{"id":1445,"date":"2019-09-25T18:58:00","date_gmt":"2019-09-25T21:58:00","guid":{"rendered":"http:\/\/acrj2020.profissional.ws\/?p=1445"},"modified":"2020-02-25T19:01:48","modified_gmt":"2020-02-25T22:01:48","slug":"o-fregues-tem-sempre-razao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/2019\/09\/25\/o-fregues-tem-sempre-razao\/","title":{"rendered":"O fregu\u00eas tem sempre raz\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p>Este <em>mantra <\/em>que o Manuel Lebr\u00e3o repetiacomo uma prece \npara o seu pessoal (*), bem poderia ser o sobrenome dessa singular \nConfeitaria Colombo, que completou 125 anos neste setembro. Porque al\u00e9m \nde um bord\u00e3o, traduz um sentido de atendimento ao p\u00fablico, um marketing \nde relacionamento (quando ningu\u00e9m no Brasil tinha pensado nesse \nconceito) que, junto com os doces e salgadinhos, o luxuoso mobili\u00e1rio \nart-d\u00e9co e o menu \u00e0 la carte<em>,<\/em> constituem, at\u00e9 hoje, &nbsp;vetores do encantamento &#8212; para turistas e cariocas &#8212; que a Colombo simboliza para os que a frequentam.<\/p>\n\n\n\n<p>A Confeitaria Colombo foi fundada numa segunda-feira, 17\/09\/1894, por\n dois imigrantes portugueses: Joaquim Borges de Meirelles e Manuel Jos\u00e9 \nLebr\u00e3o, (***) sobretudo ele, um rapazote sonhador mas dotado de um \nsentido \u201cde miss\u00e3o\u201d: ser s\u00f3cio e gerente de um estabelecimento \nespetacular, que<em> fizesse a diferen\u00e7a<\/em>.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Acertou no milhar! O Rio de Janeiro desta \u00faltima d\u00e9cada dos 1800, \nprecisava se curar da ressaca do fim do imp\u00e9rio (os \u00faltimos tristes anos\n do Segundo Reinado foram marcado pela Quest\u00e3o Militar, pela Quest\u00e3o \nReligiosa e pelas lutas abolicionistas) e resgatar a \u201cjoie de vivre\u201d, \nque era o estere\u00f3tipo do consumo nas cidades-luzes (Paris), com a \nmovimenta\u00e7\u00e3o da alta burguesia nas ruas, a presen\u00e7a das mulheres, o \nsorvete, as confeitarias, o cigarro, o vinho do Porto e o papo \ninteligente. Ah, sim: e era importante ser chique.<\/p>\n\n\n\n<p>O Lebr\u00e3o sentiu o sopro do bom vento e i\u00e7ou as velas. Mas como em \ntodos os casos de sucesso, a aud\u00e1cia, a pertin\u00e1cia e a intui\u00e7\u00e3o \nprecisavam da <strong>sorte <\/strong>(e precisar\u00e3o sempre)para turbinaremo \u00eaxito do empreendimento<strong>.<\/strong> E assim <em>cresceu<\/em> a Colombo.<\/p>\n\n\n\n<p>Sorte, porque o Lebr\u00e3o encontrou uma cidade deslumbrada pela \ncircula\u00e7\u00e3o de dinheiro. Desde 1845, a Bolsa de Valores j\u00e1 seduzia os \n\u201cbar\u00f5es do caf\u00e9\u201d que cansados de guard\u00e1-lo nas suas fazendas (da\u00ed o \nMinist\u00e9rio da Fazenda), decidiram financiar a abertura de bancos naquele\n quadril\u00e1tero aonde pulsava o bolso, a verve (m\u00eddia) e o erotismo da \ncidade: ruas Gon\u00e7alves Dias, Ouvidor, Sete de Setembro &#8230; e, logo a \nseguir, a Av. Central, hoje Rio Branco.<\/p>\n\n\n\n<p>Por conta disso, o \u201cbrado\u201d <strong>O Rio Civiliza-se<\/strong> podia ser demonstrado pelo <em>afrancesamento<\/em> da cidade. A elite carioca tinha se matriculado na <em>vibe<\/em>da\n Belle \u00c9poque: flanar pelas ruas, fruir o rosto parisiense dos espa\u00e7os \np\u00fablicos, apreciar o Art Nouveau das novas constru\u00e7\u00f5es, frequentar caf\u00e9s\n e confeitarias. E divertir-se. &nbsp;Falava-se franc\u00eas (\u201cenchant\u00e9, merci\u201d), \n&nbsp;bebia-se \u201co champagne\u201d, lia-se Balzac. As fam\u00edlias ricas iam a Paris \numa vez por ano \u201catualizar-se\u201d do que estava na moda e do que era o <em>dernier cri<\/em> no vestir, nos h\u00e1bitos sociais, nas leituras (e \u00f3peras) e no vocabul\u00e1rio social.