{"id":2389,"date":"2017-10-31T17:30:00","date_gmt":"2017-10-31T19:30:00","guid":{"rendered":"http:\/\/acrj2020.profissional.ws\/?p=2389"},"modified":"2021-01-28T10:50:19","modified_gmt":"2021-01-28T13:50:19","slug":"a-identidade-que-falta-ao-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/2017\/10\/31\/a-identidade-que-falta-ao-brasil\/","title":{"rendered":"A identidade que falta ao Brasil"},"content":{"rendered":"\n<p>Neste momento t\u00e3o delicado, em que o Brasil est\u00e1 colocado entre as for\u00e7as conservadoras de uma velha pol\u00edtica e o futuro que acena para o desenvolvimento sustent\u00e1vel, \u00e9 chegada a hora de um pacto nacional que fa\u00e7a a escolha certa. Atrelar a identidade de na\u00e7\u00e3o \u00e0 sustentabilidade \u00e9 o que ainda falta ao Brasil, na avalia\u00e7\u00e3o da ex-ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa inquieta\u00e7\u00e3o faz parte de seu dia a dia como consultora para assuntos internacionais envolvendo os Objetivos de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel (ODS). Sua atribui\u00e7\u00e3o \u00e9 contribuir para a constru\u00e7\u00e3o da imagem do Pa\u00eds no exterior, atuando junto \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o Be Sustainable e trabalhando para que a inser\u00e7\u00e3o do Brasil no mercado internacional seja calcada em respeito ambiental e inclus\u00e3o social.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando estava no governo, ao ser designada para representar o Brasil nas negocia\u00e7\u00f5es da COP 21 (que resultou no Acordo de Paris), Teixeira conta que se preparou ouvindo diversas personalidades da intelig\u00eancia brasileira. Todos foram un\u00e2nimes em dizer que a trajet\u00f3ria de baixo carbono \u00e9 o papel que o Brasil deve exercer no mundo, com imensas vantagens comparativas.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim ela questiona por que a bandeira do fim do desmatamento n\u00e3o foi ainda encampada pelo setor da&nbsp; agricultura. \u201cH\u00e1 30 anos, isso at\u00e9 tinha sentido, mas, hoje?\u201d A seu ver, esse atraso deve-se a uma miopia pol\u00edtica, do Congresso Nacional a alas do empresariado. Leia entrevista concedida \u00e0 P\u00e1gina22 durante participa\u00e7\u00e3o no evento Virada da ONU, que simula negocia\u00e7\u00f5es internacionais na linha de Sustentabilidade do Mestrado da FGV-Eaesp.<\/p>\n\n\n\n<p>Que imagem do Brasil deve ser constru\u00edda internacionalmente?<\/p>\n\n\n\n<p>O Brasil re\u00fane \u00fanicas condi\u00e7\u00f5es no mundo. Isso, somado ao protagonismo na agenda de Paris, confere ao pa\u00eds o papel segundo o qual pode e deve conciliar prote\u00e7\u00e3o ambiental e crescimento econ\u00f4mico, de prefer\u00eancia fazendo um decoupling, com uso de recursos naturais sendo menor que o crescimento econ\u00f4mico. Isso \u00e9 vi\u00e1vel em um pa\u00eds feito o nosso. Devemos ter a ambi\u00e7\u00e3o de expandir a produ\u00e7\u00e3o de alimentos, respondendo por seguran\u00e7a alimentar, sem precisar destruir o Cerrado, j\u00e1 que existem 100 milh\u00f5es de hectares de \u00e1reas degradadas. Tenho de ter uma nova estrat\u00e9gia, uma nova percep\u00e7\u00e3o de uso do solo, conciliando isso com seguran\u00e7a h\u00eddrica, com sistemas eficientes de irriga\u00e7\u00e3o e lidando com quest\u00f5es sociais.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo isso acaba favorecendo as exporta\u00e7\u00f5es e a inser\u00e7\u00e3o da economia brasileira no exterior?<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo isso fortalece o crescimento econ\u00f4mico, o desenvolvimento, a inclus\u00e3o social, o incremento de renda do produtor e a prote\u00e7\u00e3o ambiental. Estamos falando de como transformar um passivo em ativo. O mundo est\u00e1 mudando: nos novos mercados, os consumidores querem saber sobre a cadeia produtiva, se est\u00e1 havendo desmatamento, inclus\u00e3o social, se tem trabalho escravo. Ou seja, \u00e9 preciso dar mais transpar\u00eancia ao que acontece no Brasil. E aquilo que estiver fora do track deve ser corrigido. O que n\u00e3o pode \u00e9 ter coisas feitas na dire\u00e7\u00e3o certa misturadas com coisas feitas na dire\u00e7\u00e3o errada, e que isso seja apropriado politicamente como uma coisa s\u00f3.<\/p>\n\n\n\n<p>Poderia explicar melhor?<\/p>\n\n\n\n<p>Vamos pegar um exemplo claro. Sempre me questionei por que a agricultura brasileira, que \u00e9 t\u00e3o orgulhosa de si, n\u00e3o defende o fim do desmatamento na Amaz\u00f4nia como agenda pol\u00edtica dela. Porque, at\u00e9 onde eu sei, a agricultura que paga impostos, gera empregos, defende aumento da produtividade, n\u00e3o apoia a grilagem de terras na Amaz\u00f4nia. Essa agricultura, que transformou em exportador o Brasil que h\u00e1 40 anos importava alimentos, deve caminhar com mais inova\u00e7\u00e3o, tecnologia e menor pegada de carbono. Por que n\u00e3o defender a Amaz\u00f4nia e o Cerrado, se essa mesma agricultura acredita que deve usar \u00e1reas degradadas e restaura\u00e7\u00e3o de pastagem, integra\u00e7\u00e3o lavoura-pecu\u00e1ria e agricultura de baixo carbono? Por que s\u00f3 existe 1,1% de cr\u00e9dito para agricultura de baixo carbono, como acabou de ser anunciado?