou com a elite de comerciantes e banqueiros. Ficou deslumbrado com as ind\u00fastrias mec\u00e2nicas e metal\u00fargicas que visita. Descobriu nas resid\u00eancias em que foi acolhido que a vida familiar era perfeitamente pass\u00edvel de ser harmonizada com o mundo de neg\u00f3cios. Carruthers, um misantropo, poderia ser modelo para o mundo comercial, mas n\u00e3o era para a vida de fam\u00edlia. Da\u00ed em diante Irineu passou a ver a vida e os neg\u00f3cios de forma diferente.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Quando voltou ao Brasil, tinha claro o que queria fazer. Casou-se com a sobrinha, com quem ir\u00e1 viver muito bem. O casal teve 18 filhos, muitos falecidos no parto ou t\u00e3o pequenos que sequer conhecemos seus nomes. May, como ele tratava a mulher, foi uma esposa exemplar, boa m\u00e3e, boa companheira em todas as vicissitudes que a vida vai lhe proporcionar. E, quando necess\u00e1rio, independente, viajando sozinha para fazer companhia na Inglaterra \u00e0 filha quando esta foi para l\u00e1 estudar ou, mais tarde, passando temporadas com a mo\u00e7a, depois que ela se casou.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ele se mudou em 1845 para uma casa maior na Rua do Catete, de modo a poder frequentar mais ami\u00fade a sociedade. Foi um pai amoroso que mimou os filhos. Era assinante de dezenas de revistas t\u00e9cnicas e de neg\u00f3cios que lia at\u00e9 altas horas para se manter ao corrente do que se passa no mundo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Poucos anos depois, colocou em pr\u00e1tica uma total guinada nos neg\u00f3cios. Afastou-se das transa\u00e7\u00f5es comerciais e tornou-se o que hoje denominar\u00edamos um \u2018banqueiro de investimentos\u2019 e acionista controlador de um conglomerado de empresas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Este ponto \u00e9 importante porque \u00e9 comum vermos decantadas as virtudes de \u201cIrineu, o industrial\u201d, quando, na verdade, de seus 22 neg\u00f3cios principais apenas quatro foram ind\u00fastrias \u2013 das quais duas ligadas \u00e0 agropecu\u00e1ria. Ele foi eminentemente um banqueiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Seu primeiro grande neg\u00f3cio nesta nova fase, no entanto, foi de fato uma ind\u00fastria. Ali ele incorporou muito do que aprendeu no Brasil e na Inglaterra. Ciente que a eleva\u00e7\u00e3o das tarifas de importa\u00e7\u00e3o institu\u00edda pelo Ministro da Fazenda Alves Branco, do novo minist\u00e9rio liberal de Pedro II, criaria a oportunidade de \u201csubstituir importa\u00e7\u00f5es\u201d e favorecer a produ\u00e7\u00e3o no Brasil de v\u00e1rias m\u00e1quinas e equipamentos at\u00e9 ent\u00e3o vindos do estrangeiro, Irineu adquiriu pequenas oficinas em 1846 e construiu o estaleiro e as instala\u00e7\u00f5es fabris da Ponta da Areia. Teve a prud\u00eancia de lan\u00e7ar o neg\u00f3cio apenas depois que obteve o contrato de fornecimento de tubos para o abastecimento de \u00e1gua no Rio de Janeiro. Importou t\u00e9cnicos da Inglaterra e oper\u00e1rios especializados. Dividiu o capital do estaleiro com outros investidores.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Da fabrica\u00e7\u00e3o dos tubos em ferro fundido para a \u00e1gua no Rio se sucederam a fabrica\u00e7\u00e3o de rebocadores para a companhia que criou com comerciantes no Porto do Rio Grande e navios para a empresa de navega\u00e7\u00e3o do Amazonas, que fundou a pedido do governo. Produziu tamb\u00e9m navios para a Marinha de Guerra do Brasil. Empregou sempre os melhores engenheiros, os ingleses, e valorizou o m\u00e9rito de seus colaboradores, os quais fez participar do resultado dos neg\u00f3cios.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Foram incont\u00e1veis as dificuldades de treinar oper\u00e1rios nas especializa\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para esta produ\u00e7\u00e3o diversificada. Em alguns casos, teve que treinar escravos face \u00e0 recusa dos brasileiros em rela\u00e7\u00e3o a este tipo de trabalho industrial, considerado indigno.