Menu fechado

Artigos

Eleições: U.S, Brasil e Pandemia

Eleições: U.S, Brasil e Pandemia

Por Ricardo Cravo Albin (*)

“Existe muita tristeza/ Na rua da Alegria/Existe muita desordem/ Na rua da Harmonia/ Analisando esta estória/Cada vez mais me embaraço/ Quanto mais longe do circo/ Mais eu encontro palhaço.” (Contrastes, Ismael Silva /Francisco Alves – 1940).

As eleições de agora nos Estados Unidos não apenas virarão o mundo de cabeça para baixo. Até porque já começaram a tirá-lo de seu eixo natural. E isso desde o começo, quando Trump, ao mesmo tempo em que se lançava candidato para substituir-se a si mesmo, vociferou para o planeta que as eleições poderiam lhe ser roubadas, por conta dos votos antecipados que chegariam pelo US Post, esta, uma das tradições mais sólidas do seu próprio país. Não disparou, contudo, de imediato uma bala de prata de sua pesada artilharia contra possíveis acusações, que ele sempre entende existir, o que é próprio de autocratas e de ditadores. Na noite desta madrugada Trump emitiu insolente declaração dizendo que não permitiria qualquer roubo na apuração de votos colocados no correio depois de encerrado o horário de eleição. De imediato, Biden respondeu às três da manhã que quem deve acompanhar o processo eleitoral são os juízes, cabendo aos candidatos se eleger ou não.

Essa declaração soou imprudente em se tratando da democracia considerada a mais estável do mundo, um sistema de governo criado pela enxuta Constituição de 1787, que se consolidou ao longo de 23 décadas.

As coisas iam bem nos Estados Unidos até a irrupção da Peste Universal. Ir bem para Trump era apenas uma economia próspera.

O surgimento de uma fato novo, além de inédito porque pandemia e, o pior, vindo da China, considerada por Trump o grande inimigo e concorrente, azedou o humor de um estadista grosseiro, vaidosíssimo, além de um espírito infantil e fanfarrão em qualquer padrão internacional, mesmo o da extrema direita, um Mussolini do sec. XXI. Agora às vésperas de o resultado das urnas ser definido, um outro fato grave ocorreu para perplexidade da América: cidades como Washington, Nova York ou Los Angeles, amedrontadas, isolam prédios públicos e comerciais com tapumes pelo temor de revolta popular de extremistas trumpistas – evento jamais sequer admitido na democracia de Franklin ou Lincoln.

A possível eleição do democrata Biden também tem muito a ver com o posicionamento desmedido de Trump ante a pandemia. E até a imposição por ele de remédio- salvador, a cloroquina, vetado pela OMS. O candidato à reeleição, também se viu antes da abertura das urnas em segundo lugar nas pesquisas, afundado no lodo de ir contra a recomendação da ciência e da OMS, sobre cuidados higiênicos de uso universal: máscaras, distanciamento social, lockdowns etc. Claro que a economia se estrangula, mas a vida, o bom senso, e a solidariedade prosperam. O que ficou claro desde o começo, ou seja, os eleitores não apoiariam a seu Presidente ficar ausente da tragédia com milhões de mortos.

O que tudo isso, uma possível derrota do trumpismo, tem a ver com o Brasil? Tudo. Palpiteiros despreparados no Planalto e a falta de assessoria internacional do Itamaraty levaram nosso Presidente inexperiente a cair nos braços de Trump desde o início, da maneira mais imprudente. Aí o infantilismo, e o despreparo diplomático juntam ambos, Bolsonaro e Araújo, em casamento carnal. O pior: Sem recíproca aparente dos Estados Unidos que ficou apenas na suposição do companheirismo ideológico. Fato político que acabou faz tempo para as grandes nações a governar o mundo.

O que provoca o impensável, o seu efeito deletério, ou seja, o prejuízo para o mais fraco, o Brasil, com a frustação de alianças econômicas estáveis, blocos políticos, e boa imagem em fóruns internacionais.

Caso Biden vença, o Brasil há que fazer acurada intervenção para repor o bom senso no bolsonarismo, misturando questões nevrálgicas como Meio Ambiente, Tecnologia, Exportações, alinhamentos ideológicos. Até porque os grandes países – e todas as tendências dos maiores teóricos de hoje em economia – repetem ad nauseam que governos só alimentam único interesse no exterior, a economia. Acabou o conto da carochinha, da varinha de condão para privilegiar amiguinhos pelas carinhas da Bela Adormecida, à direita, ou à esquerda da ideologia. O que passa a valer é o cofrinho e os interesses de troca. De puro ganho.

O articulista José Casado afiança no Globo de ontem que Bolsonaro conseguiu a proeza de assumir alto custo antes do resultado das urnas americanas. E as perdas tendem a ser maximizadas porque seu esteio político-empresarial continuará refém de Pequim, provedor de um terço das receitas na mineração, no agronegócio e na banca financiadora.

Nunca estiveram tão dependentes da China. E o amadorismo vai custar caro para nós.

A meu ver, e de muitos estrategistas brasileiros, o governo deveria convocar reuniões de Conselhos Emergenciais da Escola Superior de Guerra, de Altos Estudos, do que seja, com generais estrategistas, enfim, do porte nacionalista e/ou acadêmico de um Cordeiro de Farias ou mesmo Golberi. Desculpem o possível passadismo. Mas essa época, a desses brasileiros, ficou como exemplo de pensar um Brasil equidistante. E ainda dentro da essencialidade: Brasil, acima de tudo. Livre e sem amarras. Jogo da inteligência será sempre libertador.

(*) Benemérito e presidente honorário do Conselho Empresarial de Assuntos Culturais da ACRJ