{"id":26618,"date":"2024-06-05T10:00:00","date_gmt":"2024-06-05T13:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/acrj.org.br\/?p=26618"},"modified":"2024-08-26T17:32:47","modified_gmt":"2024-08-26T20:32:47","slug":"e-a-velha-compaixao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/2024\/06\/05\/e-a-velha-compaixao\/","title":{"rendered":"E a velha compaix\u00e3o?"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Por\u00a0Margareth Dalcolmo, m\u00e9dica, professora e pesquisadora da Fiocruz<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Nesses tempos que vivemos, desafiados pela intelig\u00eancia artificial, e revolucionados pela internet nas comunica\u00e7\u00f5es e no com\u00e9rcio de toda ordem, at\u00e9 nas rela\u00e7\u00f5es pessoais, quando inclusive guerras se d\u00e3o online, adjetiv\u00e1-los como interessantes, violentos ou qualquer outro qualificativo \u00e9 meramente eufem\u00edstico. Nunca antes vimos os dois limites, o tecnol\u00f3gico e o biol\u00f3gico, se confrontarem sem avaliar as consequ\u00eancias, que naturalmente arriscam a nossa sobreviv\u00eancia no planeta. \u00c9 assim que nesse cen\u00e1rio, de descobertas, de conflitos, de desastres clim\u00e1ticos, e trag\u00e9dias, que compaix\u00e3o parece soar aos ouvidos de hoje como uma palavra antiga, demod\u00e9, algo como pedir \u201cpor obs\u00e9quio\u201d ou chamar algu\u00e9m de \u201cfidalgo\u201d, sobretudo se definida como em alguns dicion\u00e1rios, \u201cum sentimento piedoso frente \u00e0 trag\u00e9dia de outrem\u201d, (imaginem, piedoso!), e n\u00e3o como a sublime capacidade de se enternecer e se solidarizar, ativamente, frente ao sofrimento do outro.<\/p>\n\n\n\n<p>Ajudar, prestar socorro, estar ao lado, n\u00e3o \u00e9 apenas uma a\u00e7\u00e3o moralmente relevante, a colocar os contr\u00e1rios, justo e injusto, frente \u00e0 frente. Mas muito mais que isso \u00e9 um envolvimento de nossa sensibilidade humana, guiada pela melhor raz\u00e3o, a que independentemente do que se fa\u00e7a nos guia, porque precisa ser feito. Pensemos na par\u00e1bola do bom samaritano, aquele que ajuda um homem ca\u00eddo na estrada, quando todos passavam ao largo, ignorando-o. O que faz dele um bom samaritano? Se ele o fez pensando que com esse gesto estaria assegurando seu lugar no para\u00edso, sua a\u00e7\u00e3o \u00e9 menor porquanto equivale a um acordo t\u00e1cito para obter algo em troca. Por\u00e9m se o fez seguro de que essa \u00e9 a coisa certa e inarred\u00e1vel a fazer porque \u00e9 o que o torna humano \u00e0 vera, estar\u00e1 mantendo o rito civilizat\u00f3rio, o que nos deveria ter conduzido at\u00e9 nossa sofrida contemporaneidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando testamos um novo medicamento e este se mostra promissor nos primeiros estudos, via de regra conseguimos oferec\u00ea-lo num sistema de uso compassivo (tradu\u00e7\u00e3o de compassionate use) a um determinado n\u00famero de pessoas, que ir\u00e3o tamb\u00e9m validar seu uso em modo de vida real. Essa aplica\u00e7\u00e3o, entretanto, n\u00e3o prescinde de termo de consentimento assinado pelo volunt\u00e1rio, de acordo com as melhores pr\u00e1ticas em ci\u00eancia. Se os resultados s\u00e3o positivos, o medicamento deve ser assegurado em prioridade a esses volunt\u00e1rios, uma vez que aprovado.<\/p>\n\n\n\n<p>O que assistimos hoje, frente \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o no estado do Rio Grande do Sul, apenas para dar um exemplo mais pr\u00f3ximo a n\u00f3s, \u00e9 um conjunto de a\u00e7\u00f5es, desde algo nunca visto at\u00e9 a pandemia da Covid-19, ou seja, um voluntariado de nova qualidade e participa\u00e7\u00e3o da iniciativa privada, de par com a\u00e7\u00f5es das esferas de governo, tentando minimizar os danos com a\u00e7\u00f5es organizadas, at\u00e9 o inacredit\u00e1vel, de pessoas que querem tirar proveito e auferir lucro com o maior sofrimento humano ali j\u00e1 visto, e que levar\u00e1 anos para se recompor, deixando um excesso de cicatrizes.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, quando em meio a tantas exig\u00eancias prementes e dramas objetivos, pessoais e coletivos, prioridades que exigiria esfor\u00e7os concentrados e racionais nos investimentos de verbas parlamentares, observamos o Congresso se ocupar em modificar normas de vacina\u00e7\u00e3o em crian\u00e7as, bem como mudar a regulamenta\u00e7\u00e3o vigente quanto a dispositivos eletr\u00f4nicos de tabaco, com argumentos que n\u00e3o resistem a uma an\u00e1lise minimamente criteriosa, entre outros absurdos.<\/p>\n\n\n\n<p>Jos\u00e9 Saramago, sempre em sua c\u00e1ustica lucidez, n\u00e3o nos deixa esquecer que \u201cn\u00e3o prosperar\u00e1 como justo aquilo que n\u00e3o tiver o outro como seu objeto de preocupa\u00e7\u00e3o maior\u201c. \u00c9 o que acredito. Para expiar nosso orgulho e arrog\u00e2ncia prometeicos (Mito de Prometeu), o melhor que podemos fazer \u00e9, com alguma generosidade, e intelig\u00eancia (re) conquistar uma real conex\u00e3o entre n\u00f3s mesmos, lembrando-nos de que somos seres pensantes, falantes, muito sens\u00edveis e sobretudo racionais.<\/p>\n\n\n\n<p>Artigo publicado originalmente no Jornal O Globo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por\u00a0Margareth Dalcolmo, m\u00e9dica, professora e pesquisadora da Fiocruz<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":26619,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[12],"tags":[],"class_list":["post-26618","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26618","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26618"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26618\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/26619"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26618"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26618"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26618"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}