<\/p>\n\n\n\n<p>Na sua opini\u00e3o, de onde vem esse modelo mental ainda defasado?<\/p>\n\n\n\n<p>Existe uma miopia pol\u00edtica. Os empres\u00e1rios est\u00e3o ainda acordando para o papel do setor privado na implementa\u00e7\u00e3o dessa agenda. N\u00e3o necessariamente a mentalidade do Congresso Nacional, que \u00e0s vezes deixa a gente assustada, dialoga com a nova express\u00e3o pol\u00edtica da agricultura brasileira. Vejo v\u00e1rios jovens \u2013 a segunda, a terceira gera\u00e7\u00e3o \u2013 que dizem: n\u00e3o pactuamos com isso. Mas ent\u00e3o por que defendem isso publicamente? Por que a bandeira do fim do desmatamento da Amaz\u00f4nia \u00e9 exclusivamente ambientalista? H\u00e1 30 anos, isso at\u00e9 tinha sentido, mas, hoje? N\u00e3o d\u00e1 s\u00f3 para mostrar que contribui para o PIB, emprego \u2013 tudo isso \u00e9 verdade \u2013 e n\u00e3o mostrar os problemas e estrat\u00e9gias de como corrigi-los.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje tem o Cadastro Ambiental Rural [CAR] que \u00e9 um belo sinal de ades\u00e3o, onde houve 99% de compliance. Nenhum pa\u00eds do mundo consegue fazer isso. O cadastro n\u00e3o se refere s\u00f3 ao passivo, mas tamb\u00e9m ao ativo. Tem que parar com essa hist\u00f3ria de que o meio ambiente faz mal ao agricultor, ao contr\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Na entrevista que a senhora nos concedeu 7 anos atr\u00e1s, havia essa mesma fala sobre a necessidade de ser perceber a converg\u00eancia entre produ\u00e7\u00e3o e conserva\u00e7\u00e3o, em vez de diverg\u00eancia. Nesse sentido, houve alguma evolu\u00e7\u00e3o de l\u00e1 para c\u00e1, ou o grau de miopia continua o mesmo?<\/p>\n\n\n\n<p>Tem alguns sinais de evolu\u00e7\u00e3o. Melhorou com o engajamento para Agricultura de Baixo Carbono, com o debate da Agenda 2030, com a NDC [Contribui\u00e7\u00e3o Nacionalmente Determinada] no Acordo de Paris. Minha sensa\u00e7\u00e3o de que houve melhora \u00e9 no sentido de que dialoguei politicamente para construir [a NDC com as diversas partes interessadas]. Eu n\u00e3o fiz a NDC do Brasil sentada no Minist\u00e9rio do Meio Ambiente com a minha equipe calculando. Quem deu os n\u00fameros foi o Minist\u00e9rio da Agricultura. Quem fez o trabalho de base foi o pessoal da Fapesp [Funda\u00e7\u00e3o de Amparo \u00e0 Pesquisa do Estado de S\u00e3o Paulo], do Inpe [Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais] etc., al\u00e9m do pessoal da Embrapa [Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecu\u00e1ria], conversando com as ONGs. Acho que nunca conversei tanto na minha vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 mentalidade do agroneg\u00f3cio em si?<\/p>\n\n\n\n<p>Eu tive parcerias do agroneg\u00f3cio, de v\u00e1rios segmentos. Mas tive de entender\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>\u2026 que o agroneg\u00f3cio s\u00e3o v\u00e1rias coisas.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o v\u00e1rias coisas, assim como no meio ambiente os ambientalistas s\u00e3o v\u00e1rios. Como toda umbrella, \u00e9 preciso entender o que est\u00e1 debaixo e achar as frestas. As pessoas est\u00e3o se engajando, como o setor financeiro. A Febraban [Federa\u00e7\u00e3o Brasileira de Bancos] foi e \u00e9 uma das maiores parceiras do CAR. O que est\u00e1 faltando \u00e9 algo entre o engajamento pol\u00edtico \u2013 as atitudes do que chamo de step by step \u2013 e a grandes transforma\u00e7\u00e3o, ou seja, a mudan\u00e7a pol\u00edtica de fato. Ao contr\u00e1rio, estamos no meio de um retrocesso no Brasil. \u00c9 como se o futuro estivesse bloqueado, como ouvi na Fran\u00e7a recentemente, mas n\u00e3o est\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo em que h\u00e1 evolu\u00e7\u00f5es, a impress\u00e3o \u00e9 que estamos em um retrocesso ambiental como nunca visto. O que est\u00e1 acontecendo, afinal?<\/p>\n\n\n\n<p>As for\u00e7as pol\u00edticas colocadas hoje s\u00e3o, muitas elas, de um Brasil do s\u00e9culo passado. Me falam assim: \u201c\u00c9 que na Europa desmataram tudo, nos Estados Unidos desmataram tudo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas em que s\u00e9culo foi que desmataram?