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O pa\u00eds teve um surto de progresso e melhoria das finan\u00e7as, o que ensejou obras p\u00fablicas. A principal receita do Tesouro era a renda da Alf\u00e2ndega, que, com as al\u00edquotas de importa\u00e7\u00e3o mais altas, subiu expressivamente.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Montou em seguida com acionistas privados o Banco do Com\u00e9rcio e Ind\u00fastria do Brasil, em 1851, que, anos depois, ser\u00e1 estatizado como \u201cBanco do Brasil\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nesta \u00e9poca seu relacionamento com os pol\u00edticos e com os ministros j\u00e1 era grande e seu modelo de neg\u00f3cios passou a ter como caracter\u00edstica o empreendedorismo pelo lado da produ\u00e7\u00e3o ou execu\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os, conjugado a criar um bom&nbsp;<em>network<\/em>&nbsp;com o governo. Amarrou sempre a destina\u00e7\u00e3o do que produziu com contratos de fornecimento para o governo, para empresas do seu grupo ou para consumidores atendidos em concess\u00f5es do servi\u00e7o p\u00fablico.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A aproxima\u00e7\u00e3o com o governo foi, desde ent\u00e3o, fonte de lucros e preju\u00edzos, mas sempre trazendo como \u201csubproduto\u201d defeitos muito humanos, especialmente comuns no Brasil: inveja e maledic\u00eancia, como nossa sociedade costuma a brindar os bem-sucedidos. Irineu n\u00e3o conseguiu seguir a li\u00e7\u00e3o de Carruthers \u2013 \u201cmanter o governo \u00e0 dist\u00e2ncia\u201d. A escala de seus neg\u00f3cios, os apelos de ministros que passou a atender (mesmo com a opini\u00e3o contr\u00e1ria de seus associados) fizeram com que seu envolvimento com os gestores do governo aumentasse continuamente.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Neste clima, a assist\u00eancia humanit\u00e1ria que ele havia prestado aos l\u00edderes da Revolu\u00e7\u00e3o Farroupilha em 1843, alguns ligados a seus parentes ga\u00fachos e que ent\u00e3o estavam presos na fortaleza das Lages, voltou a ser explorada pelos \u00e1ulicos interessados em torn\u00e1-lo, para sempre, suspeito aos olhos do Imperador. Al\u00e9m de ganhar dinheiro \u2013 um pecado naquela sociedade atrasada \u2013 o fato de t\u00ea-lo gasto com inimigos do Imperador foi uma pecha da qual nunca se livrou. Apesar de ser monarquista e na ocasi\u00e3o das visitas aos presos ter publicado um artigo se eximindo de qualquer ades\u00e3o pol\u00edtica aos Farrapos, neste epis\u00f3dio acabou sendo mal falado por ambos os lados.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A Companhia de Navega\u00e7\u00e3o do Amazonas foi um de seus bons investimentos desta \u00e9poca porque para ela recebeu o monop\u00f3lio da navega\u00e7\u00e3o no rio e em seus afluentes. Para o governo, a companhia monopolista foi uma sa\u00edda importante, pois o pa\u00eds estava envolvido em uma pol\u00edtica d\u00fabia: ao mesmo tempo em que, praticando o monop\u00f3lio, fechava o Amazonas \u00e0s pretens\u00f5es estrangeiras, na m\u00e3o oposta, defendia no sul do pa\u00eds a internacionaliza\u00e7\u00e3o da navega\u00e7\u00e3o no Rio da Prata (o que contribuir\u00e1 para o in\u00edcio da Guerra do Paraguai).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Irineu tamb\u00e9m venceu a licita\u00e7\u00e3o para a lucrativa concess\u00e3o de ilumina\u00e7\u00e3o p\u00fablica a g\u00e1s para o Rio de Janeiro. Tornou-se assim, em poucos anos, a maior express\u00e3o econ\u00f4mica do pa\u00eds, controlador das suas cinco maiores empresas privadas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Foi aclamado em 1846 para presidir a Associa\u00e7\u00e3o Comercial do Rio de Janeiro, que iniciou uma nova fase da sua exist\u00eancia e teve anos gloriosos sob a sua presid\u00eancia e de v\u00e1rios s\u00f3cios seus at\u00e9 a longa gest\u00e3o do Visconde de Tocantins, irm\u00e3o do Duque de Caxias, que a presidiu de 1862 a 1884. Mau\u00e1 e Caxias foram companheiros da ma\u00e7onaria, uma das formas de se construir relacionamentos e participar da vida pol\u00edtica naquela \u00e9poca.