{"id":2984,"date":"2019-07-11T17:41:00","date_gmt":"2019-07-11T20:41:00","guid":{"rendered":"http:\/\/acrj2020.profissional.ws\/?p=2984"},"modified":"2020-03-01T17:43:12","modified_gmt":"2020-03-01T20:43:12","slug":"o-rio-bom-de-boca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/2019\/07\/11\/o-rio-bom-de-boca\/","title":{"rendered":"O Rio bom de boca"},"content":{"rendered":"\n<p>Toda cidade tropical \u00e0 beira-mar \u00e9 sensual, m\u00e1gica, meio solta. Gulosa. E o Rio \u00e9 assim. Mas tamb\u00e9m, pudera: como dizia o Guilherme Figueiredo, a cidade fez-se metr\u00f3pole lambida pelo Atl\u00e2ntico, untada pelo azeite do portugu\u00eas, ardendo em pimenta africana.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dia, no entanto, o Rio-Col\u00f4nia virou Rio-Capital e, ent\u00e3o, em vez das paneladas que eram servidas em&nbsp;<em>charretes<\/em>&nbsp;que percorriam a cidade e paravam nos pontos conhecidos, comia-se nas pens\u00f5es, nos clubes ou em casa.<\/p>\n\n\n\n<p>Caldos, arroz(es) com camar\u00e3o, peixes, galinhas, perus, carneiros, porcos, carne de vaca, feij\u00e3o, farinha, tudo isso acompanhado de muita cebola, inhame, verduras e ra\u00edzes. De sobremesa, pudins, doce-de-arroz, queijo de Minas, compotas, goiabadas, marmeladas e fruta, muita fruta. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Tanto que \u00e0 noite, na cl\u00e1ssica trilogia do C &#8212; col\u00e9gio, convento, caserna &#8212; servia-se uma sopa de caju gelado, \u00e0 guisa de ceia. Vitamina C na veia.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois, em 1834, um navio americano vindo de Boston chegou ao porto do Rio trazendo a grande novidade: sorvete. No princ\u00edpio n\u00e3o fez o sucesso esperado &#8212; \u201cqueima a l\u00edngua\u201d &#8212; diziam. A\u00ed algu\u00e9m teve a ideia de mistur\u00e1-lo com groselha e suco de frutas. Emplacou!<\/p>\n\n\n\n<p>E o sucesso foi tanto que as sorveterias colocavam um quadro negro do lado de fora, com o hor\u00e1rio dos servi\u00e7os. E as filas davam a volta. Continuam no circuito, novidadeiros: com prosecco, de goiabada e queijo, de brigadeiro&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o&nbsp;<em>Rio-Gourmet&nbsp;<\/em>nasceu um pouco mais tarde, por volta de 1861, quando o Bar\u00e3o de Mau\u00e1 instalou na cidade a primeira F\u00e1brica de G\u00e1s, oferecendo uma alternativa \u00e0 lenha.<\/p>\n\n\n\n<p>As mans\u00f5es de Laranjeiras, do Cosme Velho, do Flamengo e Botafogo agora tinham luz p\u00fablica &#8212; podiam&nbsp;<em>receber<\/em>&nbsp;at\u00e9 mais tarde. Nasceram, ent\u00e3o, as noitadas gastron\u00f4micas, regadas \u00e0 cerveja preta portuguesa, vinho do Porto, vermute, licores e infus\u00f5es .<\/p>\n\n\n\n<p>Logo depois, em 1894, dois portugueses &#8212; Meirelles e Manoel&nbsp; LEBR\u00c3O (este \u00faltimo, um \u201cg\u00eanio\u201d que intuiu o chamado marketing de relacionamento:&nbsp;<strong>o fregu\u00eas tem sempre raz\u00e3o)<\/strong>&nbsp;\u2013 inauguraram a Confeitaria Colombo.<\/p>\n\n\n\n<p>E o Rio passou a ter o seu Caf\u00e9 de La Paix tropical, a marca da &nbsp;<em>Belle \u00c9poque.