<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 bem isso\u2026 Nenhum pa\u00eds da Europa tem a floresta tropical que n\u00f3s temos. Nenhum pa\u00eds do mundo tem as reservas h\u00eddricas que n\u00f3s temos. Nenhum pa\u00eds do mundo tem a diversidade que n\u00f3s temos. Nenhum pa\u00eds do mundo estabelece como meta de prote\u00e7\u00e3o em \u00e1reas de conserva\u00e7\u00e3o 60 milh\u00f5es de hectares em um bioma como fez o Programa Arpa [\u00c1reas Protegidas da Amaz\u00f4nia]. Ningu\u00e9m tem 100 milh\u00f5es de hectares de terras degradadas que pode usar para expandir fronteira agr\u00edcola. Ent\u00e3o, esse papo de que os outros fizeram e eu posso fazer \u00e9 do s\u00e9culo passado. Tenho que partir de meus ativos que far\u00e3o diferen\u00e7a para a sociedade se desenvolver de forma sustent\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Se a gente voltar no tempo, ver\u00e1 que foi feito no final do s\u00e9culo passado, nos anos 1990, um projeto de humanidade, um projeto de olhar bem o s\u00e9culo XXI. A Confer\u00eancia Rio 92 \u00e9 um belo exemplo disso. Eu ouvi recentemente a imortal Rosiska Darcy de Oliveira [ensa\u00edsta e jornalista], que participou ativamente de algum desses processos. N\u00f3s duas est\u00e1vamos em um debate e ela fez essa analogia que acho muito correta. Na emerg\u00eancia de um novo s\u00e9culo, pautado pela ONU, voc\u00ea tem quatro grandes confer\u00eancias que modelam o mundo, pensam o mundo para todos, trazem a vis\u00e3o de mundo de sociedades globais, de bens globais, de benef\u00edcios globais. Foram: em 1992, a Rio-92; em 1994, a Confer\u00eancia do Cairo sobre Popula\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento; e, em 1995, a Confer\u00eancia de Pequim [IV Confer\u00eancia Mundial sobre a Mulher: Igualdade, Desenvolvimento e Paz] e a Confer\u00eancia de Viena sobre Direitos Humanos \u2013 todas as pautas voltadas para um projeto de bem-estar para a humanidade, de um mundo globalizado, com as trilhas para fazer a sociedade convergir. E o Brasil sediou a maior confer\u00eancia de toda a Hist\u00f3ria, a Rio-92, que muda a vida de todo mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Se voc\u00ea tiver preconceito contra a pauta ambientalista \u2013 afinal os ambientalistas seguraram essa agenda por 20 anos, que bom! \u2013 estamos no fundo falando de bem estar, qualidade do desenvolvimento, inclus\u00e3o social, redu\u00e7\u00e3o de desigualdade, defesa de direitos humanos. \u00c9 disso que estamos falando! N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que as pessoas n\u00e3o se sensibilizem por isso. \u00c0s vezes, as pessoas n\u00e3o t\u00eam essa compreens\u00e3o, tampouco o Parlamento brasileiro atual tem a compreens\u00e3o, h\u00e1 uma grande ignor\u00e2ncia sobre o mundo, ignor\u00e2ncia mesmo, de desconhecer, t\u00e1? H\u00e1 um grande desconhecimento sobre o mundo que se horizontaliza. H\u00e1 uma dist\u00e2ncia do mundo real como se fosse s\u00f3 vender gr\u00e3os para a China, ignorando toda a tradi\u00e7\u00e3o milenar do pa\u00eds, a vis\u00e3o de mundo daquela sociedade. Se o chin\u00eas pedir ao produtor brasileiro o compliance do C\u00f3digo Florestal com condi\u00e7\u00e3o para exporta\u00e7\u00e3o, o CAR pode dar toda a transpar\u00eancia sobre o que est\u00e1 sendo feito. Ou eles querem continuar adiando a prepara\u00e7\u00e3o para valer? \u201cOlha, eu produzo alimentos, posso ter 10% da produ\u00e7\u00e3o mundial de alimentos, como a FAO desenha, mas fa\u00e7o isso com a condi\u00e7\u00e3o de prote\u00e7\u00e3o ambiental\u201d \u2013 mas n\u00e3o, as pessoas resolvem passar a r\u00e9gua, ignorar tudo isso e dialogar com a situa\u00e7\u00e3o de 40 anos atr\u00e1s. Por isso chamo de miopia.<\/p>\n\n\n\n<p>Quero saber quais s\u00e3o os pr\u00f3ximos 40 anos da Embrapa. Porque, como brasileira \u2013 \u00e9 a empresa da qual todos n\u00f3s temos orgulho \u2013, n\u00e3o posso concordar, na \u00e1rea de uso de solo, com segmentos na Embrapa brigando para dizer qual dado \u00e9 mais verdadeiro. Quero saber o seguinte: qual a agenda da Embrapa nos pr\u00f3ximos 40 anos. Quais s\u00e3o os desafios?<\/p>\n\n\n\n<p>Havia uma clareza que agora n\u00e3o existe mais?<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o tem clareza. Quais s\u00e3o as parcerias que ela vai fazer? \u00c9 muito mais que ter uma representa\u00e7\u00e3o no exterior. Estou falando sobre vis\u00e3o de mundo, vis\u00e3o estrat\u00e9gica. Tenho redes de inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica? Onde est\u00e3o os riscos clim\u00e1ticos relativos \u00e0 adapta\u00e7\u00e3o? Que inova\u00e7\u00e3o teria de estimular para evitar perdas produtivas? Que \u00e1reas necessariamente o Brasil perder por uma quest\u00e3o clim\u00e1tica? Vou esperar essa perda acontecer?<\/p>\n\n\n\n<p>Podemos dizer que o retrocesso est\u00e1 no Congresso, est\u00e1 na bancada ruralista, est\u00e1 em organiza\u00e7\u00f5es que j\u00e1 foram refer\u00eancia?