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Muito pr\u00f3ximo aos ministros do gabinete liberal \u2013 que deve ser entendido como federalista e internacionalista \u2013 al\u00e9m de ter atendido a muitos pequenos pedidos do governo, Irineu atendeu a um pedido ins\u00f3lito em 1850: com a condi\u00e7\u00e3o de n\u00e3o mencionar que teria agido por solicita\u00e7\u00e3o do governo brasileiro (apelo do ent\u00e3o poderoso amigo Ministro Paulino de Sousa), abriu uma casa banc\u00e1ria no Uruguai e aplicou uma discricion\u00e1ria pol\u00edtica de cr\u00e9dito em benef\u00edcio de uma das fac\u00e7\u00f5es pol\u00edticas locais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 importante lembrar que os bancos na \u00e9poca emitiam moeda ou t\u00edtulos que eram negociados como se moeda fossem. Isto expandia o meio circulante. Este neg\u00f3cio banc\u00e1rio no Prata, em particular, e seus desdobramentos o envolver\u00e3o praticamente at\u00e9 o fim da vida, ora ganhando ora perdendo, sempre com grandes cr\u00e9ditos a receber do governo uruguaio. E sempre carente do apoio oficial brasileiro para receber seus cr\u00e9ditos.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir de 1855, passou tamb\u00e9m a ser eleito e sucessivamente reeleito por quase 20 anos como deputado pelo Rio Grande do Sul, filiado ao Partido Liberal. Publicou frequentes artigos nos jornais onde defendia teses liberais, as suas empresas e, quando necess\u00e1rio, o seu bom nome.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A frequ\u00eancia com que visitou o Uruguai e suas planuras que o remetem \u00e0s da sua inf\u00e2ncia o fez adquirir grandes extens\u00f5es de terra e acumular a enormidade de 250.000 cabe\u00e7as de gado nos seus 250.000 hectares em torno da est\u00e2ncia, em Mercedes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1852 implantou a primeira ferrovia do Brasil, um trecho plano ligando um porto no interior da Ba\u00eda de Guanabara \u2013 hoje chamado Mau\u00e1 \u2013 \u00e0 raiz da Serra da Estrela. Em Mau\u00e1 se chegava por uma linha de pequenos barcos \u00e0 vapor, tamb\u00e9m de sua propriedade, que partiam da Prainha, hoje a Pra\u00e7a Mau\u00e1, no Centro do Rio de Janeiro.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Na cerim\u00f4nia de in\u00edcio das obras da ferrovia, fez com que o ilustre convidado Imperador manuseasse uma p\u00e1 (a verdade \u00e9 que era feita de prata) e um carrinho de m\u00e3o (de jacarand\u00e1, madeira nobil\u00edssima). Fez tamb\u00e9m um belo discurso enaltecendo o trabalho como fonte do m\u00e9rito e cria\u00e7\u00e3o de riquezas. Tudo isso, por\u00e9m, serviu de combust\u00edvel para que seus detratores espalhassem maledic\u00eancias no sentido de que a inten\u00e7\u00e3o de Mau\u00e1 era diminuir o popular Imperador, o que aumentou a rejei\u00e7\u00e3o pessoal de muitos contra Irineu.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O discurso apolog\u00e9tico do valor do trabalho sobre o capital que fez no lan\u00e7amento da pedra fundamental da ferrovia n\u00e3o deixa de ser interessante se a ele referenciarmos os versos da ent\u00e3o j\u00e1 velha de dois s\u00e9culos f\u00e1bula de La Fontaine:&nbsp;<em>\u201cTravaillez prenez de la peine. C\u2019est le fonds qui manque le moins\u201d<\/em>&nbsp;\u2013 que toda crian\u00e7a instru\u00edda recitava de cor no original em franc\u00eas para celebrar a primazia do trabalho sobre o capital.