&nbsp;<\/em>A vida mundana explodia em uma cidade em ebuli\u00e7\u00e3o, afrancesada, descobrindo a \u201cvertigem\u201d de ser chique. Sem culpa. Circulava dinheiro. Circulavam ideias e falava-se franc\u00eas e ingl\u00eas (<em>muito merci, all right<\/em>, como no samba Caf\u00e9 So\u00e7aite, de Miguel Gustavo).<\/p>\n\n\n\n<p>Era a v\u00e9spera do Rio-Paris, do Pereira Passos.<\/p>\n\n\n\n<p>Seguiu-se um Rio do champagne e do u\u00edsque, (Cuba-Libre foi uma onda, entre jovens) das boates e dos primeiros restaurantes estrelados \u2013 o Bife de Ouro, no Copa; o Le Bec Fin, no Lido e o Nino em Copacabana, para ficar nos mais emblem\u00e1ticos.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, serviam-se receitas muito europeias. Mesmo com esse \u201co sol que passa da conta\u201d, as comidas eram encharcadas de molhos espessos, flambavam-se sobremesas e findavam-se os&nbsp;<em>br\u00f3dios<\/em>&nbsp;com licores ou conhaque. E l\u00e1 fora, quarenta graus!<\/p>\n\n\n\n<p>A\u00ed um fato novo: a Revolu\u00e7\u00e3o dos Cravos, em Portugal, (1974) \u201dexportou\u201d para o Rio uma elite de empres\u00e1rios portugueses com dinheiro e bons costumes \u2013 sobretudo \u00e0 mesa &#8212; e um&nbsp;<em>restaurateur&nbsp;<\/em>de vis\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Resultado: o carioca passou a conhecer uma culin\u00e1ria d\u2019al\u00e9m-mar elaborada, vinhos outros que n\u00e3o o verde ou o Mateus Ros\u00e9, os card\u00e1pios passaram a&nbsp;<em>falar portugu\u00eas&nbsp;<\/em>e a doceiria supimpa.<\/p>\n\n\n\n<p>Vieram, a seguir, os italianos de uma nova gera\u00e7\u00e3o, decididos a &#8220;revogar&#8221; o conceito de que o velho L\u00e1cio s\u00f3 conhecia a pizza e os&nbsp;<em>cannellonis<\/em>, regados a Chantis menores, com garrafa envolta em palha.<\/p>\n\n\n\n<p>Os restaurantes&nbsp;<em>oriundi<\/em>&nbsp;surpreenderam pela variedade e qualidade de suas receitas regionais (sobretudo as do norte) e bons vinhos da Toscana e do Piemonte.<\/p>\n\n\n\n<p>Terceiro movimento: os&nbsp;<em>japas<\/em>. No in\u00edcio s\u00f3 alguns, na Lagoa e no centro, \u201co guardanapo vem cozido e o peixe vem cru\u201d, escreveu algu\u00e9m. Mas justamente o conceito do cru, do fresco, do natural, veio ao encontro do&nbsp;<strong>inconsciente tamoio<\/strong>&nbsp;que herdamos dos bravos selv\u00edcolas que junto com os portugueses nos fundaram ali \u201cao p\u00e9\u201d do&nbsp; Morro Cara de C\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nossa homenagem a eles, no dia de hoje.<\/p>\n\n\n\n<p>Vida que segue: nisso, os brasileiros reagiram e, numa ponta, come\u00e7aram a valorizar os ingredientes genuinamente nacionais. Entraram em cena ostras, vieiras, camar\u00f5es e cavaquinhas do litoral fluminense, al\u00e9m de peixes amaz\u00f4nicos, moquecas capixabas e a exuberante culin\u00e1ria baiana.<\/p>\n\n\n\n<p>Ah, sim: e de S\u00e3o Paulo veio o churrasco rod\u00edzio.<\/p>\n\n\n\n<p>A\u00ed explodiu a globaliza\u00e7\u00e3o: os naturebas, os botequins sofisticados (p\u00e9s-limpos), as tapas espanholas, as pizzarias-gourmet, as cevicherias, as d\u00e9lis, as livrarias-gastr\u00f4, os gastrobares, os quiosques \u00e0 beira-mar\/Lagoa, as portinhas que vendem empadinhas, past\u00e9is e bolinhos (o de feij\u00e3o \u00e9 hoje uma commodity carioca). Sem esquecer o servi\u00e7o de entregas em domic\u00edlio. Sim senhores: muitas Londres n\u00e3o t\u00eam \u201cdelivery\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Observa\u00e7\u00e3o: n\u00e3o cabe men\u00e7\u00e3o aqui aos famosos bares do Rio. \u00c9 um saudoso cap\u00edtulo \u00e0 parte. Nem das outras iguarias estrangeiras:&nbsp;<em>fondues, wurst, borschts, quibes, tortillas&nbsp;&nbsp;<\/em>e tira-gostosluso-brasileiros.