<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o estou dizendo que esteja na Embrapa. A apropria\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, que \u00e9 t\u00e3o importante, deveria ser disputada sobre os novos rumos. Assumir sustentabilidade como um ativo da agricultura brasileira e n\u00e3o como uma barreira, como problema. N\u00e3o devo discutir se a sa\u00edda dos Estados Unidos vai enfraquecer a agenda de clima, porque a agenda de todo mundo \u00e9 a de fortalecer. Como vou, ent\u00e3o, trabalhar as alian\u00e7as para ter competitividade, trabalhar de maneira sustent\u00e1vel, reduzir o custo de produ\u00e7\u00e3o, acessar novos mercados? Em vez de eu tratar isso estrategicamente, estou lidando com isso no business as usual. O mundo n\u00e3o \u00e9 mais business as usual.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa discuss\u00e3o sobre como usar a sustentabilidade como estrat\u00e9gia j\u00e1 foi mais frequente antes?<\/p>\n\n\n\n<p>Essa discuss\u00e3o teve um pico na discuss\u00e3o sobre o Novo C\u00f3digo Florestal. Foram 10 anos de discuss\u00e3o. Parte teve o entendimento de que n\u00e3o precisava mais desmatar para aumentar a produ\u00e7\u00e3o. Houve v\u00e1rias declara\u00e7\u00f5es de ruralistas de que n\u00e3o era preciso desmatar. Essa \u00e9 uma mudan\u00e7a de postura. A morat\u00f3ria da soja \u00e9 outro exemplo, assim como o grupo de Pecu\u00e1ria Sustent\u00e1vel, a turma do biocombust\u00edvel, a turma da economia florestal. O Brasil precisa ser visto. \u00c9 imposs\u00edvel voc\u00ea concordar com uma imagem de degrada\u00e7\u00e3o, de floresta sendo desmatada quando sabe que grilagem \u00e9 crime. Mais de 80% do desmatamento da Amaz\u00f4nia tem origem ilegal. Quem pactua com isso? Quem pactua com sonega\u00e7\u00e3o fiscal? Com trabalho informal ou escravo? Quem concorda com isso? Se voc\u00ea n\u00e3o concorda, por que n\u00e3o se posiciona contra?<\/p>\n\n\n\n<p>Quando voc\u00ea polariza \u2013 esta \u00e9 uma estrat\u00e9gia pol\u00edtica \u2013 voc\u00ea n\u00e3o tem converg\u00eancia, todo mundo se empodera nos polos. Foi o que muitos anos perdurou no C\u00f3digo Florestal. Ent\u00e3o tem que permitir o debate para construir uma vis\u00e3o clara do problema e a constru\u00e7\u00e3o das solu\u00e7\u00f5es, como no caso da Renca [Reserva Nacional de Cobre e Associados], uma hist\u00f3ria que apareceu do nada, n\u00e3o tinha nem pai nem m\u00e3e. A pr\u00f3pria bancada ruralista disse que n\u00e3o tinha nada a ver com aquilo, o pessoal da minera\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m n\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A Renca \u00e9 um bom exemplo de como a sociedade reagiu e obteve um resultado, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;A gente n\u00e3o tem mais a condi\u00e7\u00e3o de passividade que havia no passado. Voc\u00ea colocou uma coisa em pauta, eu quero debater. No caso da Renca, foi uma indigna\u00e7\u00e3o criativa, porque voc\u00ea criou um movimento pol\u00edtico, entrou na m\u00eddia, as pessoas foram a Bras\u00edlia, mostraram a sua cara, dos artistas aos cidad\u00e3os comuns. N\u00e3o tinha um lugar onde voc\u00ea entrasse em que as pessoas, desde o motorista do t\u00e1xi, do Uber, n\u00e3o tivessem uma opini\u00e3o: \u201cIsso \u00e9 indigno\u201d. Porque todo mundo foi na ideia de que a Amaz\u00f4nia \u00e9 do Brasil e n\u00e3o pode ser destru\u00edda por essa vilaniza\u00e7\u00e3o. Como n\u00e3o houve transpar\u00eancia, as pessoas se perguntavam: \u201cQuem \u00e9 o pai disso? Quem est\u00e1 por tr\u00e1s? \u00c9 interesse de um grupinho? Isso n\u00e3o pode ser assim\u201d. Em seguida, emendou-se o decreto com quest\u00f5es ambientais que est\u00e3o na lei. Pelo rito, no caso de um decreto, a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica sempre consulta o minist\u00e9rio afetado. O ministro diz sim ou n\u00e3o e o encaminhamento se d\u00e1 por interm\u00e9dio do gabinete de ministro. Mas, no caso da Renca, o ministro n\u00e3o assinou, apareceu depois em uma coletiva. Depois suspendeu, cancelou.<\/p>\n\n\n\n<p>O meu ponto \u00e9: como se toma decis\u00e3o no Brasil? Que escolhas est\u00e3o sendo feitas no Brasil? Essa \u00e9 uma quest\u00e3o quando se discute [o Acordo de] Paris, por exemplo. A presidente da Rep\u00fablica me designou como a pessoa para fazer isso, para preparar a NDC e operar as negocia\u00e7\u00f5es. Para fazer isso, trabalhei de forma casada com o governo, com a sociedade, com institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. O Itamaraty fez uma consulta ampliada com a sociedade \u2013 o Itamaraty! Fizemos v\u00e1rios processos de discuss\u00e3o e talvez o mais ilustrativo da envergadura nacional e internacional foi conversar com os l\u00edderes pol\u00edticos que poderiam estar no governo no Brasil em 2020. Conversei com v\u00e1rios atores, liguei para o professor [Jos\u00e9] Goldemberg e sentei com ele para discutir toda a quest\u00e3o de energia. Conversei com Fernando Henrique Cardoso, com o ministro [Celso] Lafer, com ministro o Roberto Rodrigues para colher as vis\u00f5es deles. Queria compreender o que muitos deles, que j\u00e1 se envolveram em negocia\u00e7\u00f5es anteriores, queriam. Todos foram un\u00e2nimes em dizer que a trajet\u00f3ria de baixo carbono \u00e9 o papel que o Brasil deve ter no mundo, \u00e9 a identidade que deve assumir.