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Lembremos que este discurso de Mau\u00e1 ocorreu quatro anos ap\u00f3s 1848, o ano das revolu\u00e7\u00f5es sociais na Europa e do Manifesto do Partido Comunista, de autoria de Marx e Engels, obra certamente do conhecimento de Irineu e do Imperador. O Imperador, partid\u00e1rio da aristocracia das grandes propriedades rurais, conservador, pressionado por seus Ministros (que reconheciam a fundamental import\u00e2ncia de Mau\u00e1 para a concretiza\u00e7\u00e3o de qualquer projeto p\u00fablico de grande porte), neste dia concedeu a Irineu o t\u00edtulo de \u201cBar\u00e3o de Mau\u00e1\u201d. O povo, despeitado, invejoso e j\u00e1 impregnado pelas vers\u00f5es que manchavam o nome de Irineu, comentava: \u201ccertamente mal h\u00e1!\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em verdade, o esp\u00edrito do partido conservador era retr\u00f3gado e fixado no imobilismo social, desprezando as novas formas de enriquecer.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Vale citar o ponto de vista de c\u00e9lebres intelectuais ingleses, conforme destacado no livro \u201cThe Club \u2013 Johnson, Boswell And The Friends Who Shaped An Age\u201d(Damrosch, Leo; Yale University Press), que trata dos encontros havidos entre uma confraria de personagens ilustres da vida cultural brit\u00e2nica cerca de sessenta anos antes do momento hist\u00f3rico de Mau\u00e1. Este livro destaca o seguinte: \u201c<em>Conservative Whigs, like Gibbon and Burke were convinced that power must be centered in a landed oligarchy. That was the class they thought, that has the greatest stake in the good of the nation, whereas merchant and speculators were enriching themselves at the nations expense\u201d<\/em>. Em tradu\u00e7\u00e3o livre, quer dizer que Burke e Gibbons (renomados pol\u00edtico e historiador, respectivamente) ambos adeptos do mais puro pensamento conservador, acreditavam que o poder deveria estar fundamentado em uma oligarquia propriet\u00e1ria de terras. Esta seria a classe social que, segundo estes pensadores, det\u00e9m o maior interesse no bem da na\u00e7\u00e3o \u2013 enquanto a classe dos que vivem de com\u00e9rcio e especula\u00e7\u00f5es financeiras visavam somente enriquecer \u00e0s custas da na\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mau\u00e1, estando com frequ\u00eancia no Uruguai, acabou se envolvendo em neg\u00f3cios na vizinha Argentina. L\u00e1, tornou-se o banqueiro pessoal de Urquiza, o todo poderoso da prov\u00edncia de Entre Rios e, a um tempo, Presidente da Rep\u00fablica Argentina. Criou um Banco na Argentina com tr\u00eas filiais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Suas dificuldades pol\u00edticas se agravaram a partir do momento em que os ministros brasileiros tomaram ci\u00eancia de seus neg\u00f3cios na regi\u00e3o do Prata. Este local era o palco de um conflito que opunha o Brasil e o governo da prov\u00edncia de Buenos Aires. Onde o homem forte era Rosas, defensor de um estado unit\u00e1rio sob sua presid\u00eancia e inimigo de Urquiza. Adicionalmente, no Uruguai, o banco de Mau\u00e1 havia dado apoio financeiro ao Presidente Berro (do Partido Blanco), que veio a ser deposto e substitu\u00eddo pelo Presidente Venancio Flores (do Partido Colorado), este apoiado pelo governo brasileiro. Tal manobra foi desastrosa para os neg\u00f3cios locais de Mau\u00e1, pois impediu que ele recebesse os cr\u00e9ditos referentes a emiss\u00f5es de t\u00edtulos ordenadas pelo antigo presidente.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Neste per\u00edodo abundaram suas idas e vindas \u00e0 regi\u00e3o. Na Argentina, tamb\u00e9m na vis\u00e3o do governo brasileiro, se alinhou do lado errado, pois l\u00e1 se consolida o dom\u00ednio de Bartolomeu Mitre com a predomin\u00e2ncia da prov\u00edncia de Buenos Aires sobre as demais, enquanto Mau\u00e1 \u2013 ainda que discretamente \u2013 preferia a forma\u00e7\u00e3o de uma federa\u00e7\u00e3o entre Uruguai, Entre Rios (de Urquiza) e Corrientes. Hoje estes personagens vivem na nomenclatura de ruas no bairro do Leblon, no Rio de Janeiro.