<\/p>\n\n\n\n<p>E a Colombo, ent\u00e3o, passou a ser \u201co point\u201d elegante e certeiro para \nessa classe m\u00e9dia alta (por patrim\u00f4nio ou talento) ver e ser vista. \n&nbsp;Olavo Bilac, Bastos Tigre, Em\u00edlio de Menezes, Villa-Lobos, Gra\u00e7a \nAranha, Francisco Leite, Machado de Assis e Ruy Barbosa eram habitu\u00e9s. \nAli se bebia cerveja preta ou licores, ou conhaque, ou ch\u00e1, se discutia,\n se criavam <em>reclames <\/em>(<em>\u201c<\/em>veja o ilustre passageiro o belo \ntipo faceiro que viaja ao seu lado; no entanto, acredite: quase morreu \nde bronquite. Salvou-o o Rum Creosotado\u201d, Bastos Tigre). Em\u00edlio de \nMenezes, curitibano e r\u00e1pido nos epit\u00e1fios, escreveu num guardanapo \nsobre um conhecido pol\u00edtico lar\u00e1pio: \u201cquando ele se achou sozinho, da \ncova na escurid\u00e3o, surrupiou de mansinho os dourados do caix\u00e3o\u201d&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m deles, atra\u00eddos pelo \u201cimpulso centr\u00edpeto\u201d (Freud!), uma legi\u00e3o \nde advogados, m\u00e9dicos, bo\u00eamios cultos, escritores e poetas, muitos dos \nquais j\u00e1 frequentavam as confeitarias anteriores, sobretudo a Paschoal \n(1850) e a Cav\u00e9 (1860) marcavam encontro no novo palco da Cidade. \nPudera! A geografia ajudava: os principais jornais da \u00e9poca, o Jornal do\n Com\u00e9rcio, O Paiz e o Di\u00e1rio de Not\u00edcia, eram vizinhos na Rua do \nOuvidor. E, logo a seguir, o Jornal do Brasil, fundado em 1891, se \ninstalou na pr\u00f3pria Gon\u00e7alves Dias! Aos quais se somaram as revistas: o \nMalho, a Careta e Fon-Fon. E a menos de 2km dali, a Academia Brasileira \nde Letras, na Presidente Wilson. V\u00e1rios polos emissores de clientes!<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o havia tempo a perder. O Lebr\u00e3o mandou buscar em Antu\u00e9rpia, na \nB\u00e9lgica, espelhos de cristal com molduras de jacarand\u00e1 maci\u00e7o, medindo \n3,4m por 4m, e pesando cerca de 1500kgs cada!<\/p>\n\n\n\n<p>Mesas redondas (in\u00e9dito) de m\u00e1rmore italiano, m\u00f3veis esculpidos por \nartes\u00e3os, tudo para criar um interior esplendoroso. Comprou uma f\u00e1brica \nde marmelada. Importou vinhos e licores. Foi pioneiro no <em>delivery<\/em>\n (**). E&#8230; a partir de uma viagem sua \u00e0 Paris aonde frequentava \ndiariamente (como espi\u00e3o!) o Caf\u00e9 de La Paix e sentindo que deveria se \nabrir para todos os p\u00fablicos, instaurou o \u201cFive o\u2019clock tea\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Era a senha. Porque a partir dessa hora, come\u00e7ava a aparecer outra \nclientela \u2014 as madames e os seus coron\u00e9is \u2014 que ocupavam as mesinhas de \nm\u00e1rmore \u00e0 espera de outras emo\u00e7\u00f5es. Data da\u00ed o in\u00edcio da paquera (\u201co \nvelho, na porta da Colombo, \u00e9 um assombro\u2026) com a marchinha \nSassaricando, de Luiz Antonio, Z\u00e9 M\u00e1rio e Oldemar Magalh\u00e3es, sucesso do \nCarnaval de 52, sensualmente interpretada pela Virg\u00ednia Lane. Dizem que a\n letra contemplava tamb\u00e9m \u201cos prazeres solit\u00e1rios\u201d (<em>quem n\u00e3o tem seu sassarico, sassarica mesmo s\u00f3&#8230;<\/em>)<\/p>\n\n\n\n<p>E agora pasmem: a Colombo foi, tamb\u00e9m a primeira microempresa a \nantecipar os benef\u00edcio trabalhistas: come\u00e7ou a dar f\u00e9rias coletivas e \nf\u00e9rias remuneradas. E ainda em 1897 distribuiu 20% do lucro anual com os\n seus empregados (cerca de 400).