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma identidade de na\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>De na\u00e7\u00e3o. Todos, de uma forma ou de outra, disseram isso. Foi incr\u00edvel. Agora, importante \u00e9 ter credibilidade para interlocu\u00e7\u00e3o. O ministro da Fazenda Joaquim Levy foi um grande aliado nesse processo. A EPE [Empresa de Pesquisa Energ\u00e9tica] foi importante na formula\u00e7\u00e3o de cen\u00e1rios de energia do Brasil, as ONGs trouxeram seus v\u00e1rios modelos matem\u00e1ticos, o Inpe, a Embrapa, todo mundo sentado ali. Era tanta informa\u00e7\u00e3o! A gente rodou tudo com modelo matem\u00e1tico, base cient\u00edfica, cruzando os n\u00fameros, simulando cen\u00e1rios, inclusive com a CNI [Confedera\u00e7\u00e3o Nacional da Ind\u00fastria] apoiando. Foram muitos elementos: a interlocu\u00e7\u00e3o com o setor florestal, a estrat\u00e9gia de usar o C\u00f3digo Florestal vinculado \u00e0 NDC e sua implementa\u00e7\u00e3o para desenvolver a economia florestal brasileira, a Coaliz\u00e3o Brasil Clima, Florestas e Agricultura, o Cebds [Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustent\u00e1vel]\u2026 Levamos a quest\u00e3o para o ministro da Fazenda, tudo mundo sentado conversando com o ministro, o ministro dizendo: \u201cQuero ver os n\u00fameros.\u201d A gente ouvia coisas com as quais n\u00e3o concordava, mas tudo bem\u2026 Um dos modelos matem\u00e1ticos foi apresentado por uma institui\u00e7\u00e3o que previa que o planeta tinha de reduzir o consumo de carne bovina em 50%. A\u00ed eu perguntei como justificar para o brasileiro que ele vai para de comer churrasco? \u201cMeu filho, eu t\u00f4 morta na esquina!\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Vai virar churrasco! [risos]<\/p>\n\n\n\n<p>[risos] Eu perguntei a ele: \u201cVoc\u00ea tem cen\u00e1rios para o Brasil?\u201d N\u00e3o tinha. \u201cMas me deixa entender essa vari\u00e1vel\u201d. Ent\u00e3o mandei simular. Ou seja, tudo foi calculado, se a gente podia ou n\u00e3o virar sumidouro [de carbono] etc. Ent\u00e3o, o que que \u00e9 isso?<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo isso n\u00e3o se perdeu. \u00c9 uma intelig\u00eancia que est\u00e1 a\u00ed, n\u00e3o \u00e9 mesmo?<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o se perdeu, est\u00e3o todos distantes da estrutura de governo, mas est\u00e3o todos a\u00ed. E isso tudo foi refletido internacionalmente, o que \u00e9 outra coisa importante.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas como colocar implementar a NDC justamente no cen\u00e1rio de retrocesso em que estamos hoje?<\/p>\n\n\n\n<p>Como disse, n\u00e3o acho que o futuro esteja bloqueado. Mas acho que temos de organizar \u2013 ou reorganizar \u2013 os diferentes nichos da sociedade em torno de uma vis\u00e3o at\u00e9 2020, que \u00e9 um balan\u00e7o da Pol\u00edtica Nacional da Mudan\u00e7a do Clima. Olha que interessante: na minha gest\u00e3o eu tenho as menores taxa de desmatamento \u2013 com oscila\u00e7\u00f5es, mas \u00e9 a menor taxa.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a taxa de desmatamento da Amaz\u00f4nia voltou a crescer em 2014.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2014, ano eleitoral. Em 2015, vou a Paris com aumento de desmatamento. Eu assinei a segunda fase do Fundo Amaz\u00f4nia, com US$ 650 milh\u00f5es e 100 milh\u00f5es de euros dos alem\u00e3es, isso n\u00e3o foi impedimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Por que essa taxa come\u00e7ou a subir ali e n\u00e3o parou at\u00e9 recentemente?<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00f3s fizemos tr\u00eas coisas al\u00e9m de rever o PPCDAM [Plano de Preven\u00e7\u00e3o e Controle do Desmatamento na Amaz\u00f4nia). Apostamos na estrat\u00e9gia de monitoramento de todos os biomas, porque t\u00ednhamos de preparar o Brasil para o p\u00f3s-2020, ent\u00e3o n\u00e3o adianta ter a taxa Prodes s\u00f3 na Amaz\u00f4nia. Em abril, o Inpe e a Embrapa lan\u00e7aram isso em audi\u00eancia p\u00fablica. Ou seja, compreender as emiss\u00f5es a partir do uso do solo, para depois dialogar com o CAR e com a implementa\u00e7\u00e3o do C\u00f3digo.<\/p>\n\n\n\n<p>A segunda aposta foi nas novas tecnologias de controle, para enxergar mais e mais r\u00e1pido. O Prodes, metodologia auditada pelas Na\u00e7\u00f5es Unidas, detecta o corte raso. Mas do ponto de vista estrat\u00e9gico da biodiversidade, de manejo, \u00e9 importante detectar a degrada\u00e7\u00e3o, inclusive por causa da queima. Ent\u00e3o fizemos coopera\u00e7\u00e3o para evoluir nos instrumentos de monitoramento, e um deles foi o Deter-B, que \u00e9 a nova tecnologia, e o Deter-C, que gera o Prodes mensal, em vez de esperar um ano. Como primeiro exerc\u00edcio, dava 3.600 km quadrados em abril de 2016. Em agosto, deu quase 8 mil. Em 4 meses, dobrou a taxa. Por falta de dinheiro? Possivelmente.