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Deste momento em diante, Mau\u00e1 n\u00e3o se livrou de acusa\u00e7\u00f5es de querer colocar o governo a seu servi\u00e7o. O Brasil, esquecido da origem de tudo, se recusou a apoi\u00e1-lo em suas demandas aos novos governos da regi\u00e3o, coisa que os Estados Unidos, a Inglaterra e a Fran\u00e7a sempre faziam em defesa do interesse de suas empresas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No Brasil ele havia sido solicitado a ajudar, apesar de n\u00e3o ter interesse econ\u00f4mico, no projeto estatal da ferrovia para S\u00e3o Paulo, a Estrada de Ferro Pedro II. Ele n\u00e3o deixou de notar que esta empresa estatal que ainda n\u00e3o come\u00e7ara as opera\u00e7\u00f5es j\u00e1 contava com 11 diretores enquanto a sua pr\u00f3pria, uma empresa operante, tinha apenas 2. De toda forma, ajudou o seu presidente, Cristiano Ottoni, em v\u00e1rias oportunidades. Com Cristiano e com os irm\u00e3os Rebou\u00e7as, grandes engenheiros do imp\u00e9rio, teve sempre as melhores rela\u00e7\u00f5es e facilitava o acesso a seus contratados, os engenheiros ingleses que invariavelmente trazia para seus projetos. Em uma decis\u00e3o mal pensada, ele paga (a pedido de seus contatos ingleses), um reajuste solicitado pelo empreiteiro ingl\u00eas da Estrada Pedro II. Esse pagamento, que se referia a \u201cclaims\u201d ainda n\u00e3o aceitos pelo contratante brasileiro, a Estrada de Ferro Pedro II. Mau\u00e1 adiantou o pagamento a pedido dos ingleses porque sabia que a recusa afetaria a credibilidade do pa\u00eds. Muitos anos depois, esgotadas as tratativas amistosas, a a\u00e7\u00e3o judicial que Mau\u00e1 prop\u00f4s para receber este substancial adiantamento mobilizou o governo contra o pagamento. A causa se arrastou por mais de uma d\u00e9cada sem sucesso para Mau\u00e1.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Promoveu a constru\u00e7\u00e3o da ferrovia Santos-Jundia\u00ed com muita dificuldade na rela\u00e7\u00e3o com o governo. Esta s\u00f3 deslanchou quando acolheu um bem relacionado Bar\u00e3o como acionista principal, o que assegurou a garantia do Tesouro ao pagamento de dividendos m\u00ednimos por parte da empresa. A pedido de investidores ingleses, ainda se envolveu em uma problem\u00e1tica ferrovia do S\u00e3o Francisco a Recife.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Cabe esclarecer que estes pedidos dos investidores ingleses mencionados nos par\u00e1grafos anteriores eram atendidos porque, na Europa, Mau\u00e1 era considerado Brasil. Um eventual&nbsp;<em>default<\/em>&nbsp;do Brasil repercutiria em todos neg\u00f3cios de Mau\u00e1. E isso \u00e9 o que ele procurava prevenir, embora desconfiado da veracidade das promessas de seus amigos no governo \u2013 que diziam que o Brasil honraria as d\u00edvidas. Mau\u00e1, diga-se de passagem, nunca criticou no exterior o seu pa\u00eds, cioso da dificuldade de se manter a reputa\u00e7\u00e3o frente aos mercados. Quanto a isso nada mudou nos mercados financeiros: o risco pa\u00eds contamina o&nbsp;<em>rating&nbsp;<\/em>de suas empresas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1861, ao receber as not\u00edcias do in\u00edcio da guerra de secess\u00e3o nos Estados Unidos, previu que seria longa e cruenta e ofereceu aos s\u00f3cios sa\u00edrem da sociedade. Fez opera\u00e7\u00f5es financeiras e cambiais arriscadas, mas condizentes com suas expectativas. Com isso, auferiu pessoalmente grandes lucros financeiros, que aportava em suas companhias que sofreram com a recess\u00e3o dos neg\u00f3cios.