<\/p>\n\n\n\n<p>Mais tarde, nos anos 20 e em diante, a Colombo foi frequentada por \ntodos os presidentes da Rep\u00fablica, com destaque para Get\u00falio, Caf\u00e9 \nFilho, Juscelino e recebeu, inclusive, num banquete a Mamie Eisenhower, \nesposa do presidente americano que nos visitou em 1960.<\/p>\n\n\n\n<p>Manuel Jos\u00e9 Lebr\u00e3o nasceu em Vila Nova de Cerveira, no alto Minho, em\n 1868. Veio para o Rio menino, numa terceira classe, em 1881, com 13 \nanos, portanto. Mas como os imigrantes da sua gera\u00e7\u00e3o, como uma \ncapacidade de trabalhar de <em>Remador de Bem-Hur<\/em>, como diria o \nNelson Rodrigues). Estagiou 3 anos na Confeitaria Carioca e, junto com o\n s\u00f3cio, partiu para essa aventura que at\u00e9 hoje se confunde com o melhor \ndo Rio de Janeiro. E a Colombo continua \u201cum assombro\u201d, com turistas \nestrangeiros e de outros estados brasileiros, chique de novo, bem \nfrequentada e bem servida, oferecendo um ambiente de familiar tradi\u00e7\u00e3o \nno cen\u00e1rio do entretenimento carioca do centro (t\u00e3o necessitado).<\/p>\n\n\n\n<p>Lebr\u00e3o morreu com 65 anos, em 1933. Bem haja, <em>mestre!<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>(*) por conta do \u201cfregu\u00eas tem sempre raz\u00e3o\u201d, conta-se o seguinte o \ncaso pitoresco: certa tarde de um senhor (?) se aproximou do balc\u00e3o, \nconsumiu dois camar\u00f5es empanados mas insistia que s\u00f3 tinha comido um. \nChamado a decidir, o velho Lebr\u00e3o sentenciou para o caixa: \u201dcobra a\u00ed um \ncamar\u00e3o &#8230; com duas cabe\u00e7as\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>(**) Ruy Barbosa era ass\u00edduo frequentador do almo\u00e7o na Colombo. Mas \ndormia muito cedo (tipo 8h da noite). E a esposa, Maria Augusta, adorava\n receber e servir doces e salgadinhos, regados a cerveja preta \nportuguesa e licores, ao som de piano e declama\u00e7\u00f5es no belo solar de \nBotafogo, at\u00e9 me tarde. Resultado: um dia o Conselheiro pediu ao Lebr\u00e3o \npara fazer a entrega: e nunca mais parou!<\/p>\n\n\n\n<p>(***) No fim dos anos 90, a Colombo foi vendida para a Arisco, que a \ncomprou porque possu\u00eda uma goiabada chamada Colombo. Mas n\u00e3o era o seu \nneg\u00f3cio e a Colombo entrou em franca decad\u00eancia. At\u00e9 que em 2002 o \nempres\u00e1rio Maur\u00edcio Assis, com familiares e s\u00f3cios, comprou a casa e a \nmarca e a recolocou no pedestal de prest\u00edgio e frequ\u00eancia que merece. \nAp\u00f3s a morte do Maur\u00edcio assumiu o comando o seu irm\u00e3o, Roberto Assis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-medium-font-size\"><strong>Reinaldo Leite Paes Barreto<\/strong><br>Vice-presidente do CE de Assuntos Culturais da ACRJ<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este mantra que o Manuel Lebr\u00e3o repetiacomo uma prece para o seu pessoal (*), bem poderia ser o sobrenome dessa singular Confeitaria Colombo, que completou&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1446,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[12],"tags":[],"class_list":["post-1445","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1445","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1445"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1445\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1446"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1445"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1445"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acrj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1445"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}