<\/p>\n\n\n\n<p>A terceira aposta foi incrementar tremendamente a agenda de coopera\u00e7\u00e3o internacional. Ent\u00e3o a gente acabou captando R$ 5,7 bilh\u00f5es at\u00e9 2021 de coopera\u00e7\u00e3o internacional. E mais 1 bilh\u00e3o e alguma coisa em negocia\u00e7\u00e3o que n\u00f3s deixamos. Quando se desenhava a mudan\u00e7a do governo [impeachment], fiquei preocupada porque certamente o governo que entrasse trataria a crise fiscal de outra maneira, com teto de gastos e cortes or\u00e7ament\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>A taxa de desmatamento aumentou mesmo com o Brasil entrando em crise econ\u00f4mica, o que em tese reduz a press\u00e3o sobre a floresta.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu pedi ao pessoal para me trazer o cen\u00e1rio or\u00e7ament\u00e1rio, o secret\u00e1rio executivo trouxe, eu falei: \u201cN\u00e3o vai dar, a gente vai ter que proteger a fiscaliza\u00e7\u00e3o, com medo exatamente por causa da quest\u00e3o do desmatamento. Isso se deu em fevereiro para mar\u00e7o. Nosso pessoal entrou em contato com os noruegueses, e a gente fez uma reuni\u00e3o do Comit\u00ea Orientador do Fundo Amaz\u00f4nia (Cofa). E o Cofa, com autoriza\u00e7\u00e3o do governo noruegu\u00eas, aprovou excepcionalmente um cr\u00e9dito para o Ibama, por 3 anos, blindando esse valor da fiscaliza\u00e7\u00e3o independentemente do or\u00e7amento. Isso s\u00f3 foi implementado, segundo me falaram no minist\u00e9rio, em dezembro de 2016. Ou seja, de abril a dezembro, o dinheiro n\u00e3o entrou. Era o ano das Olimp\u00edadas, as pessoas que trabalhavam na fiscaliza\u00e7\u00e3o, a For\u00e7a Nacional, a Pol\u00edcia Federal, todo esse contingente foi deslocado. O Ibama ficou sozinho e o desmatamento aumentou.<\/p>\n\n\n\n<p>O ministro do Meio Ambiente n\u00e3o desmata, gente. Isso \u00e9 essencial de ser entendido. O ministro do Meio Ambiente, ao contr\u00e1rio, luta desesperadamente para que se evite aquilo. Quando aumenta o desmatamento, ele fica com o \u00f4nus pol\u00edtico; quando diminui, foi a fiscaliza\u00e7\u00e3o e o resto dos setores que fizeram isto.<\/p>\n\n\n\n<p>Ou seja, este modelo est\u00e1 esgotado. Porque atr\u00e1s do desmatamento voc\u00ea tem sonega\u00e7\u00e3o fiscal, trabalho escravo, grilagem\u2026 voc\u00ea tem outros crimes associados. Na imensid\u00e3o da Amaz\u00f4nia, tem a gest\u00e3o estadual, tem os prefeitos. N\u00e3o \u00e9 o ministro. Fui funcion\u00e1ria de carreira do Meio Ambiente durante 32 anos. Acho que foi o cargo que eu menos mandei. Ent\u00e3o, no fundo, a sociedade precisa ter uma rela\u00e7\u00e3o com o poder p\u00fablico e o poder publico ter uma rela\u00e7\u00e3o com a sociedade, de natureza pol\u00edtica. N\u00e3o existem os salvadores da p\u00e1tria. A transforma\u00e7\u00e3o vem da sociedade, por isso precisa haver uma vis\u00e3o pactuada de longo prazo. A sociedade tem muito mais poder de transforma\u00e7\u00e3o de resultados do que est\u00e1 sendo percebido hoje. E n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 ir para rua gritar, n\u00e3o. \u00c9 construir. Por isso que falei da indigna\u00e7\u00e3o criativa. \u00c9 o que aconteceu com a Renca.<\/p>\n\n\n\n<p>A Renca virou um s\u00edmbolo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 um s\u00edmbolo de que n\u00f3s n\u00e3o mais toleramos este tipo de decis\u00e3o pol\u00edtica no Brasil. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel os mais conservadores, vamos usar esta express\u00e3o, achem que defender o meio ambiente \u00e9 uma prerrogativa s\u00f3 de ambientalistas que voltaram de Woodstok. Eles n\u00e3o entendem que defender meio ambiente \u00e9 bem estar, melhoria de vida, melhor economia para o Pa\u00eds, mais emprego.<\/p>\n\n\n\n<p>Tem um problema de comunica\u00e7\u00e3o disso, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n\n\n\n<p>Tem, mas tem um problema tamb\u00e9m de engajamento pol\u00edtico. Eu sou de uma gera\u00e7\u00e3o que foi para rua para lutar pelas Diretas-J\u00e1, pela Nova Rep\u00fablica, que lutou pela abertura do Pa\u00eds, fim da ditadura etc. Por isso, n\u00e3o acredito em nenhuma promessa que atinja direitos individuais e direitos coletivos. Que atinja as liberdades. Isso \u00e9 inaceit\u00e1vel. Retrocesso, nem pensar. Voc\u00eas n\u00e3o sabem o que \u00e9 viver em uma sociedade sem liberdade. Eu acho que estamos chegando em outro momento, mais de 30 anos depois, de um novo engajamento da sociedade brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p>Diferentemente daquela \u00e9poca quando eu comecei minha vida profissional, a quest\u00e3o ambiental deixou de ser uma quest\u00e3o particularizada e passou a ser um ativo da sociedade. E olha que eu conhe\u00e7o o Brasil todo. Quando eu sa\u00ed discutindo o C\u00f3digo