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No Sul, o Brasil enfrentou entre 1864 e 1870 a guerra do Paraguai. Houve sucesso na frente naval \u2013 a batalha do Riachuelo em particular \u2013 gra\u00e7as aos navios constru\u00eddos na Ponta da Areia. Mau\u00e1 foi, por\u00e9m, exclu\u00eddo de qualquer suprimento lucrativo ao Ex\u00e9rcito, o que foi na ocasi\u00e3o o maior sorvedouro de recursos p\u00fablicos. Nem por isso deixou de acudir necessidades de suprimento ao ex\u00e9rcito brasileiro a pedido se seu amigo o Duque de Caxias.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1870, ao final da guerra do Paraguai. A retomada dos neg\u00f3cios encontrou um pa\u00eds endividado. Uma nova classe pol\u00edtica emergente, formada de militares e classe m\u00e9dia, e uma maior press\u00e3o pela aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o. Aos 56 anos de idade, estava esgotado, com problemas de sa\u00fade e suas empresas com enormes cr\u00e9ditos a receber na Argentina, no Uruguai e da estatal Estrada de Ferro Pedro II. Al\u00e9m disso, absorveu sua quota de sacrif\u00edcio na fal\u00eancia da Casa Banc\u00e1ria de Ant\u00f4nio de Sousa Ribeiro, envolta em longa disputa judicial, plena de chicanas e procedimentos protelat\u00f3rios, j\u00e1 usuais desde aquela \u00e9poca em nossa justi\u00e7a.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Todo este tempo foi hostilizado pelo governo, pelo Congresso e pela imprensa. Tendo usado fundos pr\u00f3prios para pagar d\u00edvidas do Ponta da Areia e da Ferrovia Pedro II, estava com um permanente e dram\u00e1tico problema de liquidez.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ele havia tamb\u00e9m, apesar das resist\u00eancias dom\u00e9sticas, adquirido o antigo palacete da Marquesa de Santos, tendo se tornado vizinho do Imperador. Construiu tamb\u00e9m uma bela casa em Petr\u00f3polis em frente ao Pal\u00e1cio de Cristal. A m\u00e3e e a \u201csogra-irm\u00e3\u201d moram com ele e se implicam o dia inteiro. Com a inata esperteza matuta, ficaram temerosas da interpreta\u00e7\u00e3o que o \u201cdesafeto e vizinho\u201d (nada menos do que o Imperador D. Pedro II) poderia dar a esta iniciativa de Mau\u00e1 se aproximar fisicamente de seus dom\u00ednios. Irineu tinha que frequentemente acalmar as duas velhas ranzinzas. A esposa May o ajudava no que podia&#8230;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nestes anos e nos subsequentes, sempre batalhando em todas estas frentes, Mau\u00e1 seguiu inovando. Em primeiro lugar, consolidou as participa\u00e7\u00f5es nas diversas empresas que detinha em uma \u00fanica empresa holding do conglomerado de suas participa\u00e7\u00f5es o que lhe proporcionou musculatura financeira e patrimonial.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo, para refor\u00e7ar o caixa do conglomerado, alienou participa\u00e7\u00f5es extremamente lucrativas como a da ilumina\u00e7\u00e3o a g\u00e1s no Rio de Janeiro e a da Companhia de Navega\u00e7\u00e3o do Amazonas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Terceiro, promoveu investimentos em pesquisa de m\u00e9todos de conserva\u00e7\u00e3o da carne e aumento da efici\u00eancia nas enormes propriedades agr\u00edcolas que agora a empresa holding possu\u00eda. Obteve grande sucesso nesta \u00e1rea com sistemas de cozimento das carnes, viabilizando um maior tempo de conserva\u00e7\u00e3o, ampliando o seu alcance comercial e com a pioneira utiliza\u00e7\u00e3o de tratores a vapor para arar o campo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, o quarto ponto foi recorrer frequentemente a negocia\u00e7\u00f5es diretas das d\u00edvidas com credores e investidores para redefinir termos de opera\u00e7\u00f5es anteriores, ou para ganhar mais prazo. Obtinha sucesso em tais negocia\u00e7\u00f5es gra\u00e7as ao seu excelente conceito.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Foi apologista de uma posi\u00e7\u00e3o muito liberal no tocante ao meio circulante, advogando uma liberdade de emiss\u00e3o por bancos privados. Ele explorou esta tese em v\u00e1rios artigos publicados em jornais. Como sabemos, n\u00e3o vingou.