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas duas inova\u00e7\u00f5es merecem registro especial: a comida a quilo e as churrascarias que servem&#8230; variados mariscos!<\/p>\n\n\n\n<p>As primeiras, derrubaram muito&nbsp;<em>fast-food<\/em>&nbsp;&#8220;gringo\u201d, porque \u00e9 um achado pagar-se pouco por um caleidosc\u00f3pio de entradas frias, carnes de aves e de gado, ensopados e farta mesa de doces.<\/p>\n\n\n\n<p>E as segundas, as churrascarias, meio uma extens\u00e3o desse conceito de &#8220;tudo junto e misturado&#8221;, passaram a incluir frutos do mar fresqu\u00edssimos, polvos e lulas, tambaqu\u00eds, filhotes, pirarucus e tucunar\u00e9s, al\u00e9m de&nbsp;<em>paellas<\/em>&nbsp;e risotos, junto com a ciranda de carnes tradicionais e as especiais: r\u00e3s, avestruz, coelhos, carneiros e cordeiros, no pre\u00e7o fixo do card\u00e1pio.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00faltimo movimento atuou em tr\u00eas frentes: elevou pequenos restaurantes e at\u00e9 lanchonetes \u00e0 categoria de&nbsp;<strong>pontos de gastronomia<\/strong>&nbsp;\u2013 e n\u00e3o s\u00f3 nos endere\u00e7os tradicionais, mas nos morros, da Concei\u00e7\u00e3o, do Alem\u00e3o e nas comunidades: Vidigal, Rocinha e outros. Criou espa\u00e7o para os&nbsp;<em>food-trucks<\/em>, hoje t\u00e3o badalados como as carrocinhas de cachorro quente em Nova Yorque ou as de cr\u00eapes em Paris. Resgatou a cacha\u00e7a, tantos anos humilhada e a colocou nos displays dos melhores hot\u00e9is e no balc\u00e3o dos&nbsp;<em>mix\u00f3logos&nbsp;<\/em>da moda, que recriaram a caipirinha (outras frutas, outros ingredientes: gengibre, pimenta&#8230;) ou a incluem em drinques cl\u00e1ssicos, como o Negroni.<\/p>\n\n\n\n<p>A cerveja tamb\u00e9m encontrou o seu pedestal:&nbsp; subiu da tulipa para ta\u00e7as diferenciadas, multiplicou as pequenas ind\u00fastrias artesanais e entrou para a carta de harmoniza\u00e7\u00e3o com os pratos nos restaurantes mais \u201ccontempor\u00e2neos\u201d. Hoje compete com o vinho de mesa como bebida gourmet.<\/p>\n\n\n\n<p>O chope continua&nbsp;<em>na cal\u00e7ada<\/em>, de bermuda.<\/p>\n\n\n\n<p>Moral da hist\u00f3ria: o Rio \u00e9, hoje, em mat\u00e9ria de gastronomia, uma babel-p\u00f3s-moderna, \u00e0s vezes um pouco barulhenta demais, com ar-condicionados muito fortes, pre\u00e7os voadores e gente que fala alto.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, criativa, plural. E generosamente curva: como as montanhas e as mulheres desta Cidade divertida, quase sempre Maravilhosa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-medium-font-size\"><strong>Reinaldo Paes Barreto<\/strong><br>Vice-Presidente do Conselho Empresarial de Assuntos Culturais da ACRJ<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Toda cidade tropical \u00e0 beira-mar \u00e9 sensual, m\u00e1gica, meio solta. Gulosa. E o Rio \u00e9 assim. 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