Florestal, era impressionante. Eu s\u00f3 perdia se eu fosse discutir futebol. Igrejas, sindicatos, associa\u00e7\u00f5es de classe, assentamentos\u2026 Fui da Via Campesina ao agroneg\u00f3cio. Isso \u00e9 inclus\u00e3o pol\u00edtica. Todo mundo queria entender. Todo mundo tem um primo, \u00e9 incr\u00edvel\u2026 \u201cMinistra, eu tenho um primo que planta bananeira\u2026\u201d Meu Deus, eu ficava pensando naquela bananeira no Vale do Ribeira, tentava entender as demandas todas. Eu sa\u00ed pelo Pa\u00eds. N\u00e3o foi s\u00f3 o Aldo [Rebelo] que saiu pelo Brasil para escrever relat\u00f3rio. Eu fui no Rio Grande do Sul na agricultura familiar, eu fui entender Santa Catarina. Eu fui para o Mato Grosso. Eu vi a agricultura de vazante no Rio S\u00e3o Francisco, que era considerada crime ambiental.<\/p>\n\n\n\n<p>Na sua opini\u00e3o, o resultado do C\u00f3digo \u00e9 satisfat\u00f3rio?<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o acho que seja satisfat\u00f3rio. \u00c9 o resultado do consenso. \u00c9 o segundo debate do Congresso depois da Constituinte, sabia? Isso em termos de mobiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, ou seja, de engajamento, de demandar da estrutura, debates, audi\u00eancias p\u00fablicas. Isso segundo me falaram no Congresso. Mas eu tenho um term\u00f4metro: a minha manicure falava de C\u00f3digo Florestal comigo. Eu entrei na casa das pessoas para falar disso.<\/p>\n\n\n\n<p>Qual seu feeling sobre o julgamento das ADIs [A\u00e7\u00f5es Diretas de Inconstitucionalidade, que buscam revogar o Novo C\u00f3digo Florestal] no STF [Supremo Tribunal Federal]?<\/p>\n\n\n\n<p>Eu n\u00e3o posso dizer o que eles v\u00e3o julgar, mas eu espero que eles tenham um bom senso. Eu acho que vai ser uma coisa para conciliar. Eu espero! N\u00e3o pode revogar. Ate porque n\u00e3o tem solu\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea criaria um descumprimento. Com todos os seus pr\u00f3s e contras, a entrada do Cadastro Ambiental Rural \u00e9 algo inquestion\u00e1vel. At\u00e9 os cr\u00edticos mais radicais aplaudem. A gente fez uma coisa pr\u00f3 cr\u00edticos radicais e pr\u00f3 cr\u00edticos ruralistas. Porque acredit\u00e1vamos que era um instrumento essencial para voc\u00ea mudar a rela\u00e7\u00e3o politica. Como eu comecei falando, voc\u00ea n\u00e3o pode ficar guerreando o tempo inteiro. Tem que criar converg\u00eancias e sa\u00eddas para que a \u00e1rea ambiental se estruture dentro da \u00e1rea econ\u00f4mica. Ou seja, a \u00e1rea econ\u00f4mica assume a quest\u00e3o ambiental.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque voc\u00ea n\u00e3o podia dar vit\u00f3ria para nenhum dos dois lados. Voc\u00ea constr\u00f3i um terceiro caminho. Que \u00e9 o chamado caminho do consenso, o caminho do poss\u00edvel. E p\u00f5e o CAR como o label, ou seja, o instrumento que abre a nova avenida. Pois \u00e9 a primeira lei ambiental, que eu tenho em 34 anos de carreira, que vejo aprovada com uma constituency pol\u00edtica comprometida e implementada. Eu conversei com os 81 senadores, um a um.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu me lembro que entreguei um cadastro para um agricultor familiar no Paran\u00e1 e esse homem chorava. Orgulhoso porque tinha mais \u00e1rea verde do que ele imaginava, e ele falou: \u201cVou colocar no quadro na minha sala\u201d. Eu perguntei por qu\u00ea. \u201cPorque eu sou honesto. Ningu\u00e9m pode me acusar. Eu produzo alimentos. Eu protejo o meio ambiente e finalmente algu\u00e9m veio me dizer que eu estava certo\u201d. Como tamb\u00e9m tem aqueles que mentem, que fazem superposi\u00e7\u00e3o. Eles n\u00e3o sabem que o instrumento tem \u201cn\u201d alternativas para detectar os erros. N\u00f3s fizemos a maior compra de imagens de sat\u00e9lites do mundo. Ningu\u00e9m tem no\u00e7\u00e3o. Chamamos a Universidade de Lavras, que desenvolveu os algoritmos no Brasil. N\u00e3o \u00e9 voc\u00ea chamar Google. \u00c9 criar do zero, t\u00e1? Houve a coopera\u00e7\u00e3o do governo alem\u00e3o e do governo noruegu\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p>Ou seja, o mundo internacional apostava que a gente estava no caminho certo. A gente j\u00e1 tinha experi\u00eancia com a Uni\u00e3o Europeia e com a TNC [The Nature Conservancy], que fez o cadastro ambiental rural em Lucas do Rio Verde. O MMA tinha um projeto com a Uni\u00e3o Europeia no Par\u00e1 sobre cadastro ambiental com munic\u00edpios, mas a gente inovou. Ele estava num prot\u00f3tipo e n\u00f3s fomos para um novo. Esse cadastro mostra o qu\u00ea? Voc\u00ea chegar a mais de 400 milh\u00f5es de hectares na base, mais de 4 milh\u00f5es de propriedades rurais, voluntariamente preenchidos. A gente mandou fazer off-line, muitos lugares n\u00e3o tinham telefone. Eu quase enlouqueci.