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Com filhos pequenos e adolescentes e ainda enfrentando um per\u00edodo de enfermidades recorrentes de sua esposa (que v\u00e3o inclusive requerer sua interna\u00e7\u00e3o na Su\u00ed\u00e7a) encontrou \u00e2nimo para propor a cria\u00e7\u00e3o de um grande banco internacional em sociedade com os maiores financistas de ent\u00e3o \u2013 Lionel Rothschild e outros \u2013 e investidores de prest\u00edgio, como o ex-Primeiro Ministro ingl\u00eas Gladstone. Visava com isso neutralizar bancos concorrentes estrangeiros que j\u00e1 haviam causado perturba\u00e7\u00f5es no mercado uruguaio e se instalavam ent\u00e3o no Brasil.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O projeto deste grande banco acaba n\u00e3o saindo do papel frente a press\u00f5es do Bar\u00e3o de Penedo sobre os s\u00f3cios estrangeiros. Penedo, o embaixador brasileiro na Inglaterra, era intermedi\u00e1rio remunerado por Rothschild nos empr\u00e9stimos que este fazia ao Brasil. Penedo deixou claro para os poss\u00edveis s\u00f3cios de Mau\u00e1 o risco de n\u00e3o mais haver opera\u00e7\u00f5es com suas casas matrizes caso persistissem em se associar a Mau\u00e1. Se o fazia em interesse pr\u00f3prio, a pedido de Pedro II ou do Brasil, nunca ficou claro.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Surpreendentemente, neste per\u00edodo recebeu a concess\u00e3o do cabo submarino Brasil-Inglaterra, porque, gostando ou n\u00e3o, o governo sabia que ele era o \u00fanico capaz de lev\u00e1-la a termo. Abriu m\u00e3o de qualquer remunera\u00e7\u00e3o, mas, nem por isso, se livrou de ataques e acusa\u00e7\u00f5es de favorecimento. Realizou o trabalho em prazo recorde. Na inaugura\u00e7\u00e3o, em 1874, recebeu do Imperador, reconhecido, o t\u00edtulo de Visconde (com grandeza) de Mau\u00e1. No evento, D. Pedro II trocou telegramas com o Papa e com a rainha Vit\u00f3ria. Desta vez foi do pr\u00f3prio Imperador (e n\u00e3o de seus ministros) a iniciativa da comenda.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O peso de d\u00edvidas passadas assumidas em resposta a apelos governamentais se tornou insustent\u00e1vel e ele n\u00e3o conseguiu vender ativos na velocidade que produzisse fundos para quit\u00e1-las. Impossibilitado de honrar seus compromissos financeiros pela recusa do Banco do Brasil lhe emprestar 3.000 contos (sobejamente cobertos pelas garantias que oferecia, diga-se) teve que requerer concordata. Esta lhe foi deferida em 1875 para ser cumprida no prazo de 3 anos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ao final deste per\u00edodo de 3 anos, honrou 61 mil contos de um total de 98 mil contos, ou seja, cerca de 60% do total do descasamento que havia gerado a concordata. Para dar uma ideia da escala, os 98 mil contos equivaliam a 94% das receitas anuais do governo brasileiro.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Solicitou ent\u00e3o prazo adicional para quitar o resto, o que n\u00e3o lhe foi deferido, tendo sido decretada a sua fal\u00eancia em 1878. Isto lhe causou extrema como\u00e7\u00e3o. Todos os seus bens, inclusive roupas e alfaias dom\u00e9sticas, foram vendidos em leil\u00e3o. Algumas pe\u00e7as foram adquiridas por amigos e devolvidas ao Visconde. Ali escreveu sua memor\u00e1vel \u201cExposi\u00e7\u00e3o aos Credores\u201d, por vezes denominada sua autobiografia, que acaba com um pen\u00faltimo par\u00e1grafo memor\u00e1vel:&nbsp;<em>\u201cS\u00f3 me resta fazer votos para que, no meio s\u00e9culo que se segue, encontre meu pa\u00eds quem se ocupe dos melhoramentos materiais de nossa terra com a mesma fervorosa dedica\u00e7\u00e3o e desinteresse (digam o que quiserem os maldizentes) que acompanhavam os meus atos durante um per\u00edodo n\u00e3o menos longo, servi\u00e7os que tiveram por recompensa um procedimento desnecess\u00e1rio pois, este ato de poder judici\u00e1rio (a fal\u00eancia) s\u00f3 pode dar-se porque a legisla\u00e7\u00e3o insuficiente que possu\u00edmos a respeito dos interesses monet\u00e1rios, desconhece o verdadeiro princ\u00edpio em que se assentam esses interesses \u2013 a liberdade das conven\u00e7\u00f5es\u201d<\/em>.