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma das coisas mais emocionantes foi os quilombolas fazendo o CAR no interior do Pernambuco. A express\u00e3o de cidadania, os direitos reconhecidos. Voc\u00ea entrar nos assentamentos rurais\u2026 capacitar todo mundo. Estou exemplificando isso porque mostra o seguinte: foi a primeira vez que uma lei ambiental teve parceria com o setor produtivo para vingar. Ou pelo menos para o CAR vingar.<\/p>\n\n\n\n<p>A\u00ed a gente mandou fazer o modulo autom\u00e1tico para PRA [Programa de Regulariza\u00e7\u00e3o Ambiental]. E depois, a verifica\u00e7\u00e3o. Isto tudo a Uni\u00e3o compartilha com os governos estaduais. Encasquetei que t\u00ednhamos de fazer, porque \u00e9 a mudan\u00e7a de um patamar pol\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p>A quest\u00e3o \u00e9 como implementar o C\u00f3digo, para atender as NDCs. Temos uma COP agora. O quanto vamos conseguir entregar? O C\u00f3digo \u00e9 um dos instrumentos, mas tem tamb\u00e9m tem o RenovaBio.<\/p>\n\n\n\n<p>O C\u00f3digo \u00e9 instrumento para isto. Agora vai vir o neg\u00f3cio do biocombust\u00edvel, tem programas de governo, tem recursos internacionais. Mas a pergunta que voc\u00ea tem que fazer n\u00e3o \u00e9 essa. Qual \u00e9 a estrat\u00e9gia de implementa\u00e7\u00e3o? Onde \u00e9 que eu tenho demanda de log\u00edstica? De infraestrutura? Eu preciso de uma vis\u00e3o de estrat\u00e9gia tecnol\u00f3gica, de prioridades. Por qu\u00ea? Porque eu tenho 20 ou 10 anos para fazer restaura\u00e7\u00e3o e estou s\u00f3 come\u00e7ando. A NDC \u00e9 um caminho para voc\u00ea trilhar um desenvolvimento sustent\u00e1vel de baixo carbono, economy wide para abater de fato as emiss\u00f5es em todos os setores econ\u00f4micos, permitindo as escolhas dos setores mais avan\u00e7ados, dos mais baratos, dos mais complexos. A NDC \u00e9 um instrumento que o a sociedade tem, para poder dizer: \u201cVou por aqui\u201d. \u00c9 um momento de escolha. N\u00f3s ousamos em qu\u00ea? Fizemos a escolha do baixo carbono, fizemos a escolha da descarboniza\u00e7\u00e3o. Fizemos o processo de multilateralismo com acordos bilaterais com China, Estados Unidos, Alemanha e Noruega. Assinados por chefes de estado mostrando por onde a gente queria a coopera\u00e7\u00e3o com esses pa\u00edses. Mostrando que esses pa\u00edses s\u00e3o parceiros na implementa\u00e7\u00e3o das NDCs. E n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 dando dinheiro para os fundos, \u00e9 trabalhando.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora, isso n\u00e3o \u00e9 trabalho para um ministro, \u00e9 trabalho para uma vis\u00e3o de governo, para uma vis\u00e3o de sociedade, que eu espero que aconte\u00e7a com as novas elei\u00e7\u00f5es. Porque o processo pol\u00edtico pelo qual o Brasil est\u00e1 passando desde Paris \u00e9 um processo desencontrado, ou an\u00e1rquico. O Brasil est\u00e1 ainda entre a velha pol\u00edtica e o combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o. Estamos ref\u00e9ns disto.<\/p>\n\n\n\n<p>A sociedade e os setores produtivos devem se organizar e trazer suas pautas, porque isto n\u00e3o \u00e9 uma prerrogativa de ambientalista, \u00e9 prerrogativa da sociedade brasileira. N\u00e3o \u00e9 mais para denominar grupos. \u00c9 uma sociedade, uma democracia mais madura, que se revela de outro jeito, com nova inser\u00e7\u00e3o global na qual vai fazer escolhas e tem vantagens. Se h\u00e1 um pa\u00eds que pode fazer o tal do shortcut (caminho curto) e trazer resultados mais efetivos que qualquer outro no mundo, chama-se Brasil. Vamos voltar para o passado? Vai levar 10 anos para acabar o desmatamento? Vai, mas para ficar. N\u00e3o \u00e9 descer em um ano e no outro subir. Voc\u00ea tem de construir as condi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas para isso. E as condi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas s\u00f3 dependem da sociedade. Pragmaticamente, s\u00f3 dependem da gente.<\/p>\n\n\n\n<p>Publicada pelo site &#8220;P\u00e1gina 22&#8221; &#8211; Dia 25\/10<br><em><a href=\"http:\/\/pagina22.com.br\/2017\/10\/25\/identidade-que-falta-ao-brasil\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Clique aqui para ler a mat\u00e9ria na \u00edntegra<\/a><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste momento t\u00e3o delicado, em que o Brasil est\u00e1 colocado entre as for\u00e7as conservadoras de uma velha pol\u00edtica e o futuro que acena para o&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2390,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-2389","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2389","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2389"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2389\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2390"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2389"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2389"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2389"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}