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Colaborou com os liquidantes na aliena\u00e7\u00e3o de ativos remanescentes e com as receitas obtidas quitou todas as pend\u00eancias, caso absolutamente inusitado. Com isso, em 1884 recebeu do amigo e Ministro Miguel Calmon du Pin e Almeida a carta de reabilita\u00e7\u00e3o plena para exerc\u00edcio de qualquer atividade comercial e banc\u00e1ria. Pela primeira vez na vida p\u00fablica, chorou de emo\u00e7\u00e3o. Tinha sua esposa May ao lado nesta hora.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ele ainda realizou com sucesso opera\u00e7\u00f5es atrav\u00e9s de uma empresa financeira que tinha aberto com 19 s\u00f3cios amigos e parceiros de toda vida na Inglaterra. Em paralelo, no plano pessoal, conviveu mais com a fam\u00edlia acrescida de muitos netos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Sofrendo de diabetes e envelhecido por esta exaustiva vida, o Visconde faleceu no dia 21 de outubro de 1888, em Petr\u00f3polis. Havia neste dia descido e subido a serra para atender a um compromisso no Rio.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Foi a maior express\u00e3o econ\u00f4mica que o Brasil j\u00e1 possuiu, um homem de neg\u00f3cios como os mais avan\u00e7ados do mundo, \u00e9tico no mais alto grau e marcado pelo trabalho.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Meio s\u00e9culo depois, em 1936, referindo-se a outro contexto, embora aplic\u00e1vel neste de Mau\u00e1, Lorde Keynes escreveu em seu livro \u201cGeneral Theory\u201d (Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda): \u201c<em>Most probably our decisions to do something positive, the full consequences of which will be drawn out over many days to come, can only be taken as the result of&nbsp;<strong>animal spirits &#8211; a spontaneous urge to action rather than inaction<\/strong>, and not as the outcome of a weighted average of quantitative benefits multiplied by quantitative probabilities(\u2026)\u201d.<\/em>&nbsp;Da mesma forma, e sintetizando tal pensamento de Keynes vemos que esta espont\u00e2nea decis\u00e3o de agir em vez de n\u00e3o agir que caracteriza a ess\u00eancia do chamado \u201cesp\u00edrito empreendedor\u201d, foi tamb\u00e9m caracterizada por Joseph Schumpeter como \u201co atributo do empres\u00e1rio din\u00e2mico, a personaliza\u00e7\u00e3o da vitalidade empresarial\u201d, conforme descrito em seu livro \u201cCapitalismo, Socialismo, Democracia\u201d, de 1942.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Foi um homem, portanto, muito avan\u00e7ado para o seu tempo. Mau\u00e1 viveu no s\u00e9culo de grandes mudan\u00e7as na economia, nas tecnologias, nas rela\u00e7\u00f5es sociais e trabalhistas. Foi tamb\u00e9m o momento da consolida\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses da Am\u00e9rica do Sul, da partilha da \u00c1frica pelas grandes pot\u00eancias e da forma\u00e7\u00e3o da Europa Moderna.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A Associa\u00e7\u00e3o Comercial do Rio de Janeiro \u2013 com muito orgulho de antigo presidente \u2013 desde seu falecimento se denomina \u201cCasa de Mau\u00e1\u201d, aquele que sonhou um Brasil grande e rico, eticamente constru\u00eddo pelo trabalho, pela iniciativa privada e inserido na economia mundial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-medium-font-size\"><strong>Jos\u00e9 Luiz Alqu\u00e9res<\/strong><br>Grande Benem\u00e9rito e\u00a0Ex-Presidente da Associa\u00e7\u00e3o Comercial do Rio de Janeiro<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Irineu Evangelista de Sousa nasceu em 1814 no atual estado do Rio Grande do Sul. 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